Quinta-feira, 21 de Março de 2002, 16:22 | Online
"O Pornógrafo" mescla sexo e sofrimento
Bertrand Bonelo é um jovem diretor canadense de 33 anos. Assina O Pornógrafo. O filme com Jean-Pierre Léaud é a melhor estréia de amanhã nos cinemas da cidade
Bertrand Bonelo é um jovem diretor
canadense de 33 anos. Assina O Pornógrafo. O filme com
Jean-Pierre Léaud é a melhor estréia de amanhã nos cinemas da
cidade, mas, às vésperas do Oscar (no domingo), a atenção do
público fica concentrada nos lançamentos que concorrem aos
prêmios da Academia de Hollywood. O Pornógrafo não teria a
menor chance no Oscar. Trabalha em dois registros aos quais a
academia é avessa: é um filme-cabeça e trata, explicitamente, de
sexo.
Um filme-cabeça sem deixar de ser humano. Emocionante,
até, só que sua emoção opera no registro mais elaborado do
intelecto. Um filme de sexo explícito, sim, com direito a tudo o
que você possa imaginar. Essas cenas de sexo estão lá e quase
todas no começo. E então vem a cena talvez mais importante de
O Pornógrafo: Léaud, que faz o pornógrafo do título, um
diretor de filmes de sexo explícito, fecha os olhos quando seus
atores estão copulando em cena. É um pornógrafo que não quer ver
pornografia. É o que faz desse filme franco-canadense uma
experiência única.
Bonelo é músico de formação. Cria as cenas musicalmente,
pensando no tempo, como na música. Usa a trilha para fazer
referências e prestar homenagens. O diretor de filmes
pornográficos é um homem em crise de identidade. Atravessa um
mau momento com a mulher, o filho saiu de casa ao descobrir sua
profissão. E então o filho volta. Quando ele aparece pela
primeira vez está caminhando, na rua. Preste atenção na música.
É o tema sublime de O Garoto Selvagem, o mais rosselliniano
dos grandes filmes de François Truffaut. Você, por certo, se
lembra da cena em que Victor, o garoto, uiva para a Lua. A
música que lhe servia de fundo, de despedaçar o coração, é a
mesma que se ouve em O Pornógrafo.
Por que isso ocorre é um atraente tema para discussão.
O Garoto Selvagem, sem nenhuma sugestão de sexo, muito menos
explícito, trata do conflito entre instinto e civilização. Tem a
ver com temas embutidos em O Pornógrafo. E, depois, Léaud
foi o ator fetiche de Truffaut, seu alter ego. Interpretou
Antoine Doinel em toda a série com o personagem autobiográfico
do diretor. Léaud não é verdadeiramente um ator, no sentido
técnico do termo. Mas traz para a tela sua persona, esculpida em
filmes essencialmente políticos, com todos os diretores
importantes com os quais trabalhou. Além de Truffaut, houve
outros: Jean-Luc Godard, Pier-Paolo Pasolini, Glauber Rocha.
Nos diálogos com a mulher, interpretada por Dominic
Blanc, Jacques, o pornógrafo, lembra os míticos anos 60, quando
fazer filmes de sexo explícito era um gesto político de
protesto. Só que o tempo passou e ele foi ficando cada vez mais
amargurado. Seu malaise - o mal-estar, no sentido mais
existencial - em relação ao que se tornou é evidente. A volta de
Joseph, o filho, interpretado por Jérémie Rénier, acentua essa
necessidade que o pornógrafo experimenta de reconciliar-se
consigo mesmo.
Dignidade - Num depoimento escrito, o diretor comentou
seu trabalho com Léaud. Disse que ele carrega uma rara
possibilidade de exprimir o sofrimento: "É um homem confrontado
com a necessidade de manter sua dignidade, com a recusa a ser
vulgar, mesmo fazendo filmes pornográficos." E Bonelo define o
que, para ele, é a pornografia: "É quando nos calamos e
mostramos os órgãos sexuais, algo sem interesse nenhum. Para
contradizer a pornografia, procurei encontrar dignidade,
profundidade e sofrimento na expressão de palavras muito
cruas." Léaud foi fundamental no processo.
