Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2001, 22:41 | Online
O seqüestro que fez a imprensa brasileira brilhar no exterior, 40 anos atrás
Há 40 anos, no dia 30 de janeiro de 1961, o jornal O Estado de S. Paulo dava um furo mundial: conseguia colocar o jornalista Miguel Urbano Rodrigues e o fotógrafo Antônio Lúcio a bordo do "Santa Maria". O navio português, seqüestrado por um grupo anti-salazarista (contra o ditador Oliveira Salazar), estava escondido na costa brasileira, fugido da ditadura portuguesa. Este foi o primeiro furo internacional realizado por brasileiros, e que rendeu um Prêmio Esso ao fotógrafo Antônio Lúcio, meu pai.
O navio tinha "sumido" perto de Curaçau, no do dia 23, seqüestrado por Henrique Galvão e seus homens. A princÃpio a Marinha norte-americana acreditava que os rebeldes teriam ido para a Ãfrica. Quando os militares norte-americanos divulgaram ter avistado o navio Santa Maria no Atlântico, perto da costa de Recife, a imprensa de todas as partes do mundo mandou seus repórteres para a capital de Pernambuco. Foram dias tensos. A Marinha norte-americana rondando nossa costa, sem presidentes - Jânio Quadros acabara de ser eleito, seria empossado no dia 31 de janeiro -, numa época na qual as telecomunicações eram precárias e os meios mais rápidos eram o rádio e o telégrafo, mesmo os interurbanos eram demoradÃssimos.
Era final de janeiro, pleno verão em Recife, quando os repórteres chegaram armados com suas pesadas máquinas fotográficas, canetas e blocos. Lúcio e Miguel eram apenas mais dois deles, que chegaram no dia 29, para participar da corrida em busca do luxuoso transatlântico Santa Maria. Quem encontrasse primeiro o navio voltaria vitorioso para casa. A dupla tentou alugar um avião, nada; um barco, nada.
Mas Lúcio, que adorava passar suas férias caçando e pescando no Pantanal, Goiás e imediações, tinha o dom de conseguir se entrosar em todos os tipos de rodas. E foi conversando com os pescadores no porto, no fim de tarde, pagando cachaça, que foi assuntando sobre o navio. Desafiava-os, dizendo que nenhum deles seria capaz de encontrar o navio, que deveria estar debaixo do nariz deles. Finalmente, um deles topou, ele sabia onde o navio estava. Só faltava agora Lúcio "convencê-lo". Era o mestre Oscar Arthur. Sem alarde, combinaram a saÃda para à s 23 horas.
Confusão no cais
Nesse meio tempo, o correspondente do jornal em Recife, Morais Souza, fazia contato com Galvão pelo rádio para avisar que os dois jornalistas brasileiros embarcariam de noite para encontrá-lo no Santa Maria. O problema é que outros jornalistas estrangeiros descobriram a manobra brasileira e quase que o barco de mestre Arthur (o pesqueiro Saldanha da Gama) não sai.
Na hora marcada, os brasileiros se dirigiram para a embarcação. O mestre demorou a aparecer, começou a confusão de jornalistas querendo embarcar juntos. Jornalistas americanos chegaram a oferecer US$ 5 mil para "repartirem" o furo. Os brasileiros não deixaram. Mas o pior estava por
acontecer: quando o mestre chegou, já de madrugada, tinha mudado de idéia. Não queria mais levá-lo.
Calmamente, Lúcio, que sempre andava "maquinado", teve uma conversa final - de pescador mineiro para pescador pernambucano. "Você tem duas opções, ou nos leva até lá, ou nos leva até lá!!!". Na época este fato foi omitido, mas revelado para amigos e familiares. Como quem tem juÃzo sempre obedece - e o calibre impressionava -, o pescador levou os dois repórteres até o Santa Maria.
Os primeiros
SaÃram à s 3 da madrugada, do dia 30. Foram muitas horas de viagem até avistarem o Santa Maria à s 10 da manhã. Só que o navio começou a fugir do pesqueiro. Perderam a embarcação de vista. Começaram nova busca, quando ao meio-dia, finalmente, o encontraram. E conseguiram embarcar à s 14 horas, "sujos e estremunhados". O Santa Maria estava a 28 milhas da costa, na altura do paralelo 16.
Enquanto a dupla do Estadão embarcava no navio, um avião super-constellation da Marinha norte-americana sobrevoava o local. Os jornalistas foram recebidos com entusiasmo pelo ex-capitão Henrique Galvão (o seqüestrador), e deixaram que Urbano mandasse uma mensagem pelo rádio para a redação do jornal, em São Paulo. Que recebeu a notÃcia do primeiro furo brasileiro com muita festa.
