Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Outros tempos, outros índios

O que o imaginário sugere é só meia-verdade

Carlos Marchi

Produção de farinha na aldeia tucana Curicuriari, na margem do Rio Curicuriari. Foto: Jonne Roriz

ALTO RIO NEGRO (AM) - Aquele glamour que a TV e o cinema sugerem é só meia-verdade. A vida real nas aldeias indígenas da Amazônia no século 21 é mais dura que agradável, mais laboriosa que lúdica, mais miserável que harmoniosa. O velho clichê dos indígenas pintados para a festa ou para a falsa guerra só acontece no dia em que os turistas chegam. Nos dias normais, a vestimenta é o uniforme oficial do índio da Amazônia: camiseta (geralmente de propaganda), calção ou bermudão e sandálias havaianas.

 

Essa vestimenta apaga a memória folclórica dos índios fortes e saudáveis que nus desafiavam a natureza. Na aldeia São Jorge, um flagrante de questionável higiene: uma índia fazia beijus num grande forno improvisado e os punha numa cesta, no chão; sobre eles pastava, sem ser molestada, uma franguinha. O contato próximo com os brancos fez a vida indígena ficar menos saudável. As 300 plantas usadas pela medicina ianomâmi sempre deram conta dos males indígenas, mas são inócuas ante as doenças dos brancos.

 

Hoje os índios da Amazônia morrem de doenças infecciosas (principalmente tuberculose e pneumonia) e crônico-degenerativas (diabetes, acentuada pelo consumo imoderado de açúcar). Já há registros relevantes de obesidade e seu maligno desdobramento, a hipertensão, em especial entre xavantes e suruís, no Pará, relata a médica e antropóloga Luíza Garnello, professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e pesquisadora da Fiocruz.

 

Começa a preocupar a freqüência com que o câncer tem sido detectado, embora os números não possam ser comparados com um passado sem registros médicos. Um recente relatório do Distrito Sanitário Yanomâmi (DSY) apontou 5.782 casos de malária entre janeiro e setembro de 2007, o que quer dizer que um terço da população ianomâmi está infectado. Mais grave: 31% dos casos são de Plasmodium falciparum, a forma mais grave da doença. Tudo isso piorou a partir de 2004, quando a Funasa de Roraima afastou as ONGs que terceirizavam a saúde indígena. Segundo o antropólogo Bruce Albert, da Comissão Pró-Yanomami (CCPY), as vacinações de BCG, febre amarela e gripe não são reforçadas pela Funasa, o que anula o valor da cobertura.

 

Luíza conta que boa parte das aldeias indígenas está se alimentando com produtos industrializados. Nem sempre as aldeias geram renda suficiente para comprar alimentos; acabam comprando (ou ganhando) o mais barato – e caem numa dieta muito pouco saudável.

 

A agente de saúde Laura Cordeiro dos Santos, de descendência baré, mora em São Gabriel da Cachoeira, mas viaja por 17 aldeias baniua do Rio Içana a cada dois meses. Esses índios, diz, têm uma dieta básica de carboidratos e padecem de desnutrição; como as cestas básicas quase nunca chegam lá, a principal fonte de proteínas acaba sendo as tanajuras que proliferam com as chuvas.

 

Os índios produzem poucos excedentes vendáveis à sociedade branca; os principais são farinha de mandioca, bananas e artesanato. “Fora isso, os que estudaram buscam empregos como professores, tradutores, intérpretes”, observa Luíza. Os jovens torcem pelo momento de servirem no Exército; como soldados, ganharão R$ 700 mensais, dinheiro que é um tesouro na aldeia. Aos sem-estudo, resta migrar para as cidades e buscar trabalho como vigia, arrumadeira, cozinheira, babá. “É o que eles podem almejar”, desabafa.

 

A esperança renasceu quando Lula se elegeu presidente pregando benefícios para as populações pobres. Eles se sentiam como as mais legítimas encarnações da gente de quem Lula falava. A Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Sócio-Ambiental (ISA) elaboraram um Programa Regional de Desenvolvimento Indígena Sustentável e em fins de 2002 o entregaram à equipe de transição que preparava o novo governo, conta Élio Piratapuia, mestrando na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O projeto previa que as próprias entidades indígenas assumissem a gestão de sua saúde, de sua educação e do desenvolvimento sustentável em suas terras. A resposta do novo governo foi um seco e decepcionante “não”. “Eles disseram que nós não podemos gerir recursos, porque somos tutelados”, conta Élio.

