Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Pedro Mulato
Longe de tudo, perto da felicidade
Lourival Sant’Anna

Pedro Mulato, 60 anos, morador próximo da nascente do Rio Jutaí, uma das áreas mais remotas da Amazônia. Foto: Dida Sampaio/AE
São 11h30 da manhã. Maria do Carmo Balduíno Bezerra, a Dona Mariquita, já almoçou, e está lavando roupa com a neta, Adriana, no “porto” de sua casa. A visita é inusitada. Até onde se sabe, é a primeira vez que jornalistas e mesmo alguém que não é da região passam por aqui. Mariquita reconhece o guia do Estado e explica que o marido está “brocando estrada” (abrindo trilhas na floresta para extrair látex das seringueiras).
A voadeira sobe o rio até encontrar a canoa ancorada no barranco de cerca de 6 metros que Pedro Mulato, de 60 anos, escalou com a ajuda de um tronco caído. Com os gritos característicos que se usam na floresta para se comunicar, o guia vai-se orientando entre as árvores pelas respostas de Pedro Mulato, que vem caminhando na direção dos visitantes: espingarda no ombro esquerdo, terçado na mão direita, bolsa a tiracolo – na qual traz o fumo e os cartuchos –, camisa de abotoar e bermuda, pés descalços, a barba branca espessa.
A espingarda no ombro faz a conversa enveredar pelo tema “onça”. Pedro Mulato – que também se apresenta como Bicho Doido ou Satanás – conta como já botou duas para correr com terçado. “Eu ia brocando também assim”, diz ele. “Quando dei fé, esbarrei em riba dela. Ela tava no ponto de pular em cima de mim. Pulei de pisão em riba dela, e a bicha pulou pra trás. Aí não dei chance mais não. Corri mesmo doido, que nem um Satanás mesmo. Ela abriu (fugiu).”
Em sua canoa a remo, Pedro Mulato acompanha os três visitantes até o seu porto e, de lá, caminhando por uma trilha, até o tapiri (cabana). Há dois anos, ele mora aqui com Mariquita, uma filha e uma neta, sob um teto de palha de jaci, de 7 metros por 6, sustentado por cavacos (caibros), sem paredes. Como todo mundo na região, eles dormem em redes. Por ali circulam livremente os bichos de estimação: um mutum (ave preta grande, com uma crista vermelha), um pierre (pássaro preto e azul-claro) e uma fêmea de mico-bigodeiro chamada Pipita.
Na verdade, essa é a sua “casa de farinha” – destinada a moer, assar e armazenar o produto da mandioca. Ao lado, Pedro Mulato está construindo sua casa nova, de 8,40 metros por 6, com teto de palha de caranã. Plantou sua roça nessa colocação, chamada de Igarapé Vera Cruz, porque lhe disseram que o Pirarucu seria ali. A comunidade foi erguida mais abaixo. Pedro Mulato ficou: “Tô me engraçando mais aqui. A terra é boa. Acho que vou morrer aqui.” Nunca teve maiores problemas com os índios, seus vizinhos, que de vez em quando arrancam mandiocas de sua roça. “O que eles fazem comigo, perco, deixo pra lá.”
Diferentemente de muitos ribeirinhos, que praticamente se limitam ao extrativismo, Pedro Mulato, nascido na localidade de Cabo Verde, três dias abaixo de Cruzeiro do Sul (AC), filho de pai cearense e de mãe acreana, é um agricultor de mão-cheia. Planta cana, mandioca, melancia, banana, mamão, caju, goiaba, limão, cupuaçu, graviola, araticum (fruto que parece uma pinha), açaí e bafu (coco com semente grande e polpa carnuda, que dá até 3 litros de um suco amarelo). Tem uma engenhoca para moer a cana, um motor de rabeta adaptado para triturar a mandioca e o forno para assar a farinha.
Pedro Mulato está com uma encomenda de 10 litros de “mel” (melado), e diz que poderia produzir também açúcar, rapadura, alfi- ninho (puxa) e batida (alfininho sólido). “Tenho vontade de eu levar (para Jutaí), mas não tenho condições, tenho que esperar alguém vir”, lamenta. “Se eu pudesse ir vender lá, apurava mais um dinheiro.” Para isso, precisaria de um motor de 9 cavalos, numa “canoa maior”, que levaria uns dez dias de viagem, rio abaixo.