Com O Pornógrafo, é o cinema francófono que volta às
telas da cidade. Alguns dos melhores filmes vistos este ano na
cidade são falados em francês, senão exatamente procedentes da
França. O mais popular deles, mas não o melhor, é O Fabuloso
Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet. Bastante
superiores são A Cidade Está Tranqüila, de Robert Guédiguian
O Gosto dos Outros, de Agns Jaoui, e agora O
Pornógrafo. Não é um filme francês, mas franco-canadense. A
França apóia, além de suas fronteiras, o cinema de língua
francesa. Faz parte do seu projeto de oferecer-se como
alternativa à dominação de Hollywood.
Bonelo começou esse filme meio ao acaso, a partir de
notas sobre o universo da pornografia. Desenhava o personagem do
pornógrafo, mas ele não o satisfazia. O verdadeiro interesse do
diretor pelo filme surgiu do personagem do filho, do conflito
que ele estabelece com o pai. O curioso é que, ao filmar, Bonelo
diz que queria identificar-se com Joseph, mas a presença
carismática de Léaud o aproximava cada vez mais de Jacques. É um
personagem triste. Torna pungentes certos momentos de O
Pornógrafo, como se Bonelo quisesse refazer o lamento contido na
canção de Charles Trenet que Truffaut usou como tema de Beijos
Proibidos: "Que reste-t-il de nos amours?"
Num certo sentido, é um filme kazaniano. Evoca o mais
belo filme de Elia Kazan nos anos 60. Em Clamor do Sexo,
Natalie Wood perdoa a mãe que impediu seu romance com Warren
Beatty e transformou sua vida num inferno de paixão reprimida.
Bonelo não cita Kazan, mas repete o procedimento em O
Pornógrafo. Ao perdoar o pai, Joseph começa a afastar-se dele,
para viver, sem ressentimento, a própria vida. Sem perdão,
permaneceria atado ao rancor pelo pai. O Pornógrafo é uma
poderosa experiência de cinema (e de vida).
Serviço - O Pornógrafo (Le Pornographe). Drama. Direção de Bertrand Bonelo. Fr-Can/2001. Duração: 108 min. 18 anos.
canadense de 33 anos. Assina O Pornógrafo. O filme com
Jean-Pierre Léaud é a melhor estréia de amanhã nos cinemas da
cidade, mas, às vésperas do Oscar (no domingo), a atenção do
público fica concentrada nos lançamentos que concorrem aos
prêmios da Academia de Hollywood. O Pornógrafo não teria a
menor chance no Oscar. Trabalha em dois registros aos quais a
academia é avessa: é um filme-cabeça e trata, explicitamente, de
sexo.
Um filme-cabeça sem deixar de ser humano. Emocionante,
até, só que sua emoção opera no registro mais elaborado do
intelecto. Um filme de sexo explícito, sim, com direito a tudo o
que você possa imaginar. Essas cenas de sexo estão lá e quase
todas no começo. E então vem a cena talvez mais importante de
O Pornógrafo: Léaud, que faz o pornógrafo do título, um
diretor de filmes de sexo explícito, fecha os olhos quando seus
atores estão copulando em cena. É um pornógrafo que não quer ver
pornografia. É o que faz desse filme franco-canadense uma
experiência única.
Bonelo é músico de formação. Cria as cenas musicalmente,
pensando no tempo, como na música. Usa a trilha para fazer
referências e prestar homenagens. O diretor de filmes
pornográficos é um homem em crise de identidade. Atravessa um
mau momento com a mulher, o filho saiu de casa ao descobrir sua
profissão. E então o filho volta. Quando ele aparece pela
primeira vez está caminhando, na rua. Preste atenção na música.
É o tema sublime de O Garoto Selvagem, o mais rosselliniano
dos grandes filmes de François Truffaut. Você, por certo, se
lembra da cena em que Victor, o garoto, uiva para a Lua. A
música que lhe servia de fundo, de despedaçar o coração, é a
mesma que se ouve em O Pornógrafo.
Por que isso ocorre é um atraente tema para discussão.
