Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Chaga dourada
Garimpeiros transformam a floresta intocada em paisagem lunar
José Maria Tomazela

O ouro não se esgotou rapidamente e os forasteiros seguem no local. Foto: José Luís da Conceição/AE
Desde que a corrida do ouro começou ali, em dezembro de 2006, autoridades e ambientalistas apostavam no rápido esgotamento do aluvião aurífero superficial. Quando se esgotasse a retirada manual dessa camada de ouro, os 5 mil forasteiros atraídos pelo “boato” – que é como os garimpeiros chamam os primeiros achados – iriam embora. Mas o ouro não se esgotou. Nas camadas inferiores do solo, há metal misturado à terra em quantidade que ainda compensa o processamento mecânico. Por isso foram trazidas mais de 130 máquinas, com motores a diesel de 8 hp.
Só se chega ao local de bote – quase uma hora de viagem rio abaixo, a partir de Novo Aripuanã. A cooperativa dos garimpeiros já reivindicou um caminho por terra. Tudo indica que ele será aberto, enquanto o garimpo avança mata adentro. Os troncos de tauaris, angelins e ipês, derrubados com motosserra, vão ficando para trás, como palitos descartados. Como tatus, os aventureiros cavam muitas trincheiras e vão transformando a floresta, antes intocada, numa paisagem lunar. A lama da garimpagem vaza para o rio, misturada ao mercúrio que, apesar de proibido, é usado às claras para purificar o ouro.
Em meados de setembro, a Cooperativa Extrativista Mineral do Rio Juma, criada para coordenar o garimpo, contava com 1.500 associados, mas no local havia mais de 3 mil pessoas. A floresta deu lugar a uma vila com rua comercial, padaria, açougue, farmácia, lojas, botecos, serraria e até uma casa de shows com strip-tease. Muitos garimpeiros construíram casas de madeira; outros moram em barracos montados na outra margem do rio. Num deles, dois homens descarnavam uma paca recém-caçada, pendurada entre duas estacas.
Na vila, há pontos de compra de ouro, mercadinhos, muito lixo a céu aberto e montes de garrafas vazias de marcas populares de cachaça. “Quem chegou primeiro se deu bem. Agora se trabalha muito por pouco”, diz o ex-garimpeiro Sebastião Barbosa Mendes, o Topa-Tudo. De todo o ouro que ele garimpou na Amazônia, só lhe restou o que hoje engasta seus dentes. Depois de mais de 30 malárias, Topa-Tudo adquiriu uma hérnia nos intestinos. Hoje, ganha a vida vendendo aguardente no garimpo. “Sem isso – diz, erguendo o copo –, não há garimpeiro que agüente.” Ele conta que alguns pioneiros acharam até 40 kg de ouro, uma fortuna avaliada em R$ 1,6 milhão.
José Ferreira da Silva, que veio de Mato Grosso com a família, contenta-se com os 40 ou 50 gramas que extrai por dia. Luciana Bibo é uma das poucas mulheres garimpeiras: “Tenho uma máquina e um pessoal trabalhando comigo.” O joalheiro artesanal Celso Chaves dos Santos achou uma forma diferente de ganhar a vida: as pessoas trazem o ouro e ele o transforma em anéis, brincos e colares. Já o fotógrafo Antonio Carlos da Silva cobra R$ 10 por foto de garimpeiro exibindo seus achados. A Polícia Militar mantém cinco homens no local para garantir a ordem. Os garimpeiros pagam 10% da produção à cooperativa, que repassa 4% para o dono da terra, Flávio Moreira Veras, o Zé Capeta.
O Ibama retira qualquer possível legalidade invocada para o garimpo. “A pessoa que se diz dona não tem a posse legal da área”, garante o analista ambiental Geraldo Motta. Zé Capeta contesta: segundo ele, a Justiça de Novo Aripuanã reconheceu a posse das terras. Mas o Ministério Público Federal (MPF) alegou crime ambiental e pediu o fechamento do garimpo; a decisão será dada pela 2ª Vara Federal de Manaus.
O próprio governo tem interesse na prospecção de minérios e pediu ao Serviço Geológico do Brasil (CPRM) um amplo levantamento mineralógico da região, que tem reservas de cassiterita e diamantes. As áreas serão depois entregues à iniciativa privada. Para agravar a situação, a Eletronorte estuda fazer pequenas barragens no Rio Juma.

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