Sexta-feira, 18 de Março de 2005, 19:21 | Online

Tolerância zero para brigas no estádio

Em reunião na sede da FPF, policias, Federação e Ministério Público se comprometeram a agir para garantir de vez a segurança nos estádios de futebol.

Está em marcha uma força-tarefa jamais vista entre os principais órgão públicos de São Paulo para combater a violência nos estádios de futebol, dentro e fora de campo.

Numa reunião inédita, nesta sexta-feira, na sede da Federação Paulista de Futebol (FPF), representantes das principais policias da Capital, como o 2.º Batalhão de Choque, Polícia Civil, Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) e Ministério Público, comprometeram-se em deixar o diálogo de lado e agir com mãos-de-ferro em prol da organização do futebol.

O pontapé inicial será dado no clássico de domingo entre Palmeiras e Corinthians, no Morumbi. O estádio do São Paulo é tido atualmente pela PM como um dos mais problemáticos em termos de segurança, sobretudo em suas imediações, pela falta de estrutura oferecida ao torcedor comum, como estacionamento e transporte público.

O subprefeito do Butantã, Marcos Antônio de Albuquerque, presente na reunião da FPF, promete recrutar funcionários de outras regiões da cidade para fiscalizar a venda de bebidas alcoólicas em todas as barracas do Morumbi. "Tudo será apreendido", diz. "E seguiremos com essa fiscalização em outros estádios e jogos até que o vendedor ambulante deixe de negociar as bebidas."

Um dos motivos que levaram a subprefeitura do Butantã a tomar tal decisão é o índice de reclamação de roubo de casas e danificação de carros em garagens registrado na região em dias de jogos.

A FFP também não quer esperar para colocar a mão na massa. O presidente Marco Polo del Nero demonstrou falta de paciência, ou de esperança, com o que vem sendo feito em relação às tentativas de inibir as brigas entre torcedores. Quer acabar com as arruaças nas imediações dos estádios. "O torcedor agora irá conversar diretamente com a polícia", disse.

Para o clássico Palmeiras e Corinthians, a Federação contratará monitores para fazer com que o torcedor se sente exatamente no lugar determinado no ingresso.

A decisão provocou polêmica. O tenente-coronel Marcos Marinho, do 2º Batalhão de Choque, repudiou a iniciativa. "Sinceramente, presidente, acho que isso não funcionará. Enquanto não educarmos o público e oferecermos a ele condições para isso, não temos como obrigá-lo a ficar em seu lugar. Precisaríamos de mais de 1.000 monitores e mesmo assim não teríamos sucesso", disse.

Marco Polo del Nero rebateu. "Então vamos começar a educá-los desde já. Quem tiver comportamento inaceitável será preso. Por isso contamos com a colaboração da Polícia Militar", insistiu.

Divergências - A FFP e o Choque não se entenderam em determinados momentos da reunião. O tenente-coronel Marinho, que perdeu a paciência com o futebol após a briga entre torcedores palmeirenses da Mancha Verde e da TUP, pediu o fim de todas as barracas nas imediações do Morumbi e num raio de dois quilômetros do estádio.

Marco Polo del Nero deu a idéia de voltar com a venda de cerveja dentro do campo, como era no passado, contrariando o que pensa o coronel Marinho e o que quer o subprefeito do Butantã. "Os clubes perdem receita com a proibição das vendas e o camelô ganha na porta do estádio. É uma afronta", disse Del Nero.

A divergência de opiniões será resolvida nos próximos encontros. É certo, no entanto, que o torcedor de futebol terá tolerância zero a partir de agora se descumprir as determinações impostas nas leis.

O coronel Marcos Marinho informou ainda que o governo federal passou a se envolver com o assunto após a criação da Comissão Nacional de Segurança em Estádios, vinculada ao Ministério dos Esportes. "Só a integração dos segmentos será capaz de resolver os problemas. Temos a obrigação de pôr as soluções em prática."

Discussões desse tipo já foram feitas na FPF, mas nunca com o comprometimento e envolvimento dos principais órgãos públicos de São Paulo. Parece que existe no ar a certeza de que a hora é essa para dar um basta nos problemas envolvendo torcedores de futebol nos estádios. As polícias também não querem mais papo com torcedores arruaceiros. A política da tolerância zero está deflagrada. E já começará domingo, no clássico.

André Luiz Di Rissio, representante da Polícia Civil do Estado na reunião desta sexta, foi taxativo em seu apelo. "O torcedor tem medo apenas de uma coisa: cadeia. Então temos de começar a prendê-lo. Como? Pelo caminho legal, o inquérito policial. Vamos investigar e prender. Todos vão agora para a cadeia", prometeu.

A idéia é fichar os ‘bagunceiros’ e começar a prendê-los, sobretudo os reincidentes. "Vamos acabar com essa bagunça ou ela vai acabar com o poder constituído."

Organizadas - O delegado Antônio Mestre Júnior, do DHPP, tem a missão de investigar todas as torcidas organizadas de São Paulo, começando com a Mancha e a TUP. "Todas serão passadas a limpo e tomaremos a providencia processual cabível. Estamos atrás de interesses escusos dessas facções. Queremos saber se existe nelas bandos ou quadrilhas", disse. "E só Deus sabe o que vamos encontrar."

O subprefeito do Butantã, Marcos Albuquerque, pediu ainda um maior envolvimento dos clubes, sobretudo do São Paulo, para melhorar as condições do torcedor nas imediações do Morumbi. Sabe-se, por exemplo, que desde fevereiro a região do estádio, que é Zona Z-1, permite a construção de estacionamentos, o que não há. "Fizemos ainda uma vistoria nos terrenos baldios e vamos começar a multar os proprietários que não construírem muros ou colocarem portões", disse. "Vamos trabalhar com a PM intensamente na região."
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