Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Garimpando peixe no lago
Agnaldo Brito

Orlando Paulo da Silva, pescador de Presidente Figueiredo (AM), na rea da Usina Hidreltrica de Balbina. Foto: Ed Ferreira/AE
E não era um peixe qualquer, era o tucunaré, que agrada ao paladar das pessoas mais exigentes nos restaurantes de Manaus, a 180 quilômetros dali. A fartura do tucunaré em Balbina atraiu muita gente como Enoque e Raimundo, uns 15, 18 anos atrás. Hoje vários deles falam em ir embora: os peixes sumiram. Achar tucunaré nas águas turvas e silenciosas do gigantesco lago formado pela barragem de Balbina é tão difícil quanto achar pepita de ouro em garimpo.
Há poucas semanas, Enoque e Raimundo chegaram exaustos de sete dias de pescaria no lago de Balbina, com apenas 20 peixes numa caixa cheia de gelo. “Antes, 20 peixes a gente pegava em uma hora”, diz Enoque. “Hoje deu pouco. Dá para o almoço dos próximos dias. Depois, não sei.” Os dois irmãos não voltarão ao lago tão cedo: terão de cumprir uma quarentena. Em 26 de setembro, o Ibama baixou uma resolução instituindo o defeso do tucunaré no período de 1º de agosto a 30 de novembro.
A Colônia de Pescadores Z-06 de Presidente Figueiredo calcula que a produção mensal do tucunaré – consumido ali e também vendido para Manaus – não passa hoje de 7 toneladas. Francisco Carlos Pinheiro da Silva, presidente da colônia, afirma que a produção mensal chegou a 190 toneladas no início dos anos 90, logo depois de o lago de Balbina fazer girar as cinco turbinas da hidrelétrica.
Atualmente, Enoque e Raimundo fazem parte da colônia e integram o grupo de 150 dos 194 pescadores que terão direito ao seguro-defeso, um salário concedido pelo governo federal para que não entrem no lago no período de quarentena. “Quem sabe agora o peixe volte”, diz Enoque, esperançoso.
A pesca artesanal, profissional e esportiva, sem controle durante muitos anos, reduziu brutalmente o número de peixes; a própria barragem de Balbina também condenou à morte muitas espécies de peixe, como vários tipos de bagre.
Não é só isso. O governo federal criou duas áreas proibidas para os pescadores naquela região. Primeiro foi a Reserva Indígena Waimiri-Atroari. Depois o governo criou a Reserva Biológica do Uatumã. Ao serem pegos fora da zona permitida, os pescadores são multados. “Há muitos pescadores que perderam toda a tralha de pesca e foram multados com valores de R$ 1 mil, R$ 2 mil. Nenhum deles consegue pagar essas dívidas”, avisa o presidente da colônia de pescadores.
Tanta restrição já faz muita gente pensar em ir embora do lugar. João Francisco Marques Lobato, proprietário de um restaurante à margem do lago, anda descontente. O restaurante de Lobato, um maranhense que chegou a Balbina em 1992, é um bom termômetro da atividade econômica da vila. E por ali a situação não anda boa. A falta do peixe afastou os turistas da pesca esportiva e, agora, o período de defeso deve reduzir a captura do principal produto oferecido por Lobato, o tucunaré frito. No vou ficar aqui numa situação como esta. Ou o peixe volta, ou vou embora.”

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