Segunda-feira, 17 de Julho de 2000, 16:44 | Online

Peça comemora um ano de combate ao preconceito

Cia. Viramundo de Teatro faz apresentação especial da comédia Crácula, um Vampiro em Tempo de Aids no Teatro Ruth Escobar

Depois de um sono profundo de 300 anos, o vampiro Crácula desperta sedento de sangue. Os tempos, porém, são outros e o risco de infecção pelo vírus da aids limita a escolha da vítima ideal. "Ele começa então, de forma atrapalhada, a descobrir os perigos do contágio e a conhecer o problema do preconceito", conta Alessandro Hernandez, protagonista de Crácula, um Vampiro em Tempo de Aids, espetáculo que comemora nesta terça um ano de temporada com uma apresentação especial, às 20 horas, no Teatro Ruth Escobar, com ingressos a R$ 10,00 (estudantes pagam meia).

Na história, Crácula é auxiliado por Igor, fiel ajudante a evitar contato com sangue contaminado. "É o momento em que o entretenimento se encontra com a educação, pois mostramos a importância da prevenção", comenta o ator Carlos Ricardo, que interpreta Igor. "O grande mérito é que a mensagem é passada utilizando os recursos teatrais, sem parecer com uma aula." Igor surge como a consciência do vampiro, orientando-o a fugir dos perigos representados pelo sangue contaminado.

O espetáculo, produzido e interpretado pela Cia. Viramundo de Teatro, cumpriu temporada de sucesso em diversos palcos paulistanos (além do Ruth Escobar, foi encenado ainda no Arthur Azevedo e Caetano de Campos) e em outras cidades próximas como São Bernardo do Campo (onde foi patrocinado pelo Programa DST/AIDS), Suzano, Guarujá, Mauá e Osasco. "Há um interesse muito grande, principalmente dos mais jovens, em resolver dúvidas sobre as formas de contaminação", afirma Hernandez, lembrando ainda que, após as apresentações, o grupo comanda um debate com a platéia sobre os principais riscos de contaminação - para isso, os atores contam com a consultoria de médicos e psicólogos especializados.

Um dos principais pontos discutidos é o da solidariedade com as pessoas contaminadas. Na história, Crácula é noivo de uma vampira, a Vamperua (Teresa Convá), que contrai o vírus da aids ao morder o pescoço de Marcelo (Marcelo Mendes), um viciado em drogas que se contaminou por meio do uso de seringa. O rapaz não ouve os conselhos de sua namorada, Sandrinha (Dora Bueno), que, entre outras coisas, não aceita transar sem camisinha.

"Como infelizmente quase sempre ocorre em casos como esse, o Crácula se afasta da Vamperua ao descobrir que ela passou a ser soropositiva", conta Hernandez. "Nosso objetivo é mostrar que a solidariedade é uma das principais atitudes que as pessoas devem tomar quando têm contato com as que estão infectadas." A necessidade de evitar a recriminação é um dos pontos mais lembrados pelos espectadores, durante os debates.

Dirigido por Valdir Ramos (que descobriu a peça, escrita por Carlos Guilherme Campos Pereira, em um festival de teatro), Crácula, um Vampiro em Tempo de Aids foi apresentado para centenas de alunos da rede pública e particular. A peça foi selecionada ainda por uma concorrência de projetos comunitários do Ministério da Saúde, que vai financiar uma série de apresentações, durante o segundo semestre deste ano, na região de Parelheiros, que apresenta uma das mais baixas rendas da Capital. "É a oportunidade que o grupo tem de levar a mensagem preventiva a uma região carente", afirma Hernandez.

O trabalho de montagem do espetáculo consumiu cerca de R$ 25 mil, o que garantiu qualidade nos detalhes, como uma trilha sonora especialmente composta por César Assolant, responsável pela partitura do espetáculo de Raul Cortez, Um Certo Olhar - Pessoa e Lorca. "O desafio é entreter o público por meio de uma comédia e, ao mesmo tempo, educar", comenta Ricardo. "Para isso, dispomos até de um site na Internet (www.go.to/cracula) com mais informações." Na apresentação de amanhã, os professores são os principais convidados e não pagam ingresso mediante apresentação de documento.

Crácula, um Vampiro em Tempo de Aids - Comédia. De Carlos Guilherme Campos Pereira. Direção Valdir Ramos. Duração: 60 minutos. Amanhã, às 20 horas. R$ 10,00. Teatro Ruth Escobar. Rua dos Ingleses, 209, tel. 289-2358.

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