Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Qual será o futuro da Amazônia?

 

Virgílio Viana, Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado do Amazonas

Do futuro da Amazônia depende o futuro de todos nós. Está claro nos resultados das pesquisas científicas que a floresta é fundamental para a regulação do clima da Amazônia e do restante da América do Sul, com fortes relações com o clima global. Como o clima está mudando em todo o mundo, se as florestas da Amazônia continuarem a desaparecer, as perspectivas não são boas. Entretanto, nem tudo está perdido e existem razões para manter acesa a chama da esperança.

 

A história da humanidade não é linear, felizmente. A queda do muro de Berlim, que marcou história no final do século passado, não era previsível dois anos antes. Modelos científicos de previsão das mudanças climáticas globais são ferramentas úteis para lidar, de forma científica, com a análise dos cenários para o nosso futuro comum. O modelo do Hadley Center, por exemplo, prevê que a totalidade das florestas amazônicas desaparecerá até 2050. O modelo feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aponta para uma perda de aproximadamente 50% no mesmo período. O que varia entre os modelos são os seus pressupostos teóricos e a magnitude das variáveis. O que importa é que todos apontam para o fim das florestas amazônicas, uns um pouco mais cedo e outros um pouco mais tarde.

 

Como podemos, então, alimentar a chama da esperança? A ciência nos diz que, se mudarmos radicalmente o padrão de desenvolvimento em todo o mundo, o processo de mudanças climáticas se estabilizará num patamar razoável para a sobrevivência humana. Para isso, precisamos de uma nova consciência ambientalista, de caráter global. Os modelos científicos não incorporam mudanças abruptas que acontecem no comportamento humano, como ocorreu em Berlim.

 

Podemos também alimentar a chama da esperança focando nos casos positivos que acontecem na Amazônia. A mídia, por sua predileção pelos desastres e tragédias, nos dá a falsa impressão de que nada ou muito pouco de bom está acontecendo. Felizmente, existem muitas iniciativas promissoras, com resultados expressivos, em toda a Amazônia.

 

O caso do Estado do Amazonas é exemplar. Há cerca de cinco anos, o governo do Estado distribuía motosserras gratuitamente. Ainda que hoje nos pareça chocante, o que estava por trás disso era uma visão de mundo muito comum em toda a história do Brasil. As florestas nativas sempre foram vistas como um estorvo para o desenvolvimento. Na mata atlântica, conseguimos acabar com tudo, ou quase tudo, que tínhamos: sobraram algo como 7% escondidos em fundos de vale e encostas íngremes. Sobrou também uma crescente indignação diante desse massacre – infelizmente tarde demais. O que temos de novo é que uma nova consciência ambientalista começa a ganhar escala enquanto ainda há tempo para mudar o rumo da história amazônica.

 

A mudança no rumo pode ser descrita em fatos e números. O desmatamento, que era de 1.582 quilômetros quadrados por ano em 2002-2003, caiu gradativamente até 780 km2 em 2005-2006: 51% a menos. Nesse período, a economia estadual cresceu cerca de 12% ao ano; quatro vezes mais do que a média nacional. As florestas cobrem hoje 98% da superfície do Estado. As unidades estaduais de conservação cresceram 135%. Os preços da andiroba, da castanha, da borracha e de outros produtos da floresta mais do que dobraram. O pagamento por serviços ambientais, pelo Programa Bolsa-Floresta, criou uma recompensa para as populações tradicionais e indígenas que assumem o compromisso de desmatamento líquido zero. Hoje, podemos dizer ao caboclo que a floresta vale mais em pé do que derrubada.

 

Ninguém desmata por burrice, ignorância, estupidez ou irracionalidade. O que motiva o desmatamento é uma racionalidade microeconômica simples, muito semelhante àquela que levou ao fim as magníficas florestas do Vale do Paraíba, do oeste do Paraná, etc..

 

A lógica microeconômica das famílias rurais é resultado de políticas públicas que, intencionalmente ou não, desvalorizam as florestas em pé e recompensam financeiramente o desmatamento.

 

A solução, portanto, depende de políticas públicas capazes de valorizar a floresta e de desestimular o desmatamento. As políticas de crédito e ciência e tecnologia, por exemplo, deveriam privilegiar o manejo florestal em relação à agropecuária.

 

Políticos tomam decisões com base no sentimento da sociedade – ainda que com diferentes graus de fidelidade. Alguns são mais audaciosos, outros menos. Alguns têm visão histórica de estadistas, outros não. O que precisamos é mudar a consciência ambientalista global, começando pelo nosso jardim, a Amazônia. Depois, devemos torcer para que essa nova consciência seja capturada por lideranças políticas sérias, audaciosas e com visão estratégica. Aí devemos apoiá-los para construir o que nos falta: um Projeto Nacional para a Amazônia.

 

De posse desse Projeto Nacional, devemos nos abrir para o mundo e exorcizar o fantasma da ameaça internacional. A melhor forma de defender nossa soberania é demonstrar que sabemos e queremos cuidar bem da Amazônia. Não devemos lutar pelo direito soberano de desmatar – isto é pouco inteligente. Em vez disso, devemos demonstrar a toda a comunidade internacional que o esforço pela conservação nos custa muito e beneficia a todos.

 

Não é justo nem ético que aqueles que se beneficiam dos serviços ambientais prestados por nossas florestas não compartilhem conosco o custo de manter funcionando essa megausina de estabilização do clima global. Devemos, portanto, instituir novos mecanismos financeiros internacionais para cuidar dessa assimetria ética.

 

O Brasil precisa despertar para a Amazônia. Precisamos de melhor cobertura de mídia sobre essa bela e complexa região do País. Finalmente, devemos torcer para que a nova consciência ambientalista no Brasil e no mundo ecloda o quanto antes. Quanto mais cedo acontecer isso, mais forte será a chama da nossa esperança.