Brasil dos Simpsons fica só na TV

Março, dia 31. Ano de 2002. O desenho animado Os Simpsons traz um episódio em que a família americana de cara amarela vem conhecer o Brasil. A Nação se sente aviltada com os macacos na rua, Bart estudando espanhol no avião, a acusação de que há uma onda de violência no País (Homer é seqüestrado por um motorista de táxi "não-licenciado") e de que as autoridades mandam pintar as casas da favela para fazer bonito para os turistas. A RioTur ameaça iniciar um processo por perdas e danos e o sociólogo (e presidente) Fernando Henrique Cardoso se manifesta, por intermédio de seu porta-voz: o seriado apresenta "uma visão distorcida da realidade brasileira". Os produtores do desenho vêm a público e pedem desculpas "à adorável cidade e ao povo do Rio de Janeiro" e emendam, para não trair o senso de humor cáustico do seriado: "E se isso não encerrar o episódio, Homer Simpson aceita disputar uma luta de boxe com o presidente do Brasil no Celebrity Boxing" - um programa em que celebridades simulam uma luta de boxe. Domingo é a chance de todos os brasileiros (ou todos os que têm acesso à TV paga) conferirem se havia motivo para tanto bater de caixa. Num comunicado que antecede a exibição de Feitiço de Lisa (nome do episódio em português, numa referência ao filme Feitiço do Rio - em inglês, ele se chamava Blame it on Lisa, ou Culpem a Lisa), a Fox informa que "não é responsável pela visão dos criadores da série". A exibição do polêmico episódio é, também, uma oportunidade para perceber que, no embate entre os Simpsons e o Brasil, quem vence é o politicamente correto. Como assim? Um programa que diz que a Amazônia fica do lado do Rio e que coloca crianças batendo carteiras de turistas numa cidade do Terceiro Mundo, sendo esses turistas norte-americanos, como pode ser politicamente correto? A resposta vem da longa trajetória do programa, uma dura crítica ao norte-americano médio e sua absoluta alienação diante do que acontece no próprio país e no mundo. Mas isso pode ser visto no mesmo Feitiço de Lisa. Ninguém contou aos brasileiros que não viram o episódio como tudo começa. Uma conta telefônica de US$ 400 chega à casa de Homer e Maggie. Claro, eles estão certos de que é um erro da companhia telefônica. Vão se queixar. Na verdade, não sabem direito qual é companhia que teria cometido o erro, porque elas trocam de nome a toda hora. O que enfrentam todo brasileiro conhece - cujo espírito pode ser resumido numa frase clássica dos serviços de telemarketing: "Um momento, senhor." Quando são atendidos e dizem que não vão pagar a conta, a gerente de atendimento informa, ríspida: "Tudo bem, então vão ficar sem telefone!" Mais tarde, quando a falta do aparelho começa a atrapalhar a vida de todos, Lisa confessa que foi ela quem ligou para o Rio. Queria falar com um menino, Ronaldo, com quem se correspondia. Como a ligação fora atendida por uma freira - que insistia em pedir doações -, ela não tinha coragem de desligar. Lisa mostra um vídeo de Ronaldo, em que ele agradece uma doação (permitiu que ele comprasse um sapato e ao orfanato, uma porta - agora ele estava protegido dos macacos). Os Simpsons se comovem e decidem partir para o Brasil, para procurar o tal Ronaldo. No avião (têm de comprar pela internet um daqueles vôos pinga-pinga), cuja passagem é bem barata, cada um tenta se informar sobre o Brasil. Bart tenta aprender espanhol - no Brasil, isso foi visto como uma ignorância do episódio, o que não parece ser o caso: as placas dos estabelecimentos comerciais estão todas em português -, mas o fato é que, pelo menos na versão traduzida, sua mãe diz a ele que a língua que ele estava estudando não lhe serviria para nada. Lisa traz um livro para estudar o Brasil - e o espertalhão Homer, quando chega ao Rio, ficamos sabendo, trazia um outro na bagagem, que ensinava a "saquear o Brasil". A família Simpson não é um exemplo de moralidade nem de conhecimento. A visão que tem do Brasil é a do americano médio, que não sabe nada sobre o que se passa aqui. Pode-se ver também no desenho um desejo de equilíbrio típico do politicamente correto: Homer não é diferente dos trombadinhas e da empresa telefônica, todos estão procurando se aproveitar de uma situação. Acreditar que o episódio tinha e conseguiu diminuir a tão famosa "imagem do Brasil no estrangeiro" é não levar em conta essa dose de crítica que o desenho tem - ainda que nem sempre seus autores tenham consciência disso. Quem dúvida do grau de ignorância dos Simpsons sobre o mundo e sobre o próprio país pode assistir ainda a outros episódios de viagem, que também passam no canal Fox no domingo. No Japão, por exemplo, Homer é informado que o programa de TV de que participa não premia o conhecimento, apenas pune a ignorância, antes de ser "atacado" por um microfone-spray. Antes disso, se deslumbra com uma privada eletrônica, a ponto de afirmar: "Eles estão muito mais evoluídos que nós!" Tudo bem que Homer não perceba a ironia - mas a gente também vai cair nessa? Os Simpsons no Brasil - O Feitiço de Lisa - Domingo, às 20h30. Também no domingo, às 19 horas, reapresentação dos especiais da semana em que a família visita Canadá, África e Japão. Canal FOX (operadora/canais: NET, 50; SKY, 50; TVA, 49).

Agencia Estado,

05 Dezembro 2002 | 17h17

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