Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Ricos e inertes

Carlos Marchi

Natureza morta no lago artificial produzido pela hidrelétrica, que inundou 2,6 mil quilômetros de florestas nativas. Foto: Ed Ferreira/AE

MANAUS - Os uaimiri-atroaris são talvez a única etnia que recebeu algum tipo de compensação visível por tragédias sofridas. Três pesados tratores passaram sobre a cultura deles na década de 70 – a construção da rodovia BR-174; a instalação do Projeto Pitinga, para extração de cassiterita; e a construção da hidrelétrica de Balbina. Os dois primeiros nem pediram licença. A hidrelétrica, que inundou 300 km2 de terras indígenas, pelo menos pagou a eles uma indenização que já soma US$ 12,1 milhões.

 

Os uaimiri-atroaris ficaram ricos e, ao mesmo tempo, inertes. Os belicosos índios que rechaçaram os contatos abusivos dos brancos desde o século 19 e que chacinaram a expedição do padre Giovanni Calleri em 1968 são hoje tão pacíficos que nem caçam e pescam mais. Vivem ociosamente da indenização de Balbina, gerida por um comitê integrado por dois representantes da Funai, um da Eletronorte e três índios. A etnia recebeu R$ 3,96 milhões no ano passado.

 

A idéia, explica o antropólogo Artur Nobre Mendes, da Funai, que integra o comitê, é dar a eles condições de se auto-sustentar. O dinheiro tem servido para construir escolas e montar criações de galinhas, patos, bois, caititus, capivaras, tartarugas e antas. Os uaimiri-atroaris eram 419 em 1988 e no final de 2006 somaram 1.169, graças a uma taxa de crescimento demográfico de quase 5% ao ano, que faz deles hoje uma nação de jovens – a idade média é de 17,3 anos. Em 2006, 729 deles estavam nas escolas da etnia e 26% dos alunos de 13 a 30 anos já estavam alfabetizados.