A bordo, Galvão saudou os jornalistas brasileiros pelo feito e adiantou que apenas 14 homens participaram dos acontecimentos da manhã do dia 23 , quando o navio foi seqüestrado. A tripulação não reclamou de nada, disse, e os passageiros, só da falta de ar-condicionado, que havia quebrado em Caracas, antes da ação dos rebeldes. Os aviões norte-americanos sobrevoavam o navio dia e noite, e um destróier norte-americano se mantinha próximo.
"Vários passageiros aderiram o movimento de libertação. Os componentes do movimento usavam uniformes amarelos e boinas azuis com fitas verdes e vermelhas entrelaçadas. As armas são as mais variadas, desde garruchas e pistolas automáticas (antigas e modernas) a algumas metralhadoras... O navio atracará no porto do Recife, após a posse de Jânio, para desembarcar os passageiros", Urbano descrevia em sua matéria em O Estado de S. Paulo, publicada no dia 31 de janeiro de 1961.
Depois de muitas negociações, escoltado por três destróieres norte-americanos e uma corveta da armada brasileira, o Santa Maria atracou no porto do Recife no dia 2 de fevereiro, para desembarque dos passageiros. No dia 3, sem água ou combustÃvel, Galvão e seus homens entregaram o navio à s autoridades brasileiras. E o presidente Jânio Quadros concedia asilo polÃtico ao capitão Galvão e seus companheiros. Galvão ficou no Brasil e foi trabalhar no arquivo do jornal O Estado de S. Paulo, onde ficaria até a sua morte. Antônio Lúcio morreu em 29 de dezembro de 2000, vÃtima de um câncer de próstata, contra o qual lutava bravamente desde 1987.
Tudo pela democracia
Em 23 de janeiro, Galvão comandou o seqüestro do navio, com 871 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. O lÃder da oposição polÃtica portuguesa, o general Humberto Delgado, estava refugiado no Brasil. Ele, rapidamente, pediu aos governantes da França e da Inglaterra para não interferirem na ação, já que era um assunto estritamente português. Por outro lado, o governo português pediu socorro também para a Inglaterra e para os EUA. Mas de qualquer forma, o objetivo de Galvão foi alcançado: chamar a atenção mundial para os problemas polÃticos que assolavam Portugal, que os anti-salazaristas não eram poucos e que queriam a democracia. O próprio Galvão foi expulso do exército por não concordar com a ditadura imposta por Salazar, tornando-se assim o braço direito de Delgado, que tinha sido exilado.
Em 24 de janeiro, Galvão enviou seu primeiro recado, via rádio, para a NBC: "...Ocupei com forças meu comando, como primeira parte libertada do território nacional, o navio ´Santa Maria´, depois de breve combate pelas 1h45 da manhã. Tripulação aceitou fato consumado como ato polÃtico previsto no direito internacional marÃtimo e a maior parte dos passageiros considerarou entusiasticamente nosso ato... Passageiros e tripulantes pedem seja comunicado suas famÃlias estão bem e eu acrescento bem e livres. Não podemos revelar do nosso destino senão que abertas assim hostilidades contra governo tirânico Salazar procuramos atingi-lo. Objetivos polÃticos puramente democráticos portanto puramente antitotalitários contra todas as formas tirânicas governos povos. Pedimos não só apoio todos governos e povos verdadeiramente livres do mundo livre como também reconhecimento polÃtico esta parte libertada nosso território nacional presidida general Delgado, que povo português, por voto de maioria elegeu chefe de direito..."
No dia 26, Portugal mandou a PolÃcia Internacional de Defesa do Estado (Pide) para Santos (SP), onde embarcaram no navio Vera Cruz. Os investigadores estavam à paisana e misturaram-se aos 350 passageiros. Só que o navio ficou retido 26 horas no Rio de Janeiro. A Marinha Norte-americana mandou aviões para Belém (PA) para localizar o Santa Maria. No mesmo dia, a base naval americana em Trinidad informava que o avião Neptune tinha avistado o Santa Maria a cerca de 900 milhas de Trinidad, rumando para Ãfrica. Antes, ele teria sido avistado por um navio dinamarquês, "Vieke Gulka". Chegava na mesma ilha a única fragata britânica a participar desta perseguição, a Rothesay.
Além mar
Enquanto isso, em Portugal, a imprensa divulgava a versão de Salazar: "O que acaba de fazer o ex-português Henrique Galvão ultrapassa todas as marcas de uma traição a Portugal, porque é uma monstruosa traição a humanidade" (jornal Novidades); "Desde há séculos que estes mares das Antilhas têm sido valhacouto de ladrões do mar. ...E todo este sangue se alastra nas mãos de Henrique Galvão, agora capitão de piratas, flibusteiro sem lei, corsário traiçoeiro e criminoso, ladrão do mar" (jornal A Voz); "Um bando de criminosos chefiados pelo famigerado Henrique Galvão apoderou-se do paquete "Santa Maria" (Diário da Manhã), entre outros.