O Garoto Selvagem, sem nenhuma sugestão de sexo, muito menos
explícito, trata do conflito entre instinto e civilização. Tem a
ver com temas embutidos em O Pornógrafo. E, depois, Léaud
foi o ator fetiche de Truffaut, seu alter ego. Interpretou
Antoine Doinel em toda a série com o personagem autobiográfico
do diretor. Léaud não é verdadeiramente um ator, no sentido
técnico do termo. Mas traz para a tela sua persona, esculpida em
filmes essencialmente políticos, com todos os diretores
importantes com os quais trabalhou. Além de Truffaut, houve
outros: Jean-Luc Godard, Pier-Paolo Pasolini, Glauber Rocha.
Nos diálogos com a mulher, interpretada por Dominic
Blanc, Jacques, o pornógrafo, lembra os míticos anos 60, quando
fazer filmes de sexo explícito era um gesto político de
protesto. Só que o tempo passou e ele foi ficando cada vez mais
amargurado. Seu malaise - o mal-estar, no sentido mais
existencial - em relação ao que se tornou é evidente. A volta de
Joseph, o filho, interpretado por Jérémie Rénier, acentua essa
necessidade que o pornógrafo experimenta de reconciliar-se
consigo mesmo.
Dignidade - Num depoimento escrito, o diretor comentou
seu trabalho com Léaud. Disse que ele carrega uma rara
possibilidade de exprimir o sofrimento: "É um homem confrontado
com a necessidade de manter sua dignidade, com a recusa a ser
vulgar, mesmo fazendo filmes pornográficos." E Bonelo define o
que, para ele, é a pornografia: "É quando nos calamos e
mostramos os órgãos sexuais, algo sem interesse nenhum. Para
contradizer a pornografia, procurei encontrar dignidade,
profundidade e sofrimento na expressão de palavras muito
cruas." Léaud foi fundamental no processo.
Com O Pornógrafo, é o cinema francófono que volta às
telas da cidade. Alguns dos melhores filmes vistos este ano na
cidade são falados em francês, senão exatamente procedentes da
França. O mais popular deles, mas não o melhor, é O Fabuloso
Destino de Amélie Poulain, de Jean-Pierre Jeunet. Bastante
superiores são A Cidade Está Tranqüila, de Robert Guédiguian
O Gosto dos Outros, de Agns Jaoui, e agora O
Pornógrafo. Não é um filme francês, mas franco-canadense. A
França apóia, além de suas fronteiras, o cinema de língua
francesa. Faz parte do seu projeto de oferecer-se como
alternativa à dominação de Hollywood.
Bonelo começou esse filme meio ao acaso, a partir de
notas sobre o universo da pornografia. Desenhava o personagem do
pornógrafo, mas ele não o satisfazia. O verdadeiro interesse do
diretor pelo filme surgiu do personagem do filho, do conflito
que ele estabelece com o pai. O curioso é que, ao filmar, Bonelo
diz que queria identificar-se com Joseph, mas a presença
carismática de Léaud o aproximava cada vez mais de Jacques. É um
personagem triste. Torna pungentes certos momentos de O
Pornógrafo, como se Bonelo quisesse refazer o lamento contido na
canção de Charles Trenet que Truffaut usou como tema de Beijos
Proibidos: "Que reste-t-il de nos amours?"
Num certo sentido, é um filme kazaniano. Evoca o mais
belo filme de Elia Kazan nos anos 60. Em Clamor do Sexo,
Natalie Wood perdoa a mãe que impediu seu romance com Warren
Beatty e transformou sua vida num inferno de paixão reprimida.
Bonelo não cita Kazan, mas repete o procedimento em O
Pornógrafo. Ao perdoar o pai, Joseph começa a afastar-se dele,
para viver, sem ressentimento, a própria vida. Sem perdão,
permaneceria atado ao rancor pelo pai. O Pornógrafo é uma
poderosa experiência de cinema (e de vida).
Serviço - O Pornógrafo (Le Pornographe). Drama. Direção de Bertrand Bonelo. Fr-Can/2001. Duração: 108 min. 18 anos.