 

A falta de dinheiro não permite que os índios sonhem muito com mais qualidade de vida. O pouco que conseguem juntar vai para as compras mais urgentes: óleo diesel para voadeiras, munição para caça, comida, remédios básicos e sabão – os índios tomam até três banhos por dia. Devagar, surgem sinais da modernidade. Panelas de alumínio, por exemplo, já começam a substituir as tradicionais panelas de barro. Eles tomam mingau e caldos com cuias feitas de cabaças e cabeças de macaco, mas algumas aldeias já usam colheres de metal. O peixe é sempre comido com a mão.

 

Na cozinha, as evidências da transição estão a meio caminho: as vasilhas de barro e as cestas são substituídas pelas de alumínio e plástico. Ao lado do fogo – acendido com fósforos e isqueiros, nada de pauzinhos friccionados –, há sempre vasilhames de óleo de soja que vêm nas cestas básicas. Um almoço oferecido pelos barés da aldeia Fonte Boa, às margens do Rio Negro, junta hospitalidade e desculpas – sem liquidificador, o “suco” de cupuaçu é feito com pedaços de polpa adicionados à água (do rio, naturalmente), que dá à mistura a consistência de uma gosma nauseante. A “feijoada” com maxixe, macaxeira e abóbora só foi possível porque veio charque, cheio de nervos, na merenda escolar. O macarrão, também da cesta básica, completamente estranho à dieta indígena tradicional, é servido seco, sem molho, assim como o arroz, sem sal. Original mesmo, garantido, só o surubim cozido sem tempero ou sal e o beiju curadá.

 

A dieta nas aldeias amazônicas é paupérrima: depois que o peixe e a caça rarearam, eles perderam a fonte farta de proteína. A briga não é pelo carboidrato básico (a mandioca que a maior parte das aldeias planta), mas por fontes de proteína. Pouca opção resta além de charque e enlatados das cestas básicas, que são levadas pelas ONGs e pelos professores de universidades – que querem fortalecer laços com os indígenas –, mas, principalmente, são manipuladas por políticos.

 

Na maioria das aldeias, a existência de uma escola é atribuída à necessidade de educar os jovens perto das tradições, mas, por trás dessa nobilíssima função, é consenso que a escola tem também um sentido utilitário urgente: é a garantia de que a merenda escolar virá.

 

Em poucas aldeias, a cobertura de sapé já foi trocada pelo zinco. Mas as antigas ocas (que eles hoje chamam de “casas”) ainda são, em sua imensa maioria, de adobe ou casca de árvore. Tijolo e cimento custam caro; encanamento, nem pensar.

 

Vários projetos para incorporar tecnologia ao trabalho indígena deram errado. Uma ONG tentou implantar a apicultura entre os baniuas – o mel é um alimento nobre para quase todas as etnias –, mas um equívoco biológico fez com que fossem selecionadas abelhas que tinham predadoras na região. Não sobrou nenhuma para produzir mel. Um projeto de piscicultura mediante inseminação artificial com sedimento de hipófise, para recuperar a piscosidade das águas ácidas do Rio Negro e afluentes na região de baniuas e tucanos, custou caríssimo e, no fim, não funcionou.

 

A várias etnias, a Funai entregou galinhas para formar criações, mas não se deu conta de que eram animais geneticamente modifi- cados para botar ovos híbridos. Durante meses os índios tentaram fazer com que as galinhas chocassem seus ovos e deles não saíam pintos. Um projeto tentou ensinar os uerequenas do Rio Xié a explorarem piaçava; também deu errado. Agora Teolene, coordenadora da escola da Fonte Boa, sonha com o galinheiro da sua aldeia, sem se dar conta de que, antes, tem de aprender a criar galinha, esse ET do século 21 que desembarca na Amazônia com a aura de substitutivo do inhambu e alternativa protéica que dispensa a caça.