Sexta-feira, 14 de Setembro de 2001, 15:19 | Online
Livro examina série de crimes contra homossexuais
Em Dias de Ira, o jornalista Roldão Arruda investiga os 13 assassinatos ocorridos entre 1986 e 89 que levaram à prisão o garoto de programa Fortunato Botton Neto
Na manhã do dia 17 de agosto de
1987, o psiquiatra Antonio Carlos Di Giacomo foi encontrado
morto no apartamento em que morava no Edifício Alice, na Rua do
Rocio, no bairro Vila Funchal, na zona sul da capital paulista.
O médico santista, formado pela Escola Paulista de Medicina, que
trabalhava no Hospital do Servidor Público, iria figurar numa
lista de 13 assassinatos, cometidos entre 1986 e 1989.
Em comum, as vítimas eram homens, tinham de 30 a 60 anos,
viviam sozinhas, eram independentes financeiramente e eram homossexuais. É uma extraordinária investigação da vida desses homens
e do criminoso apontado pela polícia como o responsável pelos
assassinatos, o garoto de programa Fortunato Botton Neto, que
move o livro Dias de Ira - Uma História Verídica de
Assassinatos Autorizados do jornalista Roldão Arruda, recém-
lançado pela Editora Globo.
Mergulhando nas extensas páginas, muitas mal escritas,
dos relatórios policiais e depoimentos que desembocariam nos
processos, Roldão traçou o perfil das vítimas desses crimes,
envoltos numa cortina de fumaça para a qual muito contribuiu o
silêncio da sociedade e mesmo o de entidades sempre tão prontas
para defender os direitos humanos.
Nesse ponto, o livro que também descreve o momento
político vivido pelo País, até o início da primeira campanha
presidencial pelo voto direto após a ditadura militar instaurada
em 1964, se transforma numa denúncia contundente do silêncio que
envolvia os crimes contra homossexuais. Pessoas que pagam
impostos, trabalham, mas denunciam com seus corpos e seu estilo
de vida o preconceito que ainda as envolve.
Como a americana Susan Sontag, no livro Assim Vivemos
Agora, Roldão dá um soco na hipocrisia da sociedade e de
alguns de seus representantes, entre os quais o atual ministro
Francisco Weffort e o atual vice-prefeito da capital paulista
Helio Bicudo. Gente sempre pronta e disposta a defender os direitos
humanos, desde que esses não impliquem homens com opções de vida
sexual consideradas suspeitas por uma sociedade ainda alimentada
e retroalimentada pelo machismo, além da culpa que a Igreja
Católica e as evangélicas inspiram, como se, para viver, esses
mesmos homens teriam de abrir mão daquilo que consideram vida.
Nem as próprias vítimas daqueles anos focalizados com
lupa por Roldão fugiam desse jogo da aceitação na sociedade, o
que as tornava certamente mais vulneráveis: tinham vida dupla,
na tentativa de preservar os familiares de uma opção malvista
pela sociedade na década de 80, onde a aids ainda se tornaria
uma agravante. É a aids o foco de Sontag e sua contundente
crítica. É a solidão que empurra essa gente para os guetos, onde
se servem de corpos que se oferecem, por dinheiro ou necessidade
a revelação principal da obra de Roldão.
O mérito do livro do repórter de O Estado de S.
Paulo é exatamente o da pesquisa, que revela os ambientes, com
descrições detalhadíssimas de saunas e bares, onde como diria
Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou o Livro dos
Prazeres, "se serve com ou sem soda".
O garoto de programa acusado dos crimes e que fazia
ponto no Trianon, como é chamada a região em torno da área verde
em frente do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na famosa
Avenida Paulista, também é perfilado por Roldão com muita
precisão. O repórter chega a entrevistá-lo para o livro, em 1995,
mas fica devendo aos seus leitores o epílogo de Fortunato
Botton Neto, que morreu no presídio de Taubaté (SP) no ano
passado, de aids, deixando envolto também em cortina de fumaça
alguns dos mistérios envolvendo a morte de suas vítimas. Acusado
de 13 assassinatos, seria julgado por três, mas assumiria com
mais precisão apenas o do psiquiatra Giacomo.