De outras estradas abertas, Pedro Mulato vendeu 15 quilos de látex para dois comerciantes que passaram por lá (a R$ 1,50 o quilo) e 23 litros de óleo de copaíba (a R$ 10 o litro), e com o dinheiro comprou seu “rancho”: açúcar, café, sabão e 2 litros de óleo diesel para a lamparina. Gasolina para a rabeta, que é vendida aqui por R$ 4,50 o litro, estava em falta.
Ele acaba de produzir também 500 quilos de farinha, e vendeu 50 ao comerciante Zé Galego, a R$ 1 o quilo. “Tô com vontade de ver se me aposento no ano que vem, que é da política, para ver se tenho uma ajuda melhor”, espera. Ele conta que nunca votou, “graças a Deus”. “O presidente, eu vejo dizer que é o presidente Lula”, diz Pedro Mulato, que tinha um rádio, mas pifou. “Nós não sabe (sic) que jeito ele faz lá. A história dele é bonita. O que ele falou nunca vi chegar aqui. Mas, pelo que a gente ouve, não sei se é verdade, está fazendo um bom governo.”
Analfabeto, Pedro Mulato quer que a filha Maria José, de 20 anos, e a neta Adriana, de 16, aprendam a escrever. “Levei as meninas (à escola no Pirarucu), mandei ele (o professor) passar tarefa para elas ir pelejando, riscando papel para amolecer os dedos.” As moças copiaram letras, sílabas e os seus nomes dezenas de vezes no caderno. “Aí, todo mês, eu ia buscar mais tarefa.” Maria José e Adriana estavam gostando, mas o professor voltou para Jutaí, primeiro com malária, depois nas férias, depois para curso de capacitação. “Quando pintar o professor, a gente vai lá, trabalhar a respeito desse negócio”, prometeu Pedro Mulato.
Mariquita cozinha no forno a lenha para os visitantes um mamuri, um dos peixes que costumam pescar no rio, assim como surubim, pacu, mocinha, jondiá e caparari. Pedro Mulato também caça queixada, macaco, paca, jacu, mutum e anta, que, extinta noutros lugares, aqui é “mais fácil de matar que porco”. Num caibro do telhado está pendurado o couro de um jacaré-açu, que em abril andava roubando os pacus que Pedro Mulato e as mulheres pescavam. Numa tarde, ele colocou um pacu num anzol e esperou até a manhã seguinte. Durante a noite, o jacaré mordeu a isca e ficou preso. Pedro Mulato o matou a golpe de machado.
Todos os dias, a família acorda antes de clarear. Quando tem café, bebem um gole, e depois “vão para o pirãozão”: peixe ou carne com farinha. Pedro Mulato vai pescar, caçar, brocar estrada ou trabalhar na roça, enquanto as mulheres arrumam a casa e lavam roupa. Depois, também vão pescar ou ajudar na roça. “Até agora, não tive ajuda de ninguém, a não ser das mulheres que mora mais eu (sic)”, diz Pedro Mulato, que tem sete filhos morando fora (três em Jutaí, dois no Pirarucu, um em Manaus e um em Eirunepé).
No fim da manhã, voltam para almoçar pirãozão de novo. Durante a tarde, quando dá vontade, comem frutas e o que chamam de “pé-de-moleque” (um bolo de goma de tapioca). Se o sol está muito forte, ficam descansando na sombra do meio até o fim da tarde, quando vão tomar banho de cuia no rio, e depois jantar (a mesma comida do almoço). Ficam conversando, ao som das gargalhadas contagiantes de Adriana. Vem o sono e dormem.
Quando adoecem, usam os remédios da floresta. “Aqui não anda uma pílula, não anda magnésio, não anda nada”, diz Mariquita. “Aqui não aparece visita de ninguém. Adoeceu, morreu, enterrou.” Quando o marido se afasta um pouco, Mariquita, de 58 anos, nascida no sertão pernambucano, diz que por ela não viveria isolada. “Gosto não, de morar aqui. Preferia um canto que morasse gente.” Só não sabe onde: “Já fui na Foz (Jutaí) e no Eirunepé, só gosto para passeio, mesmo. Comunidade também não. Preferia uma cidade, não sei qual.”
Pedro Mulato pensa diferente. Ele entretém os visitantes tocando ao violão uma música de sua autoria, que começa assim: “Eu moro afastado da cidade, bem perto da felicidade.”

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