Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
51 horas rio abaixo
Uma aventura pela beleza absurda do Negro
Carlos Marchi

O capitão do barco durante percurso pelo rio Negro. Foto: Jonne Roriz
Na viagem de 51 horas de São Gabriel da Cachoeira a Manaus, ele descansou pouquíssimos momentos , e só depois que o barco entrou no trecho de navegação tranqüila. Dia e noite, sob sol ou chuva, toda semana Xavier conduz o Tanaka Neto IV pelos canais de navegação do Alto Rio Negro, driblando pedras submersas e bancos de areia imperceptíveis. Acima de Santa Isabel do Rio Negro, em direção às cabeceiras, não há cartas náuticas da Marinha – o único recurso possível é a memória prodigiosa de pilotos como Xavier, que guardam detalhes mínimos de uma rota com mais de mil quilômetros de extensão.
Não fossem eles, a Amazônia parava. O barco é o meio de transporte natural da região, capaz de abastecer as sociedades da floresta e mantê-las funcionando. De setembro a março, quando as águas dos rios diminuem de volume, as pedras afloram e os barcos grandes perdem a mobilidade. O Tanaka Neto IV, por exemplo, leva pouco mais de dois dias de São Gabriel a Manaus e três dias e meio na volta, rio acima; mas, nos meses de rio mais seco, a viagem pode durar oito dias, porque nem mesmo um perito como Xavier se arrisca a viajar de noite. Nessas épocas, quando escurece ele procura um refúgio na margem e ancora até o dia amanhecer.
O Tanaka Neto IV partiu pontualmente às 10 horas do barranco de Camanaus, a 30 km de São Gabriel da Cachoeira, depois de ser convenientemente abastecido de carne, frango, macarrão e arroz. A bordo, mais de cem pessoas, a grande maioria acomodada em redes no primeiro e no segundo conveses; quase todos são indígenas, das mais variadas etnias, que vão visitar parentes ou buscar alguém no hospital. Saindo de férias, um grupo de cabos e soldados do Exército vai direto para o terceiro convés, onde fica o bar. Cerveja gelada e música brega, reproduzida num som altíssimo, dessacralizando o silêncio da floresta, não faltarão em nenhum momento da viagem.
Três personagens do Tanaka Neto IV estão fugindo da polícia. Muller Faviery Moura Soares, que mora em Belém e viaja a outros lugares para fazer assaltos, tinha sido preso em São Gabriel com mais três cúmplices. Os quatro tinham roubado armas apreendidas no fórum da cidade e se preparavam para assaltar duas casas comerciais. Acabaram presos pela Polícia Federal e entregues à Polícia Civil. Muller pagou R$ 10 mil para que uma advogada lhe conseguisse um habeas-corpus. Solto, tentou voltar a Belém de avião, mas no embarque topou com os agentes da Polícia Federal que o haviam prendido e optou por ir de barco.
Quando o Tanaka Neto IV deixou São Gabriel, Muller se acalmou. Excitado com a reportagem, puxou conversa e contou sua vida de crimes. Matar gente? “Nem sei quantos caras eu já matei”, conta, como se falasse de banalidades. Aponta uma moça bonita, que também ia no barco, e diz: “Ela é traficante de drogas. Esteve presa em São Gabriel, foi solta e está se mandando também.” Perguntada, a moça apenas sorri e se nega a dar o nome. Os dois, recém-saídos da cadeia, conviveriam alegremente com os outros passageiros do Tanaka.
A.R. não foge, propriamente – se esconde. Vive hoje de vender material de construção, viajando de avião e de barco em circuito para 44 municípios dos Rios Amazonas, Negro, Madeira, Purus e Solimões. Conquistou clientes firmes e diz ganhar bem. Veio do interior do oeste paulista e não explica direito por que fez uma opção profissional tão extravagante e distante. Mas, quando o fotógrafo foi retratá-lo, se esquivou. “Deixa esse negócio de foto pra lá.”
Enoc Gomes dos Santos, ex-cabo do Exército, encontrou um nicho vendendo bebidas nas comunidades da beira-rio. Ele já conhece todo mundo nas cidades do Alto Rio Negro e é popular no barco. Antônio (da etnia dessano) viaja com seu primo Gilson e tem medo de redemoinhos no rio. Ouviu falar que barcos afundaram porque caíram neles. Os dois vivem no Rio Solimões, cujas águas barrentas têm jacarés, piranhas, piraíbas, pirararas, candirus e outras feras aquáticas que comem gente. Gilson o acalma: o Negro, com suas escuras águas ácidas, não tem nenhum desses bichos comedores de gente.
