Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online

Ecos de um outro tempo

Ex-proprietário de terras quer indenização por área perdida para os índios e reservas

Lourival Sant’Anna

MANAUS - Um iate percorreu, durante 16 dias no mês de julho, o trajeto de Manaus até a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Cujubim. No confortável barco ia Moysés Benarrós Israel, de 83 anos – e, com ele, o eco de um outro tempo. O tempo em que as vastas florestas ao longo do rio pertencia à Jutahy S.A.. Ou melhor, ainda pertencem, na visão de Israel, já que sua empresa não foi indenizada pelo confisco de 250 mil hectares para a Terra Indígena Vale do Javari, 100 mil para a RDS Cujubim e 17 mil para a Reserva Extrativista do Rio Jutaí. Sobraram-lhe 112 mil hectares na região.

 

Israel quer ou receber essa indenização ou continuar sendo tratado como o proprietário – arrendando as suas terras para os ribeirinhos. Dessa vez, no entanto, ele propõe extrair a madeira com planos de manejo, em glebas de 500 hectares por família. Sua empresa, a Companhia Vale do Amazonas (CVA, sucessora da Jutahy), ajudaria os ribeirinhos a criar cooperativas, levaria mudas, ensinaria a fazer o manejo e o corte. Israel diz ter um sonho: criar duas comunidades-modelo, “com escolas decentes.

 

Além da madeira, ele diz que pelo menos 20 produtos florestais poderiam ser extraídos, incluindo cipó (para móveis para exportação), mel de abelha, sabonete de pau-rosa, vela da andiroba, etc. “Queremos estudar se existe uma maneira legal e ecologicamente correta de extrair ouro”, acrescenta David Israel, de 44 anos, que foi com o pai e um engenheiro florestal na viagem.

 

Os planos da família esbarram numa objeção do governo amazonense: eles podem desenvolver projetos na RDS, desde que não tragam pessoas de fora, pelo menos não sem a aprovação dos moradores. “Não vão aprovar nunca, é uma confusão tão grande”, prevê David, que estima que haja 44 homens adultos na reserva, o que não daria escala para o seu projeto. “Está essa miséria no interior porque engessaram.”