Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Sólidas alianças
Nem Funai, nem Igreja: parceiras hoje são as ONGs
Carlos Marchi

Computadores no centro de treinamento indígena em Manaus. Foto: Jonne Roriz
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab), com sede em Manaus, com 180 entidades indígenas filiadas – entre elas a Foirn –, funciona como uma federação sindical. Seus líderes têm uma mobilidade invejável: nunca lhes faltam passagem de avião e voadeira para encurtar as enormes distâncias amazônicas, graças a sua aliada, a ONG The Nature Conservancy. Essa estrutura e essa mobilidade começaram a existir depois que as lideranças indígenas se aliaram às organizações não-governamentais (ONGs) e às universidades, em especial a Ufam e a Universidade Estadual do Amazonas (UEA).
Antes, as alianças – impostas, e não negociadas – eram com a Igreja e o governo. No início dos anos 90, a Igreja foi afastada e os evangélicos continuaram influenciando algumas etnias menos importantes. As ONGs mostram muito mais capacidade de arregimentar recursos e fornecer conhecimentos, equipamentos e bens estratégicos aos índios. As universidades, embora enfrentem barreiras burocráticas para funcionar na floresta, podem oferecer um bem que vale ouro para as novas lideranças indígenas – uma boa educação.
Se a Coiab é a entidade-mãe, a Foirn é o exemplo de organização bem estruturada. Sua sede, em São Gabriel da Cachoeira, é um prédio amplo, com uma enorme maloca simbólica no fundo, palco das grandes assembléias; o coordenador, Domingos Tukano, tem um gabinete de 30 metros quadrados, com ar-condicionado e um cartaz de Evo Morales, sua referência política, na parede. Na garagem, oito voadeiras motorizadas, prontas para servir ao deslocamento dos líderes e para atender a chamados urgentes das muitas aldeias do Alto Rio Negro. Num prédio próximo à sede, funciona a loja Wariró, que vende artesanato indígena a turistas e capta renda para a entidade.
Uma reunião do conselho da Foirn, juntando as 22 etnias do Rio Negro, evidencia a capacidade de organização política trazida pelas ONGs. A reunião é uma babel, porque representantes de muitas etnias falam em sua língua. O representante baniua, por exemplo, discursou meia hora em sua língua, que nenhuma das pessoas presentes entendia. O forte da Foirn é a comunicação eletrônica: a entidade está interligada a 110 pontos de radiofonia, fixados nas maiores aldeias e nas vilas.
As reuniões da Foirn dispõem de uma estrutura tecnológica invejável, fornecida pelo ISA: três microfones sem fio se revezam nas mãos dos oradores; um laptop novo projeta datashow sobre um telão; celulares pipocam a toda hora. O ISA produziu um vídeo sobre o resgate do personagem mitológico Ahkomi, fundador da etnia tariano, e os representantes das outras etnias passaram a reclamar um vídeo igual. A atual fixação dos indígenas é registrar a sua história, que sempre se sustentou pela tradição oral – e o vídeo é o melhor registro possível.
Esses aparatos modernos encantam os índios. As ONGs podem dar tudo isso, e muito mais, com seus orçamentos constantemente engordados por captações no exterior, que são alimentadas pelo atrativo exuberante dos índios, como representantes de um universo sociocultural exótico. E ainda têm uma agilidade que a Funai nunca pensou ter. As ONGs ajudam os índios, mas, da mesma forma que escolheram os atuais líderes, são elas que selecionam os jovens que vão estudar: só serão ajudados os que lhes forem próximos e simpáticos.
As ONGs começaram a chegar à Amazônia de meados para o final da década de 80, para celebrar o que parece ser, além de um encontro conveniente, uma parceria perfeita. Com a ajuda das ONGs, as novas lideranças indígenas apresentam projetos criativos, exibem uma impressionante agilidade de movimentos, aprenderam a fazer lobby político, a abordar empresas e a descobrir oportunidades. Conseguem benefícios para as aldeias (e assim cativam os “capitães” ou caciques). Esses novos líderes puderam estudar e agora estimulam os jovens da aldeia a fazer o mesmo, para reproduzir o mesmo modelo no futuro.
Hoje, as ONGs são a sólida retaguarda do movimento indígena. Orientam, aconselham, ajudam a pensar, a elaborar e a organizar – e, principalmente, trazem recursos copiosos. Foram elas que arquitetaram, sob o olhar conformado da Funai, a distância, a engenhosa fórmula de montar uma enraizada rede de entidades para defender as terras indígenas (TIs) demarcadas. A demógrafa Marta Azevedo, do ISA e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que recentemente recebeu uma queixa de Catarina, da comunidade tupi-guarani de Rio Branco, perto de Itanhaém, em São Paulo: “Aqui a gente não tem ONG, que nem na Amazônia, e não consegue nem fazer um projeto.”
Antes de a The Nature Conservancy (TNC) desembarcar na Amazônia, o pessoal da Coiab nem sabia o que significava etnomapeamento; hoje, esse trabalho, essencial na vigilância sobre as TIs, é feito com eficiência – e de graça. A Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e a Conservação Internacional operam na elaboração de políticas públicas para os povos indígenas, a primeira com o povo ianomâmi e a segunda, com os caiapós.
Muito ativas na área da educação, as ONGs se afastaram dos trabalhos na área de saúde, depois de muitos desentendimentos com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), principalmente em Roraima. A Uri-hi, criada para ser o braço da CCPY na área da saúde, parou de funcionar em 2004, depois de longo confronto com aliados do senador Romero Jucá (PMDB-RR) que mandavam na Funasa local.

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