Clemente Baniwa e sua mulher, Lucila Kuripako, vão para Santa Isabel do Rio Negro, a primeira parada do barco, depois de visitar a mãe dela, que vive em São Gabriel. Ali, eles ganharam uma casa da prefeitura e resolveram deixar a aldeia. Agora, vivem da mandioca que colhem numa roça plantada no quintal da casa. O dinheiro da passagem, conseguiram vendendo farinha que Lucila faz em casa mesmo, repetindo os métodos que aprendeu na aldeia.
Depois de aportar em Santa Isabel do Rio Negro, o barco zarpa para a primeira noite da viagem. Vai logo enfrentar um temporal e um negrume absoluto, através do qual só os olhos de Xavier conseguem ver alguma coisa; ele sabe onde estão os canais navegáveis, os barrancos perigosos, os bancos de areia traiçoeiros. Nos momentos mais difíceis, acende o holofote da proa, acima da cabine de comando, lança o facho de luz sobre um barranco aqui, outro acolá e projeta um cálculo trigonométrico de algibeira. Apaga o facho e mergulha tranqüilo no negrume.
O temporal passa, mas a visibilidade não melhora. Nem assim Xavier alivia o motor de 375 hp que aciona o Tanaka Neto IV. Em alguns momentos, a velocidade parece temerária, mas depois de atravessar o temporal Xavier ganhou a confiança dos passageiros. Todos vão dormir e ele fica só na cabine, no segundo convés, driblando o sono: “Não, não durmo. Depois de tanto tempo, já acostumei.”
Almoços, jantares e café da manhã integram o preço da passagem (R$ 200) e são servidos no primeiro convés. É preciso ter paciência para esperar a fila enorme, tão logo um tripulante anuncia a mesa posta. A comida é colocada numa mesa improvisada, a três metros do motor, que resfolega no porão. O cheiro da comida se mistura com o odor acre do óleo diesel queimado. Depois do jantar, algumas pessoas sobem para o terceiro convés, para ver o Jornal Nacional e a novela da TV Globo no bar – menos os indígenas, quietos, tímidos, sempre enrodilhados em suas redes. Ver TV é um desafio: é preciso que alguém reposicione a antena de três em três minutos, pois o deslocamento do barco vai mudando o ângulo de captação.
A imensa maioria das pessoas dorme em redes, penduradas uma ao lado da outra, formando uma algaravia de cores contrastantes. Mesmo assim, não parece um cenário interiorano: alguns passageiros ouvem música em iPods; outros abrem o laptop e adiantam trabalhos; alguns poucos lêem livros ou apostilas. Os mais privilegiados estão em camarotes nada confortáveis: um beliche (cama de casal embaixo, de solteiro em cima), lençóis sujos e curtos, uma minitelevisão imprestável em cima do frigobar, um ar-condicionado que funciona mal. Fechada a porta, o ar fica abafado; não há janelas ou escotilhas. O banheiro é diminuto e o chuveiro, do qual verte água do rio, foi previsto para pessoas com menos de 1,65 metro. Mas a beleza da viagem, durante o dia, compensa tudo. A trajetória do barco alterna a distância das margens, mas a maior parte do tempo ele navega tão próximo que é possível ver macacos pulando nos galhos mais altos. Essa beleza toda, no entanto, não merece respeito dos viajantes.
No meio da tarde, uma voadeira se aproxima do barco. Nela vêm dois homens que vivem numa comunidade à beira do rio. Compram muitas latas de cerveja gelada no bar e saem, felizes. Quando a voadeira desgarra do Tanaka , um deles já abriu uma lata. A distância foi possível vê-lo dividindo tragos da cerveja com o colega e, mais adiante, jogando a lata vazia no rio. Ao longe, o que poderiam ser duas garças pousadas numa pedra são, na verdade, sacos plásticos estirados por um galho.
João Batista Hüpda é agente de saúde de sua aldeia, no Rio Tiquié, no extremo oeste do Amazonas, e vai a Manaus ver um tio que teve o braço operado. Não terá onde se hospedar: pretende dormir no hospital mesmo, ao pé da cama do tio. Ele conta que na sua aldeia, à margem do Rio Uaupés (um afluente do Negro), não tem mais peixe ou caça. “A gente come o que consegue trocar no comércio de Iauaretê”, diz. Agora as coisas estão melhorando, completa, porque algumas pessoas da aldeia já conseguiram entrar para o programa Bolsa-Família.
Na manhã do terceiro dia, já relativamente próximo de Manaus, Xavier foi, afinal, descansar um pouco. O piloto substituto, Eugênio, faz pose no timão. “Estamos passando pelas Anavilhanas?” Com o olhar perdido, ele mostra que não passa de um aprendiz e não tem a menor idéia do local onde está navegando. Não será muito difícil a alguém pilotar um barco com aquela quantidade oceânica de água para os dois lados. Já próximo a Manaus, o barco atravessa mais uma ciclópica tempestade. Depois de 51 horas, a viagem termina quando o Tanaka Neto IV aporta num barranco, que os manauaras chamam de “porto”, no bairro de São Raimundo.

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