Monica Bellucci fala sobre cena de "Irreversível"

Comparada a Sophia Loren, nos seus 30 e poucos anos, a atriz Monica Bellucci é a última italiana a seduzir Hollywood. A morena dona de medidas invejáveis embelezou a continuação de Matrix, ao lado de Keanu Reeves, contracena com Bruce Willis no ainda inédito Lágrimas do Sol, e foi escolhida por Mel Gibson para viver Maria Madalena do recém-filmado The Passion. Beleza só é problema para quem se apóia unicamente nela, diz a atriz, que não tem medo de macular a imagem de estrela. No polêmico Irreversível, que estréia nesta sexta, dia 26, nas telas brasileiras, a musa interpreta personagem que é brutalizada na trama. Sob a direção do francês Gaspar Noé, a ex-modelo ousa protagonizar uma cena perturbadora em passagem subterrânea de Paris, onde é estuprada e desfigurada em plano-sequência de 20 minutos. "Ninguém sai imune da sala de cinema". Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida em Cannes. Agência Estado - Depois de ser linchada em "Malena", você é violentada em "Irreversível"... Monica Belluccci - Não sou masoquista, não (risos). Simplesmente aceito papéis degradantes com o intuito de denunciar a violência contra as mulheres. Não gosto de vê-las sendo tratadas como prostitutas. As mulheres são sempre vítimas nas mãos dos homens e a única maneira de abrir os olhos do mundo é levar a situação às últimas consequências. A seqüência do estupro seguido de mutilação é difícil de assistir. Como foi rodá-la? Ainda mais difícil. Minutos antes de filmar eu não tinha a menor idéia do que iria fazer. Mesmo assim, preferi não ensaiar o estupro para não perder o impacto. Só entrei na situação quando a câmera foi ligada. Confesso que fiquei ainda mais nervosa quando o ator que supostamente me violenta (Jo Prestia) começa a me espancar. Graças a Deus ele é um boxeador profissional, o que lhe garantiu o controle total na hora de dar socos e pontapés. Ele interrompia o movimento faltando um centímetro para me acertar. A sequência foi realizada em uma única tomada? De tão realista, as pessoas têm essa impressão. Mas nós fizemos seis tomadas. Por ser plano-sequência, eu ainda tinha de repetir tudo de uma só vez. Tinha de sair da casa, encontrar a prostituta na rua, descer as escadas, caminhar pela passagem subterrânea, testemunhar a briga e só depois ser atacada. Isso aumentava a angústia. Como encarou a fria recepção em Cannes de "Irreversível"? Eu me envolvi com o projeto justamente por acreditar no ponto de vista forte e particular do diretor Gaspar Noé. O filme é extremamente realista e violento, o que o torna obviamente difícil de digerir. Por gostar de obras como Saló ou 120 Dias de Sodoma, de Pasolini, encaro o cinema como uma forma de reflexão. E não apenas diversão. Só o fato de Irreversível ter convidado ao diálogo já me deixou satisfeita. Com Hollywood a seus pés, pensa em redirecionar a carreira, priorizando os filmes mais comerciais? Não. Isso nunca foi o meu objetivo. Eu aceitei atuar em The Matrix Reloaded porque sou fã dos irmãos Wachowsky, responsáveis pela franquia. Gosto muito de Ligadas pelo Desejo e do Matrix original. Como foi contracenar com um astro como Bruce Willis em "Lágrimas do Sol" (com lançamento nos cinemas nacionais em outubro)"? Foi maravilhoso descobrir que ele não é simplesmente o protagonista da série Duro de Matar. Willis é um ator que explora outras possibilidades cinematográficas, como Pulp Fiction ? Tempo de Violência e Vida Bandida. Aceitei o papel não só pela chance de trabalhar com o ator, mas também com o diretor Antoine Fuqua (mais conhecido por Dia de Treinamento). Eu interpreto uma médica que convence Willis, chefe de uma operação militar, a salvar 70 refugiados na Nigéria. Até que ponto a beleza pode restringir as escolhas de uma atriz no cinema? A beleza só se torna um problema quando a atriz conta unicamente com ela na carreira. Se você for inteligente, pode usá-la a seu favor. Eu sempre me senti à vontade com a minha aparência. Não apenas porque me acho bonita, mas porque tive a sorte de ser muito amada. Sentir-se bem é um reflexo da sua vida interior.

Agencia Estado,

26 Setembro 2003 | 16h23

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