Segunda-feira, 17 de Julho de 2006, 21:30 | Online

Sem facções, penitenciária de Tupi Paulista vive em relativa paz

Presos procuram manter um comportamento que não os faça ser transferidos para outras instituições

A paz reina entre agentes e detentos da Penitenciária de Tupi Paulista, a 663 quilômetros da capital. Trata-se da única do Estado onde os presos não pertencem a nenhuma das facções que dominam os presídios paulistas.

Por serem neutros, os detentos de Tupi Paulista não são aceitos pelas facções dominantes dos outros presídios, restando a eles permanecer em Tupi e manter um comportamento que não obrigue os diretores do presídio a transferi-los para outras unidades. Por isso, os detentos de Tupi não fazem motins e não aderem a rebeliões, não ameaçam agentes e, conseqüentemente, colaboram para que a tranqüilidade permaneça no presídio.

A calma é tanta que, enquanto em outros presídios os detentos são vigiados por homens armados, em Tupi eles podem trabalhar do lado de fora do presídio, quase na estrada que margeia a unidade. Na tarde desta segunda-feira, enquanto a reportagem tentava obter autorização para entrar, três detentos depositavam o lixo da prisão num cômodo do lado de fora da penitenciária. Apenas dois agentes fiscalizavam o serviço, ambos sem armas.

"Aqui é tudo paz, sem facções", disse Milton Alexandre Basílio, que cumpre pena em Tupi depois de ter passado pelas unidades de Franco da Rocha, Itirapina, Hortolândia e Araraquara, dominadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). "O que a gente quer é cumprir nossa pena, sem confusões", emendou seu colega Francisco Rodrigues, transferido da Penitenciária 1 de Presidente Venceslau. "O único problema aqui são as execuções (das penas), que ainda não chegaram", acrescentou Sidney Alves.

Os três detentos são da capital e dizem não se importar muito com a distância dos familiares. "O que importa para eles (familiares) é saber que estamos bem, sem correr risco de morrer nessas rebeliões", disse Rodrigues.

Os agentes dizem que o clima é de respeito entre as partes, ao contrário do que ocorre em outras unidades. "Tenho colegas que reclamam disso. Eu mesmo já trabalhei em outras unidades antes, mas aqui é menos estressante", contou um agente que não quis ser identificado.

Risco de morte em caso de transferência

"Se eles forem mandados para outros presídios, terão de ficar no seguro, correndo risco de morrer", disse um diretor da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP). Ele explicou que o presídio foi formado por detentos que corriam risco em outras cadeias, por não pertencerem às facções dominantes ou por terem cometido algum tipo de crime cuja punição, na lei dos detentos, é a morte, como estupro e crimes contra familiares.

Mas a maioria dos 876 detentos de Tupi Paulista é composta mesmo por presos que não pertenciam às facções e, por isso, corriam risco de morrer nos presídios.

O presídio foi aberto em 13 de dezembro de 2005, depois que os adolescentes da Febem foram levados de volta para a capital. "Aqui, o próprio detento se freia nas atitudes, pois sabe que se tiver algum problema não há lugar para onde possa ser mandado, então ele colabora com o clima de respeito", contou um agente de Tupi. Segundo ele, as execuções demoram porque ainda são feitas na capital, mas deverão ser transferidas para a corregedoria de Tupi.

Triagem

A SAP toma cuidados - como analisar a folha corrida do detento - para evitar a entrada de presos de facções, que tentam ser transferidos para Tupi Paulista na tentativa de ampliar seu domínio. "Já tivemos casos de um líder do PCC que tentou vir pra cá para dominar o presídio", contou um agente.

Outra medida tomada pela direção do presídio é evitar reuniões com grupos de presos. "Lá o atendimento é individual", informou o diretor da SAP. Apesar da calma, dos cuidados e da longa distância (16 km) que separam o presídio da cidade, os moradores de Tupi Paulista ainda não se acostumaram. "Antes desse presídio a gente dormia com a porta aberta e deixava o carro destrancado, agora a gente tem medo dessas rebeliões", contou o caminhoneiro Oliveiro Faria, 44.
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