Domingo, 25 de novembro de 2007 | Online
Trecho do livro “Marawá – de objetos a sujeitos”, de Antônio Cândido Gomes, 1996
“Barcos equipados com capangas e policiais subiram o rio à procura da borracha, para o pagamento da renda. Cada seringueiro tinha que entregar 60 kg de borracha. Os que não podiam pagar a quantidade estipulada recebiam o troco em borrachadas nas costas.
Contam que os soldados davam 60 borrachadas para cada quilo de borracha não entregue. Além do confisco de objetos, para sanar as dívidas dos maridos, as mulheres dos seringueiros tinham que dormir com os responsáveis pela expedição.
Em 1964 os seringueiros, não agüentando tal situação, resolveram fazer justiça com as próprias mãos. Organizaram um movimento armado para libertar-se do domínio dos Affonsos. Reuniram vários companheiros e em um lugar chamado Japó fizeram os preparativos: reuniram munições, treinaram bastante nos alvos feitos nas árvores, prepararam as trincheiras, cavaram buracos no chão por trás de troncos de árvores. Todos beijaram os filhos, abraçaram as mulheres violentadas e mandaram sair de perto.
No dia marcado para a cobrança, eles se reuniram, tomaram pinga com limão, prepararam a pólvora e ficaram à espera. O barco chegou, os soldados e capangas pularam em terra gritando: ‘Cadê esses malandros? Se não tiverem borracha, vão apanhar e suas mulheres vão pagar o pato.’
Nesse momento, os seringueiros abriram fogo: pá... pá... pá... Quando passou a fumaça do tiroteio, foram verificar o resultado. Dois capangas e cinco soldados estavam prontos (mortos).
Desceram ao porão do barco a procura de sobreviventes, encontrando somente alguns empregados. Uns queriam matá-los, outros não, até que o líder do grupo pediu que os deixassem viver, dizendo: “Não vamos matar vocês, mas, em troca, levem esses finados e digam aos Affonsos que é essa a borracha que mandamos para eles’.”

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