Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Uma guerra silenciosa
Índios e brancos se enfrentam em batalhas violentas e fatais
Lourival Sant’Anna
JUTAÍ (AM) - Eram por volta de 11 horas da manhã. Elisete e sua sogra, Francisca, estavam fazendo queixada e arroz para o almoço. Os seis homens estavam no mato, derrubando madeira. Carlinha, de dois meses, dormia na rede pendurada nos caibros da tapiri (cabana com teto de palha) sem paredes. Os índios chegaram andando de quatro, para não serem vistos. Eram uns 30. Elisete lembra que os achou brancos e gordos. Alguns traziam macacos agarrados nas costas.
Invadiram a tapiri empunhando cacetes. Elisete caiu no chão já no primeiro golpe. Francisca, na época com 45 anos (isso foi há pouco mais de dois anos), apanhou mais. Enquanto batiam, os índios falavam na sua língua com outros que estavam no mato. Quando as duas mulheres estavam caídas no chão, uma índia se aproximou da rede e arrancou Carlinha de lá. Puxou-a pelas pernas e bateu várias vezes sua cabeça no chão de madeira, sob o olhar da mãe e da avó. “Carlinha ficou caída”, recorda Elisete, 20 anos, hoje com um filho de 1 ano. “A cabeça dela ficou toda moída.”
Os índios fugiram levando tudo o que havia na tapiri: farinha, cartuchos de espingarda, velas, açúcar, café e roupas. As mulheres foram para a canoa ancorada no Igarapé do Lobo. Esperaram até as 18 horas, quando os homens chegaram. Carlinha foi enterrada na “colocação” mesmo. Os 100 metros de cedro cortados foram abandonados na floresta. Os homens não foram atrás dos assassinos. “Não pode matar índio”, explica Elisete. “Diz que o pessoal da Federal, ou é da Funai, fica com raiva.”
O pai de Carlinha, José Carlos Teixeira, de 26 anos, conta que seu avô instalou-se na colocação há 48 anos (ele sabe com precisão porque seu tio, hoje com essa idade, tinha 2 meses – a mesma idade de Carlinha – quando se mudaram para lá).
Índios tucanos chegaram a conviver ali, com seu pai, “um bocado de tempo”, conta José Carlos. Talvez o mesmo povo que matou sua filha: “Calculo de ser esses tucanos mesmo, eu digo, porque não tem outros índios aí.” Na época, era diferente. “Os tucanos não mexiam com a gente”, diz ele. “De uns tempos pra cá foi que eles deram para pegar nossas coisas. Calculo que eles queria que nós saísse dessa área (sic).”
A colocação de seu avô foi incluída na Terra Indígena Vale do Javari, homologada em 2001. José Carlos viu que outras famílias em situação semelhante foram indenizadas. Disseram-lhe que ele não podia largar a terra, que fica a um dia e meio de rabeta da comunidade Goiabal, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Cujubim, onde ele vive. Se não, perderia o direito à indenização.
Depois do assassinato de sua filha, José Carlos foi à sede do município de Jutaí, a quatro dias de rabeta do Goiabal. Conversou com um funcionário da Funai, que “disse que não tinha nada a ver com isso”. Os policiais federais lhe sugeriram que pegasse os índios e os levasse para a sede do município, relata José Carlos. Já os policiais militares queriam que ele os matasse, recorda. “Mas não podemos matar índio, e matar um peste desse não ia resolver nada”, raciocina José Carlos. Ficou por isso mesmo. “Já fiz foi esquecer isso já”, diz o pai de Carlinha, que não chegou a ser registrada. “Tanto tempo faz...”

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