Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Iguais, mas diferentes
Pelo mundo, Jecinaldo e Davi defendem seus povos
Carlos Marchi

Jecinaldo, presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). Foto: Jonne Roriz/AE
Davi Kopenawa Yanomami, de 51 anos, é o contrário. Nunca tinha saído da aldeia Demini, onde nasceu, mas, quando seu povo começou a morrer como passarinho, no fim da década dos 80, por causa da invasão dos garimpeiros na terra ianomâmi, ele – que mal falava português – foi denunciar o genocídio no exterior e ganhou o prêmio Global 500, da ONU. Davi não tem dificuldade em falar com os pajés porque ele mesmo é um deles. Não menospreza as lideranças indígenas politizadas, mas, “em vez de entregar documento”, prefere falar.
No dia 21 de setembro, em São Gabriel da Cachoeira, Davi olhou nos olhos do presidente Lula e – com o dedo em riste, para sublinhar o que diria – falou: “Eu não quero mineração na terra ianomâmi.” Lembrou que o garimpo matou 15% do seu povo, entre 1987 e 1990. Lula acedeu. Davi insistiu: “Romero Jucá anda dizendo lá em Roraima que é seu amigo.” (O senador Jucá é autor do projeto de lei que regulamenta a mineração em terras indígenas.) “Ele disse isso?”, balbuciou Lula. “Disse. E disse na televisão”, atalhou Davi. Lula, surpreso, não respondeu.
Jecinaldo combina um discurso radical com falas adocicadas. Diz que a autonomia indígena é sua bandeira para concorrer à Assembléia Legislativa do Amazonas em 2010. Dá uma na ferradura – diz se entender muito bem com os militares. E outra no cravo: quer mais terras indígenas na Amazônia (eles já têm 13% do território do País). Rejeita de bate-pronto qualquer idéia de fusão com os brancos, mas no fundo sabe que os sonhos das lideranças remam contra a correnteza: “Não quero que aconteça, temos de respeitar as diversidades.”
Os dois mais importantes líderes indígenas da Amazônia vivem em universos quase opostos. Ambos conhecem o mundo inteiro. Jecinaldo é um político nato; tem um argumento diferente para cada interlocutor. Davi, que foi candidato a deputado pelo PT em 1986, mas depois se afastou do partido, é o índio típico: fala as coisas com uma dureza cortante e, ao mesmo tempo, com uma suavidade que desarma. Jecinaldo está sempre preocupado em se legitimar com a aldeia para não se isolar. Davi é representante natural do seu povo.
O objetivo de Jecinaldo é fazer com que as nações indígenas tenham políticas próprias e as executem com seus agentes, gestores, médicos, professores. Falta muito para isso: não existem médicos indígenas, mas vai existir, promete Jecinaldo. A Coiab acaba de custear as passagens de 40 jovens indígenas que vão estudar Medicina em Cuba. Serão os primeiros e, para serem escolhidos, prometeram morar nas aldeias, na volta.
Diferentes no estilo e na ação, os dois têm parecenças. Davi vive dando conferências na Europa. Jecinaldo se relaciona com índios latino-americanos. E também critica Lula por não implantar o Luz para Todos nas TIs e por dar Bolsa-Família, que ele considera “uma esmola”, aos índios. Davi comanda a associação ianomâmi Hutukara. Jecinaldo coordena a Coiab.
As semelhanças acabam aí. Jecinaldo acha que o índio tem direito de explorar mineração nas TIs. Davi não quer ouvir falar de mineração. Davi só quer chefiar a sua nação. Jecinaldo acha que sonhar não custa nada; foi à posse de Evo Morales, que embala seus sonhos de ascensão política, e voltou mordido: quem sabe, um dia, ser presidente do Brasil branco?

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