Domingo, 9 de Junho de 2002, 20:40 | Online

Repórter foi capturado, torturado e morto por traficantes

O jornalista da Rede Globo Tim Lopes foi
morto com um golpe de espada do tipo samurai, desferido pelo
líder do tráfico do Complexo do Alemão, Elias Pereira da Silva,
o Elias Maluco, depois de ser capturado e torturado por
traficantes da favela Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio. Antes
de ser morto, Tim teria sido submetido a um julgamento comandado
por Elias Maluco e outros três traficantes. A polícia chegou a
essas informações depois de prender três suspeitos de terem
participado do crime, na manhã de hoje. Um deles tinha prisão
preventiva decretada há mais de um ano por tráfico de drogas.
Outro, vinha sendo investigado e o terceiro é um adolescente de
16 anos.

Tim Lopes desapareceu há oito dias, quando preparava uma
reportagem sobre um baile funk na Vila Cruzeiro, em que havia
venda de drogas e shows de sexo explícito com menores de idade.
Os traficantes desconfiaram da bolsa na cintura que o jornalista
carregava, e onde ele escondia uma microcâmera.

Neste domingo, o secretário de Segurança Pública do RJ, Roberto
Aguiar, proibiu a realização do baile. A polícia ocupou o morro.
O Ministro da Justiça, Miguel Reali Júnior, informou que
deslocou helicópteros e o comando de Operações Táticas da
Polícia Federal para ajudar na investigação do caso.

Cinco suspeitos de terem participação na morte de Tim
Lopes foram presos dormindo em suas casas, no Morro Caixa D´Água
uma das favelas do Complexo do Alemão, às 7 horas. Levados para
a 38.ª Delegacia de Polícia (Brás de Pina), dois deles foram
liberados por falta de provas.

Outros dois, no entanto, Fernando Sátiro da Silva, de 25
anos, o Frei, e Reinaldo Amaral de Jesus, de 23, o Cadê,
contaram que "ouviram dizer" como Tim Lopes havia sido
assassinado. "O problema é que esse ´ouviram dizer´ está muito
rico em detalhes", afirmou o chefe de Polícia Civil do RJ,
Zaqueu Teixeira. "Foi um crime com requintes de crueldade". A
polícia ainda não determinou o envolvimento do menor de 16 anos,
que permaneceu preso.

Segundo Frei, os traficantes desconfiaram da presença
constante do repórter na favela nos últimos dias. Um dos
seguranças do traficante Maurício de Lima Martins, o Boi,
abordou Tim Lopes na Rua Oito, onde fica a boca-de-fumo e o
baile funk. O jornalista foi levado à presença de Boi e André da
Cunha Barbosa, o André Capeta.

Ali, foi revistado e descoberta a câmera e os fios do
microfone escondidos sob a camisa. Tim disse que era repórter da
Rede Globo. Os traficantes pediram crachá de identificação, mas
Tim Lopes respondeu que não estava com ele. Até então, ele havia
sido agredido "apenas com uns tapas, umas porradas", segundo o
depoimento de Frei.

Troféu - Os traficantes usaram um rádio Nextel para se
comunicar com Elias Maluco. "Ele recebeu a notícia da captura
de Tim Lopes como um troféu", afirmou o delegado da 38ª DP,
Reginaldo Guilherme. "E fez questão de terminar o serviço".
Elias Maluco determinou que Tim Lopes fosse levado para a Favela
da Grota, principal reduto do traficante. Tim teve as mãos
amarradas para trás, foi colocado num Fiat Palio e levado para o
alto do morro vizinho.

No local conhecido como "microondas", onde são feitas
as execuções, Tim foi baleado no pé, para evitar que fugisse.
Elias Maluco, André Capeta, Boi e o traficante Ratinho
comandaram um julgamento, em que ficou decidido a morte do
jornalista. Lá, cercado de traficantes, foi executado com um
golpe que cortou do peito ao umbigo do jornalista.

"Eles contaram que quando Tim Lopes foi atingido, o
sangue dele espirrou em todos que estavam a sua volta", contou
o delegado Guilherme. O crime teria ocorrido nos primeiros
minutos de segunda-feira. O corpo do jornalista foi incendiado
num monte de pneus e seus restos enterrados num cemitério
clandestino, próximo dali.

Ratinho, um dos que "condenaram" Tim Lopes, aparece
nas gravações da reportagem "Feira de Drogas", em que o
jornalista denunciou venda de entorpecentes nas ruas das
favelas. Mas, segundo depoimento de Frei, os traficantes não
sabiam que Tim havia sido o autor da matéria.

De acordo com as informações colhidas pelo delegado
Reginaldo Guilherme, os restos mortais recolhidos na
segunda-feira passada e levados para análise de DNA pertenciam a
um morador da favela, assassinado pelos traficantes depois de
ter estuprado uma menina de 11 anos. A polícia recebeu hoje as
fitas gravadas por Tim Lopes, para auxiliar na possível
identificação dos assassinos.

Frei confirmou a existência do baile funk aos domingos e
reconheceu que há venda de drogas durante a festa. Mas negou a
exploração sexual de adolescentes. O traficante disse que o
baile é comandado por João Rato, ligado à associação de
moradores da Vila Cruzeiro. A polícia tem informação de que ele
seria um ex-policial militar. João Rato tem depoimento marcado
para as 18 horas desta segunda-feira, na 22.ª DP (Penha). Se ele
faltar, terá a prisão preventiva pedida. Ainda nesta segunda, a polícia
pretende ir ao cemitério clandestino, em busca do corpo de Tim Lopes.




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