Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Força de resistência
Marina Silva se tornou a vencedora moral das guerras ambientais
Carlos Marchi

A ministra do Meio-Ambiente Marina Silva. Foto: Ed Ferreira/AE
Marina é um ser da floresta. No plano mítico, encantou-se com as lendas narradas pela avó; no plano lúdico, brincava com os instrumentos da floresta, que o tio mateiro lhe reproduzia em dimensão menor – a faquinha de talhar seringueira, o pequeno balde de recolher o leite da seringa –, e as 12 bonecas de pano que a avó costurou, imitando personagens do mato. Confessa que se desorienta em qualquer cidade, por mínima que seja, mas nunca na floresta.
Faz sentido que a hoje ministra Marina Silva se tenha transformado no mais marcante e visível símbolo da Amazônia. Ela teve muitas vezes a vida por um fio. A primeira vida lhe foi cobrada logo após nascer. Dos 11 filhos dos migrantes nordestinos Pedro Augusto e Maria Augusta, 8 (7 mulheres) sobreviveram à infância.
Até os 14 anos, Marina só sabia ver horas e praticar as quatro operações matemáticas. Aos 16 anos, pouco após a morte da mãe, uma hepatite cobrou-lhe a segunda vida. Foi empregada doméstica em Rio Branco para poder tardiamente estudar. Aos 17, ia ser freira quando conheceu Chico Mendes e Clodovil Boff. A superiora advertia que eles eram “comunistas”, mas Marina não entendia isso. Um dia, na missa, viu o cartaz: “Curso de lideranças rurais”. Pensou consigo: “É agora que vou descobrir o que é esse negócio de comunismo.”
Não ficou nem católica nem comunista. Hoje é cristã evangélica e informa que sua ideologia trafega livre entre a idéia de fazer bem ao corpo e à alma – se diz humanista e espiritualista.
Sobreviveu ao analfabetismo graças a dois supletivos e entrou na terceira vida. Escapou de uma nova hepatite e partiu para a sua quarta vida. Formou-se em Teologia da Libertação e cursou História. Com Chico Mendes, fundou a Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Acre, ele presidente, ela, vice. Fizeram outra dobradinha, em 1986: ela, candidata a deputado federal, ele, a estadual. Perderam. Quando Chico foi assassinado, em 1988, Marina, como sua segunda face, entrou na quinta vida, desafiando os hábitos de um Estado em que os big-shots da política matavam e serravam os adversários. Nunca sofreu uma ameaça de morte: um corpo tão frágil, diz, não assusta ninguém.
Sucessivamente, foi a vereadora mais votada de Rio Branco, a deputada estadual mais votada do Estado e senadora. Entre uma eleição e outra, descobriu-se que desde a infância tinha o organismo contaminado por metais pesados. Passou a viver a sua sexta vida.
Perdeu todos os entreveros que enfrentou como política; ganhou todos os que encarou como símbolo.
No ministério, a sua versão política se engajou na batalha contra os transgênicos. Perdeu. Tentou aprovar uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) mais ambientalista. Perdeu outra vez. Foi contra a aprovação da usina nuclear de Angra III. Perdeu novamente. Como símbolo, patrocinou a legislação para concessão e gestão florestal. Em um ano, aprovou a nova lei no Congresso.
É suave e terna, mas dona de uma energia inflamada quando fala sobre a relação do homem com a natureza. Em 2003, quando Lula a convocou para o Ministério do Meio Ambiente, muitos apostaram que ela cairia na primeira curva do rio. Um símbolo não se garante, afirmavam. Os que apostaram já caíram, enquanto o símbolo sobrevive. Agora, no segundo governo Lula, ela já embarcou na sua sétima vida.

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