Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Ao pé do ouvido

Líder ianomâmi enfrenta presidente da Funai

Roldão Arruda

O pajé Joaquim e o antropólogo Márcio Meira, em encontro na aldeia Maturacá. Foto: Nilton Fukuda

SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM) - Só de calção, a cabeça coberta de penas e o corpo pintado com urucum, breu e mel, o tuxaua Joaquim fica de cócoras diante do homem à sua frente, um sujeito de pele muito branca e ar preocupado. Ao lado, Armindo, o mestre-de-cerimônias – um ianomâmi robusto, de olhos claríssimos e lábios tingidos de verde –, faz sinal ao branco para que também se agache. Chegou a hora de ouvir o que o tuxaua tem a dizer. O branco no caso é o historiador e antropólogo Márcio Meira, presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), responsável pela administração de todas as terras indígenas do País. Ele acabou de fazer um longo discurso, traduzido para o ianomâmi por Armindo, dizendo aos índios o que o governo Lula tem feito por eles e o que ainda pretende fazer. Agora vai ouvir.

 

Joaquim é um velho líder e respeitado pajé da aldeia ianomâmi de Maturacá – distrito de São Gabriel da Cachoeira. Situado nos arredores do Pico da Neblina, e a apenas 28 km da fronteira com a Venezuela, o distrito só é alcançável por barco ou avião.

 

Quase toda a aldeia está reunida ao redor das duas autoridades. As pinturas nos corpos dos homens, jovens e velhos, são notavelmente criativas, assim como os brincos, colares, braceletes. Ao lado deles, com uniforme de estampa de camuflagem, três oficiais do 5º Pelotão Especial de Fronteira, grudado à aldeia, também assistem à cena.

 

Numa sombra um pouco afastada, duas velhas procuram piolhos na cabeleira de um garoto languidamente estirado no chão. Uma jovem amamenta o filho pendurado em seu corpo com uma tira de palha. Mais ao longe, um rapaz fala num orelhão.

 

Joaquim começa a discursar em tom baixo, pausado, como em uma conversa ao pé do ouvido. Aos poucos se exalta, ergue a voz, parece agressivo. Mesmo agitado, o velho equilibra-se na posição, de cócoras, a planta dos pés plenamente apoiada no solo. O presidente da Funai, no entanto, aparenta dificuldade cada vez maior para se sustentar.

 

Quando o tuxaua enfim termina, inflamado, os homens ao redor gritam e agitam altivamente arcos e flechas. Joaquim então se levanta, acompanhado por Márcio. Em seguida, solene, começa a despir seus adornos, vestindo-os no convidado, como prova de amizade.

 

Segundo Armindo, que se orgulha de falar o português quase tão fluentemente quanto o ianomâmi, o tuxaua disse em seu discurso que como líder e pajé se preocupa muito com o bem-estar de seu povo; e que espera do presidente da Funai a mesma atitude, pois sua obrigação é enfrentar os políticos em Brasília e cuidar dos interesses indígenas.

 

Antes de sair da aldeia, Márcio ainda recebe uma longa lista de reivindicações. Vão de computadores e internet a caminhões e pontes. Na volta, a bordo do avião da instituição, diz ao Estado que o desafio do Brasil na área indígena é garantir a sustentabilidade das terras já demarcadas. O mais complicado, continua ele, é que nenhuma aldeia é igual à outra. Outro grupo ianomâmi, que vive numa área mais isolada, tem reivindicações completamente diferentes das que ouviu em Maturacá.