Rigor - Com texto fluido e uma linha de descrição
cuidadosa, seqüencial, trazendo para 302 páginas as melhores
qualidades do romance policial, Roldão apresenta uma a uma as
vítimas daqules crimes. Um jornalista, um diretor de teatro, um
decorador, um bancário, um médico, enfim gente comum, que
sonhava com amor, carinho, uma casa e uma noitada boa, como
aquela descrita na música Folhetim, de Francisco Buarque de
Holanda.
Só que a noitada boa, nesse caso, termina mal, muito mal
para esses 13 homens marcados para morrer.
Roldão inicia e encerra seu livro com a investigação daqueles
dias, mas descreve os lugares onde muitos outros ainda buscam
abrigo numa busca frenética, que pode resultar em novos crimes
consentidos. O Trianon ainda é ponto de prostituição masculina
na capital paulista e os bares do centro da cidade ainda são
freqüentadas por muitos solitários homossexuais à procura de uma
noitada boa.
Na representação da sociedade, o preconceito pode ter
dimuído um pouco, mas ainda vigora. O então presidente da Câmara
dos Deputados Luiz Eduardo Magalhães (PFL/BA), quando defendeu o
projeto de união civil entre pessoas de mesmo sexo da atual
prefeita paulistana Marta Suplicy, teve de enfrentar no plenário
e em declarações à imprensa piadas e críticas nada edificantes
ao projeto de gente como Inocêncio de Oliveira (PFL/PE), que
externava não uma posição individual, mas de muitos daqueles que
ainda se escondem nessa cortina de fumaça e preferem o silêncio,
que ajuda a sepultar gente como Giacomo.
O livro de Roldão é, nesse sentido, uma obra aberta. Um
flagrante ou simples faísca de uma realidade que nos cerca, como
aquela que descreveu Sontag suplicando à sociedade americana que
tratasse os acometidos de aids como doentes e não como
condenados à morte pela vida que levavam, caso contrário a
própria sociedade pagaria o preço do silêncio. Roldão parece com suas descrições
desejar o mesmo ao denunciar a histórica verídica de
assassinatos autorizados. É esse flagrante o sinal de alerta e o
soco de Dias de Ira, seco e contundente como o bom texto
jornalístico deve ser.
Dias de Ira: Uma História Verídica de Assassinatos
Autorizados. Livro de Roldão Arruda. Editora Globo, 312 págs., R$ 25.
1987, o psiquiatra Antonio Carlos Di Giacomo foi encontrado
morto no apartamento em que morava no Edifício Alice, na Rua do
Rocio, no bairro Vila Funchal, na zona sul da capital paulista.
O médico santista, formado pela Escola Paulista de Medicina, que
trabalhava no Hospital do Servidor Público, iria figurar numa
lista de 13 assassinatos, cometidos entre 1986 e 1989.
Em comum, as vítimas eram homens, tinham de 30 a 60 anos,
viviam sozinhas, eram independentes financeiramente e eram homossexuais. É uma extraordinária investigação da vida desses homens
e do criminoso apontado pela polícia como o responsável pelos
assassinatos, o garoto de programa Fortunato Botton Neto, que
move o livro Dias de Ira - Uma História Verídica de
Assassinatos Autorizados do jornalista Roldão Arruda, recém-
lançado pela Editora Globo.
Mergulhando nas extensas páginas, muitas mal escritas,
dos relatórios policiais e depoimentos que desembocariam nos
processos, Roldão traçou o perfil das vítimas desses crimes,
envoltos numa cortina de fumaça para a qual muito contribuiu o
silêncio da sociedade e mesmo o de entidades sempre tão prontas
para defender os direitos humanos.
Nesse ponto, o livro que também descreve o momento
político vivido pelo País, até o início da primeira campanha
presidencial pelo voto direto após a ditadura militar instaurada
em 1964, se transforma numa denúncia contundente do silêncio que
envolvia os crimes contra homossexuais. Pessoas que pagam
impostos, trabalham, mas denunciam com seus corpos e seu estilo
de vida o preconceito que ainda as envolve.
