Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

A maior floresta do mundo

Beleza e destruição cobrem metade do Brasil

Herton Escobar

São Gabriel da Cachoeira, cidade onde cerca de 90% da população é descendente de índios. Foto: Jonne Roriz/AE

MANAUS - A Amazônia tem escala e dimensão singulares e superlativas. É a maior floresta tropical do mundo e maior concentração da biodiversidade do planeta. Sua cobertura verde é uma embalagem viva sob a qual se esconde um universo de animais, plantas, micróbios, genes, climas, águas, índios, beleza e destruição. Cobre metade do território nacional. Não seria exagero dizer que o Brasil é o país da Amazônia, muito mais do que a Amazônia é a floresta do Brasil.

 

Se somadas as áreas de quase todos os países da Europa (excluindo os da antiga União Soviética), eles caberiam com folga dentro da superfície da Amazônia brasileira. O bioma inteiro tem 6,6 milhões de quilômetros quadrados, espalhados por nove países sul-americanos. O Brasil é dono de quase 65% disso, com mais de 4 milhões de km² de floresta. Só o Estado do Amazonas, com 1,6 milhão de km², tem quase cinco vezes a área da Alemanha ou três vezes o território da França, e é maior do que qualquer um dos outros países amazônicos – Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana e Suriname, fora a Guiana Francesa, que é uma possessão.

 

Referências à Amazônia brasileira aparecem de duas maneiras distintas. A primeira é o bioma Amazônia, uma definição ecológica que considera apenas as áreas de formação florestal e seus ecossistemas associados; tem 4,2 milhões de km², ou 50% do território nacional. A outra, chamada Amazônia Legal, é uma região política, que abrange os sete Estados do Norte (Amazonas, Pará, Roraima, Amapá, Acre, Rondônia e Tocantins), mais Mato Grosso e metade do Maranhão. Tem pouco mais de 5 milhões de km² e foi definida originalmente como área de jurisdição da antiga Sudam, a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia, extinta em 2001 e recriada neste ano. Além de áreas de floresta, inclui cerca de 730 mil km² de cerrado e outras formações naturais não florestais. Os 100 mil km² que sobram são as superfícies ocupadas pelos rios – um universo aquático quase do tamanho de Pernambuco. Normalmente, faz-se referência à Amazônia Legal quando se trata de dados econômicos; as estatísticas sobre desmatamento – ou desflorestamento – dizem respeito apenas às áreas de floresta. Desmatamentos em áreas de cerrado não são computados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

 

Dentro disso tudo está a maior biodiversidade da Terra. São centenas de milhares de espécies de plantas e animais – ninguém sabe ao certo quantas –, forçadas a conviver com o predador mais inteligente e perigoso do reino animal, o homem. Segundo a última contagem do IBGE, 23,5 milhões de pessoas vivem na Amazônia. São apenas 13% da população brasileira, mas o suficiente para fazer um estrago de proporções planetárias.

 

O desflorestamento já consumiu 17% da Amazônia – 700 mil km², área equivalente a Minas Gerais, Rio e Espírito Santo somados. A maior parte foi transformada em madeira, carvão, carne e soja para saciar a demanda de mercados nacionais e internacionais. Mesmo com a dolorosa destruição provocada pelo homem, a Amazônia brasileira ainda é a maior extensão contínua de floresta tropical do mundo. A selva do Congo, segunda colocada, fica muito atrás, tanto em extensão (1,7 milhão de km²) quanto em número de espécies.

 

Um dos erros que se cometem é tratar a Amazônia como um “tapete verde” homogêneo. O que parece ser uma única floresta sem fim é, na verdade, um grande mosaico de paisagens e ecossistemas altamente diferenciados, compostos de planaltos, depressões, montanhas, terrenos alagados e de terra firme, rios de todos os tamanhos, águas de todas as cores, ácidas e alcalinas, florestas úmidas e secas, savanas, pântanos e manguezais, cada um com seu conjunto próprio de espécies e interações biológicas. “Já andei por muitos lugares na Amazônia e nunca vi duas localidades iguais”, diz a ecóloga Albertina Lima, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). “Cada lugar é diferente, cada um tem suas peculiaridades.”

 

No período das cheias, quando os rios invadem a floresta, a Amazônia tem mais áreas alagadas que o Pantanal. Tem também o maior conjunto de manguezais do mundo, com 14 mil km², no litoral de Pará e Maranhão. No interior da floresta se abrem grandes manchas de savana, idênticas a uma paisagem africana. A maior montanha do Brasil, o Pico da Neblina, com 2.993 metros, também está lá.

 

A idéia do tapete verde, além de equivocada, pode colocar em risco a preservação da biodiversidade, sugerindo que uma área é igual a outra, e que um desmatamento em Mato Grosso pode ser compensado com uma unidade de conservação no Amapá. Não pode. “Não faz sentido dizer que vamos preservar 10% ou 20% da Amazônia. Existem várias Amazônias, e todas merecem ser preservadas”, diz o biólogo José Maria Cardoso da Silva, vice-presidente de Ciência da ONG Conservação Internacional (CI).

 

Muitos cientistas trabalham com o conceito de grandes áreas de endemismo. São regiões separadas pelos grandes rios amazônicos, que funcionam como muralhas aquáticas, restringindo o fluxo de plantas e animais e, com isso, favorecendo a diferenciação geográfica de espécies. Por esse modelo, a Amazônia é um arquipélago de oito gigantescas ilhas fluviais, tão biologicamente distintas quanto os países europeus que cabem dentro delas. Só a área de endemismo Tapajós (entre os Rios Tapajós e Xingu), com 650 mil km², é maior do que toda a região Sul do Brasil (576 mil km²).

 

Outro modelo – usado pelo WWF e pelo Ibama – divide o bioma em 23 ecorregiões, agrupadas com base em características comuns de ecologia, geologia e clima.