Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007, 12:57 | Online

Cia. do Latão faz montagem brilhante de Brecht

Atores demonstram domínio da linguagem épica em O Círculo de Giz Caucasiano

Na montagem de O Círculo de Giz
Caucasiano o primeiro e forte impacto positivo vem com a
pertinente recriação do prólogo, que vai além da mera
atualização temporal ou temática. Embora tome apenas sete das
mais de cem páginas dessa peça de Bertolt Brecht, é recurso
dramatúrgico de fundamental importância porque dá sentido e
justifica o espetáculo que será apresentado e, mais amplamente,
a própria arte. Tal função não escapou ao diretor Sérgio
Carvalho, pelo contrário, sua versão atualiza o essencial - a
conexão entre vida e arte.

No original, o prólogo flagra um litígio por um pedaço
de terra entre camponeses da antiga União Soviética. A decisão
final - toma posse do vale não quem o possuía por direito legal,
mas quem projetou irrigá-lo e fertilizá-lo - será comemorada com
a representação de uma peça que, obviamente, tem como objetivo
reforçar, ludicamente, a validade do conceito de justiça
aplicado na decisão - o bem é de quem o merece - e, sobretudo,
mostrar a impossibilidade de que tal justiça seja aplicada numa
sociedade baseada no poder econômico e na propriedade privada, a
não ser como exceção.

Ao escolher um assentamento do MST, em Sarapuí, SP, para
ambientar o prólogo, o diretor não o faz para ‘atualizar’ o
litígio, transformando camponeses soviéticos em ‘assentados’, o
que truncaria sentidos, mas sim une atores e assentados em torno
de uma discussão sobre o texto. A edição desse encontro,
projetada no teatro, é bastante eloqüente seja pelas imagens,
como o contraste entre a aridez do pasto cheio de tocos de
árvores e a parte já irrigada do assentamento - que parece nos
dizer que ali foi aplicado o conceito de justiça em questão -
seja pelas palavras, uma vez que os próprios assentados se dão
conta da diferença entre a realidade retratada no texto e a
‘exceção’ na conquista deles.

A revitalização do prólogo refunda o sentido da
representação que se segue - uma lenda de origem chinesa sobre a
disputa de um menino entre sua mãe de sangue e sua mãe de
criação. Não por acaso, Brecht deixa bem claro que será um
prestigiado e experiente cantor e poeta o responsável pela
encenação. Recado do autor? Se os objetivos político-pedagógicos
de Brecht são inequívocos - mascará-los é tudo que jamais quis,
pelo contrário -, ele também sabia que só seriam alcançados com
bom teatro. E é exatamente isso o que nos oferece a Cia. do
Latão.

Destaques



Antes de mais nada, o longo exercício da linguagem épica
reflete-se positivamente no palco, na leveza com que se faz em
cena o trânsito entre drama e a narrativa. É admirável o domínio
alcançado pelos atores do Latão nessa estética, especialmente
Helena Albergaria e Ney Piacentini, que ora vivem plenamente os
sentimentos e contradições dos personagens - trazendo à tona uma
incrível gama deles - ora são atores/narradores, num trânsito
que flui de tal forma que o espectador é conduzido ao mesmo
movimento, da emoção ao distanciamento crítico, prazerosamente.

Sérgio Carvalho optou por abrir mão das rígidas máscaras
sugeridas no texto. Como tem um elenco de onze atores muito
afiados - Rogério Bandeira, Luís Marmora, Rodrigo Bolzan estão
entre os que vieram de outras companhias e se integraram
perfeitamente à linguagem do Latão -, os personagens ganharam em
humanidade sem prejuízo da idéias que se pretende demonstrar. A
montagem consegue ser tão cristalina quanto o texto ao
demonstrar o funcionamento do jogo das forças políticas e a ação
desse jogo sobre os indivíduos.

Entre as qualidades dessa montagem destaca-se a música,
executada ao vivo, elemento fundamental na condução da trama. A
direção musical de Martin Eikmeier é nada menos que brilhante e
o resultado é tão harmônico que, paradoxalmente, a música não
desvia nossa atenção para ela. Grande texto em encenação feliz
da Cia. do Latão, O Círculo de Giz Caucasiano é espetáculo que
toca, a um só tempo, corações e mentes, deleite intelectual e
emocional. Como queria o autor.



O Círculo de Giz Caucasiano. 180 min (intervalo 15 min). 16 a.
Com a Cia. do Latão e convidados. Sesc Avenida Paulista (100 lug
). Av. Paulista, 119, tel. (11) 3179- 3700. 6.ª a dom., 20 h. R$
15
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