Como a americana Susan Sontag, no livro Assim Vivemos
Agora, Roldão dá um soco na hipocrisia da sociedade e de
alguns de seus representantes, entre os quais o atual ministro
Francisco Weffort e o atual vice-prefeito da capital paulista
Helio Bicudo. Gente sempre pronta e disposta a defender os direitos
humanos, desde que esses não impliquem homens com opções de vida
sexual consideradas suspeitas por uma sociedade ainda alimentada
e retroalimentada pelo machismo, além da culpa que a Igreja
Católica e as evangélicas inspiram, como se, para viver, esses
mesmos homens teriam de abrir mão daquilo que consideram vida.
Nem as próprias vítimas daqueles anos focalizados com
lupa por Roldão fugiam desse jogo da aceitação na sociedade, o
que as tornava certamente mais vulneráveis: tinham vida dupla,
na tentativa de preservar os familiares de uma opção malvista
pela sociedade na década de 80, onde a aids ainda se tornaria
uma agravante. É a aids o foco de Sontag e sua contundente
crítica. É a solidão que empurra essa gente para os guetos, onde
se servem de corpos que se oferecem, por dinheiro ou necessidade
a revelação principal da obra de Roldão.
O mérito do livro do repórter de O Estado de S.
Paulo é exatamente o da pesquisa, que revela os ambientes, com
descrições detalhadíssimas de saunas e bares, onde como diria
Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou o Livro dos
Prazeres, "se serve com ou sem soda".
O garoto de programa acusado dos crimes e que fazia
ponto no Trianon, como é chamada a região em torno da área verde
em frente do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na famosa
Avenida Paulista, também é perfilado por Roldão com muita
precisão. O repórter chega a entrevistá-lo para o livro, em 1995,
mas fica devendo aos seus leitores o epílogo de Fortunato
Botton Neto, que morreu no presídio de Taubaté (SP) no ano
passado, de aids, deixando envolto também em cortina de fumaça
alguns dos mistérios envolvendo a morte de suas vítimas. Acusado
de 13 assassinatos, seria julgado por três, mas assumiria com
mais precisão apenas o do psiquiatra Giacomo.
Rigor - Com texto fluido e uma linha de descrição
cuidadosa, seqüencial, trazendo para 302 páginas as melhores
qualidades do romance policial, Roldão apresenta uma a uma as
vítimas daqules crimes. Um jornalista, um diretor de teatro, um
decorador, um bancário, um médico, enfim gente comum, que
sonhava com amor, carinho, uma casa e uma noitada boa, como
aquela descrita na música Folhetim, de Francisco Buarque de
Holanda.
Só que a noitada boa, nesse caso, termina mal, muito mal
para esses 13 homens marcados para morrer.
Roldão inicia e encerra seu livro com a investigação daqueles
dias, mas descreve os lugares onde muitos outros ainda buscam
abrigo numa busca frenética, que pode resultar em novos crimes
consentidos. O Trianon ainda é ponto de prostituição masculina
na capital paulista e os bares do centro da cidade ainda são
freqüentadas por muitos solitários homossexuais à procura de uma
noitada boa.
Na representação da sociedade, o preconceito pode ter
dimuído um pouco, mas ainda vigora. O então presidente da Câmara
dos Deputados Luiz Eduardo Magalhães (PFL/BA), quando defendeu o
projeto de união civil entre pessoas de mesmo sexo da atual
prefeita paulistana Marta Suplicy, teve de enfrentar no plenário
e em declarações à imprensa piadas e críticas nada edificantes
ao projeto de gente como Inocêncio de Oliveira (PFL/PE), que
externava não uma posição individual, mas de muitos daqueles que
ainda se escondem nessa cortina de fumaça e preferem o silêncio,
que ajuda a sepultar gente como Giacomo.
O livro de Roldão é, nesse sentido, uma obra aberta. Um
flagrante ou simples faísca de uma realidade que nos cerca, como
aquela que descreveu Sontag suplicando à sociedade americana que
tratasse os acometidos de aids como doentes e não como
condenados à morte pela vida que levavam, caso contrário a
própria sociedade pagaria o preço do silêncio. Roldão parece com suas descrições
desejar o mesmo ao denunciar a histórica verídica de
assassinatos autorizados. É esse flagrante o sinal de alerta e o
soco de Dias de Ira, seco e contundente como o bom texto
jornalístico deve ser.
Dias de Ira: Uma História Verídica de Assassinatos
Autorizados. Livro de Roldão Arruda. Editora Globo, 312 págs., R$ 25.