Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

O legado dos padres

 

Computadores no centro de treinamento indígena em Manaus. Foto: Jonne Roriz

SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA (AM) - As missões salesianas chegaram ao Rio Negro em 1915, para assumir a terceirização do controle sobre os indígenas do noroeste amazônico. A União pagava aos salesianos. Mais tarde, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou a lhes dar suporte. Os padres criaram internatos rigorosos, em que meninos e meninas índios estudavam separados, não podiam falar a língua materna nem invocar tradições culturais da sua gente. Acabaram colhendo o ódio dos índios. Estevam Tukano, presidente da Confederação das Organizações Indígenas e Povos do Amazonas (Coiam), não esconde – odeia os salesianos. A socióloga Marilene Corrêa, reitora da UEA, diz que o ódio dos índios aos salesianos não se justifica totalmente. Os missionários foram inflexíveis, mas deram a base cultural das lideranças que hoje pontificam. As escolas tinham oficinas de várias profissões.

 

Na década dos 70, a ditadura mudou o modelo de ocupação da Amazônia e substituiu a Aeronáutica – que ajudava as missões – pelo Exército. Os recursos antes destinados aos salesianos secaram. Os padres tiveram de acabar com os internatos, mas mantiveram os métodos rigorosos de ensino. Depois, foram entregando os pontos. Primeiro, mudaram o regime de ensino e passaram a acatar os valores indígenas; neste ano, entregaram as direções das escolas, que agora têm administradores indígenas. Hoje os salesianos só têm escola de ensino fundamental e médio em Iauaretê e muitas de séries iniciais em outras localidades. Alguns religiosos continuam como professores, mas já não existe a proibição do uso de língua indígena: ao contrário, eles aderiram ao ensino no dialeto indígena. O tufão que varreu os salesianos da Amazônia atingiu de cambulhada o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que perdeu espaço entre os povos indígenas. Hoje, o Cimi, uma perna da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), só é forte entre os índios do Nordeste.