Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Infernais expedições ao paraíso
Belos livros narram 300 anos de desbravamento
Daniel Piza

Garimpeiros preparam paca para consumo. Foto: José Luís da Conceição/AE
A mais recente narrativa de uma expedição amazônica é O Rio da Dúvida, de Candice Millard, que leva o subtítulo A sombria viagem de Theodore Roosevelt e Rondon pela Amazônia. Millard é uma jornalista americana da revista National Geographic e escolheu uma grande história para contar. Que um ex-presidente americano tenha se juntado ao então coronel Cândido Rondon, em 1913 e 1914, para uma expedição pela floresta tropical, que acabaria por definir o traçado do hoje Rio Roosevelt, já é uma sinopse assombrosa. Além disso, a viagem foi cheia de acontecimentos e reviravoltas e, como o leitor já percebeu, tinha dois personagens fortes, porque complementares e contrastantes – um gordo e metódico, o outro baixinho e destemido. Se Roosevelt e Rondon não deixaram grandes relatos sobre a aventura, Millard faz esse papel.
Roosevelt não queria simplesmente uma aventura para contar aos netos, uma espécie de safári como os que de vez em quando fazia em paragens distantes da vida política de Washington – o que, de resto, Rondon jamais aceitaria. Roosevelt levou a sério a expedição, cujo objetivo central era colher espécimes de fauna e flora e fazer contato com tribos indígenas. O que ele não esperava – pelo menos não em tal intensidade – eram as chuvas torrenciais, as doenças tropicais, os transtornos causados por insetos e piranhas, a fome e as mortes no grupo e a infecção que assolou sua perna no trecho final da viagem. De qualquer modo, o ecossistema “complexo e interdependente” que conheceu superou todas as suas expectativas e justificou todos os seus esforços.
A densidade opressiva da Amazônia, hostil em alguns momentos, vista por Roosevelt e Rondon é comum à maioria dos relatos. Não por acaso Euclides da Cunha, que já viajara pela caatinga baiana para escrever Os Sertões, achou na floresta amazônica um ambiente muito mais complicado, “indomável”, a tal ponto que decidiu que sobre ele escreveria sua obra-prima da maturidade, com o significativo título Um Paraíso Perdido, se não tivesse morrido antes em duelo. Mas não é apenas esse o tom que se encontra nos muitos livros já escritos – embora tantos estejam esgotados ou nem sequer tenham sido traduzidos no Brasil – sobre o tema. Por sinal, foi também de um estrangeiro a idéia de fazer um livro sobre os principais exploradores da Amazônia, Explorers of the Amazon (Viking, 1994), do historiador Anthony Smith.
Mesmo em relatos mais técnicos, por assim dizer, a nota de assombro aparece intermitentemente, como os torós. Em outro livro recentemente publicado no Brasil, Do Roraima ao Orinoco, o naturalista alemão Theodor Koch-Grünberg relata suas viagens pela Amazônia brasileira e venezuelana também no início do século 20, entre 1911 e 1913. “O rio (Branco) está repleto de inúmeras ilhas. As ilhas e as margens estão bem abaixo da água, de modo que, em alguns trechos, só as copas das árvores sobressaem tristemente.” Antropólogo e botânico, ele não conseguiu chegar ao seu objetivo, as nascentes do Rio Orinoco, mas seus estudos da cultura e da língua de povos indígenas em Roraima se tornaram clássicos. Sua narrativa é ao mesmo tempo pessoal e objetiva.
Também no ano passado saíram livros importantes sobre a Amazônia, como a quinta edição do Livro de Ouro da Amazônia, de João Meirelles Filho, e Notas de um Botânico na Amazônia, de Richard Spruce, um inglês contemporâneo e correspondente de Darwin e Wallace. Spruce passou nada menos que 15 anos no Brasil, de 1849 a 1864, com o objetivo de completar a pesquisa de Alexander von Humboldt, o célebre naturalista alemão, tido como “o último dos renascentistas” por seus conhecimentos em várias áreas. Humboldt, que Darwin considerava seu herói, foi o mais importante expedicionário a viajar pela Amazônia, entre 1799 e 1804, mas infelizmente a monarquia portuguesa o impediu de entrar no território brasileiro.
A Portugal, que até então fizera apenas explorações militares e comerciais na Amazônia, não interessava estudá-la cientificamente, o que mostra seu descompasso com o iluminismo que já tomara conta da Europa Ocidental e dos EUA. O único viajante português que dera atenção à pesquisa foi Alexandre Rodrigues Ferreira, nos anos 1780, mas em segundo plano em relação à demarcação territorial. Antes dele, apenas o francês Charles Marie de la Condamine tinha feito uma viagem científica, nos anos 1730. A partir da chegada da corte portuguesa em 1808, porém, cresceu muito o número de estrangeiros que vieram conhecer sua fauna e flora: Johann von Spix, Carl von Martius, Henry Walter Bates e William Chandless, além de Wallace e Spruce.
A era de ouro das expedições científicas do século 19 foi marcada por essa mistura do espírito de aventura com a sede de conhecimento. O alemão Von Martius deu especial contribuição com os 17 volumes de Flora Brasiliensis, inventário hoje disponível na internet. Entre 1821 e 1829, houve também a famosa Expedição Langsdorff, nome do barão russo que a coordenou, levando consigo uma equipe de cientistas e desenhistas, entre os quais se destacaram o francês Hercules Florence, autor de Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas (e um dos inventores da fotografia), e o pintor holandês Johann Moritz Rugendas (cujo trabalho, editado em três volumes pela editora Alumbramento em 1989, hoje está esgotado), que abandonou o grupo em Mato Grosso.
Outra viagem que merece destaque e está a pedir um livro foi a do suíço Louis Agassiz, um biólogo importante que criticava a mistura étnica humana. Em 1865, chegou à Amazônia para tentar atacar em bases científicas a Teoria da Evolução e defender o criacionismo. Estudando os peixes de água doce, ele pretendia provar que os fósseis só se distinguem de espécies atuais em função de cataclismos ocorridos no passado, e não por um processo de seleção natural. Além disso, suas fotos de índios tinham a intenção de mostrar que a fusão de raças traria a degeneração do ser humano. Ironicamente, foi na mesma Amazônia que Wallace, deslumbrado com a diversidade local, se convenceu de que a história da natureza envolvia disputas de aptidões ao longo do tempo.
As expedições científicas pela Amazônia, naturalmente, seguem vivas. O IBGE patrocina uma delas, coordenada por Guido Gelli, cujo objetivo é a comprovação de que o Rio Amazonas é mais extenso do que o Nilo, chegando a 6.850 km. Outra é a realizada pelo Instituto de Pesquisas Amazônicas (Inpa), sob direção de Mario Cohn-Haft, e estuda a região entre os Rios Purus e Madeira, onde descobriu muitas espécies de aves, aracnídeos e macacos ainda não catalogadas. Há quase 300 anos a Amazônia é admirada e estudada, mas segue desconhecida.
de Koch-Grünberg, trad. Cristina Alberts-Franco, Unesp, 376 págs. R$ 130
de João Meirelles Filho, Ediouro, 448 págs. R$ 69,90
de Richard Spruce, trad. Eugênio Amado, Itatiaia, 400 págs. R$ 60
de Candice Millard, trad. José Geraldo Couto, Companhia das Letras, 395 págs. R$ 53

.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)
.gif)