Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Sem caça nem pesca

Eles agora querem qualidade de vida

Carlos Marchi

São Gabriel da Cachoeira, cidade onde cerca de 90% da população é descendente de índios. Foto: Jonne Roriz

ALTO RIO NEGRO (AM) - Numa visita a sua aldeia, no Rio Andirá, o líder indígena Jecinaldo Sateré foi desafiado a ir à caça. No primeiro arremesso, flechou um macaco, mas não acertou um ponto vital; o macaco continuou pendurado num galho. Com medo de errar novamente e ver abalada a sua liderança perante os guerreiros sateré-maués, pegou uma espingarda, mirou, atirou e derrubou o macaco. Jecinaldo é hoje um indígena que vive mais tempo na cidade que na aldeia e está convencido que a espingarda funciona muito melhor que o arco e flecha.

 

Ranieli, 6 anos, da aldeia Ponta Alegre, no Rio Amazonas, perto de Parintins, nunca viu uma boneca industrializada. Resolveu de maneira singela a sua vontade de ser “mãe”: adotou um filhote de macaco guariba cuja mãe foi inadvertidamente morta por caçadores da aldeia. O filhote de guariba – um macaco extremamente agressivo – é o “filho” perfeito. Mexe-se, chora, responde à afetuosidade verdadeiramente maternal de Ranieli. Aqui, a modernidade perdeu um ponto.

 

Em muitas das aldeias do Rio Negro, a antena parabólica que já trouxe sinal de televisão está quebrada e abandonada. Antes, servia para captar as aulas de formação a distância, conta Teolene, coordenadora da escola da aldeia Fonte Boa. A televisão não faz muita falta, admite Teolene: os índios, principalmente as meninas, estão encantados com o vôlei e muitas aldeias têm uma rede em campo de areia. Mas o que Teolene gostaria mesmo de ter na aldeia é um freezer, para armazenar carne e peixe. O freezer, no entanto, é um sonho distante, porque a energia elétrica está muito longe das aldeias e não há dinheiro para custear combustível que alimente um gerador 24 horas por dia.

 

Na verdade, índios caçadores e pescadores já não são tão freqüentes na Amazônia real. A geógrafa Ivani Ferreira de Faria, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), afirma que, em sua ação missionária, a Igreja passou a dar utensílios e alimentos aos indígenas, desestimulando a caça e a pesca: “O que a Igreja fez foi um etnocídio. Destruiu a maloca, a língua, as tradições, os rituais.” Impediu, por exemplo, os infanticídios, em geral causados por deficiências físicas. “O infanticídio, por mais hediondo que nos pareça, faz sentido na cultura indígena. Um deficiente não sobrevive na floresta”, diz a socióloga Marilene Corrêa, reitora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

 

Sem a mesma habilidade ou disposição para pescar e caçar como no passado, os índios da Amazônia querem, acima de tudo, melhorar sua qualidade de vida, incorporando novas tecnologias. “Não conseguimos mais caçar e pescar como antigamente”, reconhece Jecinaldo. Quem perguntar a qualquer um deles qual o objeto mais precioso para sua aldeia, ouvirá que é uma voadeira, preferivelmente com motor de popa de 40 hp – e torcem o nariz para as rabetas, com motor de 15 hp ou menos; em segundo lugar, vem o freezer; em terceiro, sim, senhor, um computador para se ligar ao mundo.

 

Mas essas benesses custam dinheiro, que os índios em geral não têm porque produzem pouco excedente vendável. Há brilhantes exceções, no entanto. Os sateré-maués exportam guaraná para a Itália. Antes, vendiam o guaraná em rama a R$ 3 o quilo; agora, recebem R$ 15 por quilo. O guaraná em pó é vendido, segundo eles, a e 37 o quilo. Das aldeias sateré-maués saíram, em 2006, 7 toneladas de guaraná em rama e 4 toneladas de guaraná em pó, de colheitas feitas por 380 famílias indgenas. Cada uma delas colhe e beneficia o guaraná, mas o resultado das vendas reverte para o coletivo. O dinheiro apurado está sendo bem empregado: a aldeia Mocongotuba, no Rio Andirá, consome 4 bois e 200 frangos por mês – nada de antas e pacas; e agora tem coleta de lixo, melhoramento inédito na Amazônia indígena.

 

O mais corriqueiro para conseguir recursos é fazer artesanato que será vendido em lojas de Manaus e outras cidades do Brasil e do mundo. Jecinaldo aposta em dois projetos-piloto de turismo ambientado em aldeias indígenas – que serão testados durante dois anos entre os sateré-maués e tucanos. Se der certo, serão multiplicados por outras etnias. Alguns povos se adiantaram, firmaram convênios informais com operadoras de turismo e recebem turistas nas aldeias. Cabe aos índios atuar no papel de... índios, simulando a vida cotidiana na aldeia, para gáudio dos surpresos visitantes. Os sateré-maués de Jecinaldo construíram uma réplica da aldeia ao lado: os turistas visitam a réplica povoada por “atores” e não interferem no curso da vida real.

 

Todos – os que sabem e os que não sabem ganhar dinheiro – já descobriram que é essencial fazer parceria com uma das muitas ONGs que atuam na Amazônia e que, em geral, sucederam ao trabalho missionário da Igreja Católica. As ONGs não têm rigores morais ou religiosos, não contestam tradições, incentivam o uso da língua materna, têm criatividade e saber técnico para criar projetos, sabem como negociar com os governos e ainda arregimentam fartas verbas para educação e para trazer artefatos que melhoram a vida.

 

Os indígenas não têm problemas em se relacionar com a modernidade dos brancos: “Eles fazem isso desde o século 18”, registra o historiador John Manuel Monteiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O antropólogo Almir Carvalho Júnior, diretor do Museu Amazônico da Ufam, em Manaus, absolve a ansiedade por importar tecnologias dos brancos: “O acesso às novas tecnologias não cria nenhuma ruptura com o passado.” De fato, a maior parte dos índios não quer se mudar da floresta; quer continuar lá, mas vivendo a vida de uma forma mais prática. Um dos presentes mais almejados por eles é uma faca ou um canivete. Almir Tukano, segundo “capitão” da aldeia Fonte Boa, justifica: “Você não faz idéia como é difícil descarnar uma paca com faca de pedra.”