Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Um tesouro a explorar
Sob o grande tapete verde esconde-se riqueza mineral que segue, em grande parte, ainda intacta
Lourival Sant’Anna

Riqueza mineral da região ainda foi pouco explorada. Arquivo/AE
Chamada de geodiversidade pelos técnicos da área, ela é o equivalente subterrâneo da biodiversidade. Ouro, nióbio, bauxita, tório, cassiterita, ferro e gás natural fazem parte de uma lista de 23 minérios presentes em quantidades consideráveis no subsolo amazonense, de acordo com a Secretaria Executiva de Geodiversidade e Recursos Hídricos do Amazonas (Segrha).
No leste do Estado, onde o Rio Madeira desemboca no Amazonas, uma área pertencente à Petrobrás nos municípios de Nova Olinda do Norte e Itacoatiara tem vastas quantidades de potássio. A estatal está negociando seus direitos com grandes empresas do setor. Hoje, o Brasil importa 90% do potássio que consome, destinado à fabricação de fertilizantes, gastando com isso mais de US$ 1 bilhão ao ano, diz o geólogo Daniel Nava, da Segrha, citando dados apresentados pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).
De acordo com Nava, a posição dessas reservas, perto das fronteiras agrícolas, é estratégica, porque o uso de fertilizantes fabricados com esse potássio aumentaria a produtividade nesses pólos e reduziria a pressão pelo desmatamento da floresta, em busca de mais áreas de cultivo. E ressalta: “Trata-se de um projeto de mina subterrânea, com pequeno impacto na cobertura florestal.” Sua exploração também geraria emprego e renda – substituindo atividades econômicas que degradam o meio ambiente.
A cerca de 40 quilômetros de Manaus, no Distrito Agropecuário da Suframa, há também 3,3 bilhões de toneladas de caulim, matéria-prima das cerâmicas branca e refratária, de cosméticos e de medicamentos, entre outros. Dessas, cerca de 70 milhões são de caulim do tipo coating (utilizado na cobertura de papéis especiais), “altamente competitivo para exportação”, afirma Nava.
Segundo o especialista, existem ainda pesquisas de bauxita (minério de alumínio) “com grandes indícios de viabilidade econômica” desenvolvidas pela Companhia Vale do Rio Doce e pela Alcoa no nordeste do Estado do Amazonas, nos municípios de Presidente Figueiredo, Urucará, São Sebastião do Uatumã e Nhamundá.
Hoje, a principal atividade de mineração do Estado é a Mina do Pitinga, localizada nos municípios de Presidente Figueiredo e Urucará, na qual se explora cassiterita (minério de estanho). A mina atende a cerca de 70% da demanda nacional.
No oeste de Roraima, o projeto Catrimâni-Urariqüera revelou muitas ocorrências de cassiterita e de ouro. E há, evidentemente, Carajás, no Pará, que contém as maiores reservas de ferro do mundo, além de consideráveis volumes de manganês, ouro, cobre e níquel.
A mineração na Amazônia está associada à degradação, por causa de desastrosos projetos dos anos 70, e do garimpo clandestino que poluiu alguns de seus rios e causou desmatamento e problemas sociais. Mas, segundo um estudo feito por geólogos da Superintendência Regional de Manaus do Serviço Geológico do Brasil (conhecido por sua antiga sigla CPRM), um projeto de exploração de minérios de grande porte ocupa no máximo 15 km², de maneira que 20 grandes projetos não representariam nem 0,01% dos mais de 5 milhões de km² da Amazônia.
“Para sobreviver, a indústria extrativa mineral e de óleo e gás foi obrigada a se reciclar, com a aplicação dos conceitos de desenvolvimento sustentável”, argumenta o geólogo Marco Antonio Horbe, gerente de Relações Institucionais e Desenvolvimento do CPRM em Manaus, e um dos autores do estudo. E recursos para investimentos nessa área existem. Segundo o estudo, há US$ 2,5 bilhões disponíveis para a exploração mineral, dos quais US$ 500 milhões em busca de destinação.
Para que esses recursos sejam devidamente explorados, no entanto, são necessárias novas pesquisas. Atualmente, cerca de 60% da região, referente às Bacias do Amazonas e do Solimões e ao Estado do Acre, dispõe de levantamentos geológicos na escala adequada à logística da Amazônia (1:100.000 e 1:250.000), afirma o estudo do CPRM. Mas são dados de três décadas atrás, colhidos pelo Projeto Radam Brasil e pelos Programas de Levantamentos Geológicos Básicos realizados pelo CPRM, em convênio com o DNPM.
“É premente a necessidade de investimentos públicos e privados na produção do conhecimento geocientífico sobre a região, a exemplo do que ocorreu nas décadas de 70 e 80”, enfatiza o estudo. “A atualização do conhecimento sobre a geodiversidade passa obrigatoriamente pelo mapeamento da região em escala de detalhe, bem como pela retomada dos levantamentos geoquímicos sistemáticos. Este é um trabalho de pelo menos uma década.”
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