Livro enfoca decadência do artesão

O triste fim do sapateiro Firmino, que o escritor Menalton Braff nos conta em Que Enchente me Carrega?, é a conhecida história da decadência do trabalho artesanal. O assunto também é tema do prêmio Nobel José Saramago em A Caverna, seu mais recente livro, cujo protagonista é um oleiro, nomeado Cipriano Algor. Enquanto Saramago faz um mergulho filosófico no assunto, invocando Platão para pensar a sociedade contemporânea, Braff é mais "psicológico": o terror econômico que Firmino atravessa é transformado num terror pessoal, em que tudo, mas especialmente a sanidade, desmorona. Para quem leu as duas obras num intervalo de menos de um mês, é tentador comparar os dois protagonistas. Eles, no entanto, trilham caminhos muito diferentes, sendo o de Firmino mais trágico, pois este, progressivamente, perde a capacidade de lidar com a realidade que o entorna. Num dos momentos mais comoventes da obra, Firmino, também narrador, pensa: "Podia ter sido diferente seu eu fosse outro e ela também". Há, no entanto, uma coincidência que impressiona: no romance de Saramago, são quatro personagens, mais um cão. Firmino também está cercado por mais quatro ou cinco nomes. O artesão pequeno-burguês está, portanto, isolado, para os dois autores. Essa preocupação com uma classe que é esmagada pelo avanço capitalista pode ser encontrada, talvez, na formação ligada à esquerda, comum nos dois casos. De algum modo, como escritores, eles se identificam com seus personagens, pois a morte da arte da cerâmica e do couro é também uma pergunta sobre o sentido da literatura e do romance no mundo contemporâneo. Essa é a enchente capitalista que carrega Firmino, como diagnostica logo de início Godofredo, o operário que dá voz à racionalidade, mas que o sapateiro se recusa a ouvir. "Quanta gente se perde na vida por culpa de uma definição!", exclama Firmino. Ele, no entanto, se perde justamente por não aceitar uma não permitir que o mundo lhe dê o rótulo de atrasado e de alguém que precisa se render à mudança. Não se dobra e também tem de arcar com as conseqüências da escolha. Perde os clientes, a mulher, o muro e, por fim, a razão. A tortura - Firmino se impressiona com uma tortura do "tempo do Estado Novo", que Godofredo lhe descreve: "Supliciam preso político assim: sentado num cubículo sem poder se desviar do pingo na cabeça, em poucos dias." Em poucos dias, ele cede. A repetição dos pingos é a mesma repetição da indústria, e Firmino se recusa inclusive a acreditar na sua existência. A história de Firmino não é propriamente original, mas Braff encontrou um talentoso modo de contá-la. Diferentemente do que ocorre na maioria dos contos do seu premiado À Sombra do Cipreste (Palavra Mágica), que lhe rendeu o Jabuti deste ano, a voz preponderante é a masculina. Quem viu as evidentes influências de Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles na reunião de contos dessa vez deveria procurar outras referências. Ignácio de Loyola Brandão, na orelha do livro, diz que a obra lhe lembrou Angústia, de Graciliano Ramos, mas talvez ela lembre mesmo os romances do próprio Ignácio dos anos 70, como Bebel que a Cidade Comeu - que também tem uma personagem incapaz de lidar com as suas circunstâncias. Esse Braff "masculino" aparenta ser mais verdadeiro, mais verossímil. Suas sensações, seus vômitos e suas atitudes, em relação ao mundo e, especialmente, em relação à mulher, Elvira, ganham uma dramaticidade que não se encontra no livro de contos. O tom político poderia sugerir um livro engajado. Não é bem assim. Isso porque, se Firmino inspira pena, ele também é claramente um reacionário: não aceita, por exemplo, que sua mulher trabalhe fora de casa. Que Enchente me Carrega? não é uma defesa do artesão, é um inventário de suas qualidades, de seus defeitos e de sua decadência. Para tanto, Braff se vale de um cuidadoso trabalho com as palavras. Pode parecer velho, e talvez seja mesmo um livro com um pé no passado, numa literatura dos anos 70. Mas são as modas que cobram o preço de estarem ligadas a seu tempo - não as idéias. Que Enchente me Carrega? - romance de Menalton Braff. Palavra Mágica (tel. 0--16 610-0204). R$ 28,00, 144 págs.

Agencia Estado,

08 Dezembro 2000 | 16h01

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