Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Um general de olho nas ONGs

 

Tânia Monteiro

General Augusto Heleno Pereira, comandante militar da Amazônia. Foto: Ed Ferreira/AE

As maiores aliadas dos índios estão na mira do novo comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno Pereira. Há pouco tempo no posto, ele se declara surpreso com a quantidade de organizações não-governamentais (ONGs) que trabalham com os índios. “Fica difícil entender por que pouquíssimas ONGs dedicam-se a socorrer a população nordestina enquanto centenas delas trabalham junto às populações indígenas”, diz. O general Heleno – que chefiou as tropas de paz enviadas ao Haiti – afirma que não é função do Exército fiscalizar ONGs, mas promete informar “os escalões competentes” sobre aquelas que, na sua opinião, influírem “negativamente” no trabalho dos militares. Ele faz uma divisão: “Sei que algumas realizam um trabalho meritório, outras, nem tanto.”

 

O Exército considera que a Amazônia é alvo de cobiça internacional?
Essa é uma questão que extrapola o componente militar. A cobiça internacional não se manifesta por ações explícitas de força. Ela age de forma sub-reptícia, pouco transparente e dissimulada. Fica difícil entender por que pouquíssimas ONGs dedicam-se a socorrer a população nordestina enquanto centenas delas trabalham junto às populações indígenas. Algumas, ao que parece, investem milhões de dólares na região.

 

Há irregularidades na atuação de ONGs na região?
Assumi o Comando Militar da Amazônia há pouco tempo, mas é fácil perceber a proliferação de ONGs na região. Não nos compete fiscalizá-las. Sei que algumas realizam um trabalho meritório, outras, nem tanto. Comecei a percorrer a área para me aprofundar no assunto. Informarei os escalões competentes sobre aquelas que influem negativamente no cumprimento das missões das Forças Armadas. O fato é que as ONGs surgem e atuam onde o Estado está ausente ou é deficiente. Alguns assuntos atraem a atenção internacional, por serem objeto de discussão em fóruns mundiais. A partir do momento em que a Amazônia for beneficiada pelo Plano Estratégico de Defesa Nacional, crescerá significativamente a presença do Estado e haverá a neutralização natural de ONGs nocivas ao País.

 

A Venezuela, que tem grande fronteira com o Brasil na região, está se armando. Como o Exército se prepara para enfrentar isso?
Armar-se é direito soberano de qualquer país. Preparar-se para defender a pátria e garantir a integridade territorial do Brasil é nossa missão constitucional. Nosso relacionamento com todos os países sul-americanos tem sido de amizade e cooperação, sobretudo no campo militar. Não há referência a qualquer ameaça à nossa soberania.

 

O senhor teme a internacionalização da Amazônia?
A Amazônia brasileira é nossa, de fato e de direito. Quem convive com o militar na Amazônia percebe que o espírito e a preparação do combatente de selva são a maior garantia que temos de que nossa Amazônia é intocável.

 

Há como salvar a Amazônia?
Jamais pensei em termos de salvar a Amazônia. Não identifico um estado de calamidade ou de grave perturbação da ordem. Vejo, sim, uma região fantástica, riquíssima, rarefeita em população e carente da presença do poder público. Desejo que as ações governamentais caminhem na direção do desenvolvimento sustentável, da ocupação e da presença racional e efetiva, e da correta exploração dos recursos naturais. Nós, militares, não queremos ser presença solitária em várias regiões da selva brasileira. Precisamos que os demais organismos estatais e privados se juntem a nós para integrar e desenvolver a Amazônia, sem prejuízos ao meio ambiente, mas sem abrir mão de usar o que é nosso.