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O navio tinha "sumido" perto de Curaçau, no do dia 23, seqüestrado por Henrique Galvão e seus homens. A princÃpio a Marinha norte-americana acreditava que os rebeldes teriam ido para a Ãfrica. Quando os militares norte-americanos divulgaram ter avistado o navio Santa Maria no Atlântico, perto da costa de Recife, a imprensa de todas as partes do mundo mandou seus repórteres para a capital de Pernambuco. Foram dias tensos. A Marinha norte-americana rondando nossa costa, sem presidentes - Jânio Quadros acabara de ser eleito, seria empossado no dia 31 de janeiro -, numa época na qual as telecomunicações eram precárias e os meios mais rápidos eram o rádio e o telégrafo, mesmo os interurbanos eram demoradÃssimos.
Era final de janeiro, pleno verão em Recife, quando os repórteres chegaram armados com suas pesadas máquinas fotográficas, canetas e blocos. Lúcio e Miguel eram apenas mais dois deles, que chegaram no dia 29, para participar da corrida em busca do luxuoso transatlântico Santa Maria. Quem encontrasse primeiro o navio voltaria vitorioso para casa. A dupla tentou alugar um avião, nada; um barco, nada.
Mas Lúcio, que adorava passar suas férias caçando e pescando no Pantanal, Goiás e imediações, tinha o dom de conseguir se entrosar em todos os tipos de rodas. E foi conversando com os pescadores no porto, no fim de tarde, pagando cachaça, que foi assuntando sobre o navio. Desafiava-os, dizendo que nenhum deles seria capaz de encontrar o navio, que deveria estar debaixo do nariz deles. Finalmente, um deles topou, ele sabia onde o navio estava. Só faltava agora Lúcio "convencê-lo". Era o mestre Oscar Arthur. Sem alarde, combinaram a saÃda para à s 23 horas.
Confusão no cais
Nesse meio tempo, o correspondente do jornal em Recife, Morais Souza, fazia contato com Galvão pelo rádio para avisar que os dois jornalistas brasileiros embarcariam de noite para encontrá-lo no Santa Maria. O problema é que outros jornalistas estrangeiros descobriram a manobra brasileira e quase que o barco de mestre Arthur (o pesqueiro Saldanha da Gama) não sai.
Na hora marcada, os brasileiros se dirigiram para a embarcação. O mestre demorou a aparecer, começou a confusão de jornalistas querendo embarcar juntos. Jornalistas americanos chegaram a oferecer US$ 5 mil para "repartirem" o furo. Os brasileiros não deixaram. Mas o pior estava por
acontecer: quando o mestre chegou, já de madrugada, tinha mudado de idéia. Não queria mais levá-lo.
Calmamente, Lúcio, que sempre andava "maquinado", teve uma conversa final - de pescador mineiro para pescador pernambucano. "Você tem duas opções, ou nos leva até lá, ou nos leva até lá!!!". Na época este fato foi omitido, mas revelado para amigos e familiares. Como quem tem juÃzo sempre obedece - e o calibre impressionava -, o pescador levou os dois repórteres até o Santa Maria.
Os primeiros
SaÃram à s 3 da madrugada, do dia 30. Foram muitas horas de viagem até avistarem o Santa Maria à s 10 da manhã. Só que o navio começou a fugir do pesqueiro. Perderam a embarcação de vista. Começaram nova busca, quando ao meio-dia, finalmente, o encontraram. E conseguiram embarcar à s 14 horas, "sujos e estremunhados". O Santa Maria estava a 28 milhas da costa, na altura do paralelo 16.
Enquanto a dupla do Estadão embarcava no navio, um avião super-constellation da Marinha norte-americana sobrevoava o local. Os jornalistas foram recebidos com entusiasmo pelo ex-capitão Henrique Galvão (o seqüestrador), e deixaram que Urbano mandasse uma mensagem pelo rádio para a redação do jornal, em São Paulo. Que recebeu a notÃcia do primeiro furo brasileiro com muita festa.
A bordo, Galvão saudou os jornalistas brasileiros pelo feito e adiantou que apenas 14 homens participaram dos acontecimentos da manhã do dia 23 , quando o navio foi seqüestrado. A tripulação não reclamou de nada, disse, e os passageiros, só da falta de ar-condicionado, que havia quebrado em Caracas, antes da ação dos rebeldes. Os aviões norte-americanos sobrevoavam o navio dia e noite, e um destróier norte-americano se mantinha próximo.
"Vários passageiros aderiram o movimento de libertação. Os componentes do movimento usavam uniformes amarelos e boinas azuis com fitas verdes e vermelhas entrelaçadas. As armas são as mais variadas, desde garruchas e pistolas automáticas (antigas e modernas) a algumas metralhadoras... O navio atracará no porto do Recife, após a posse de Jânio, para desembarcar os passageiros", Urbano descrevia em sua matéria em O Estado de S. Paulo, publicada no dia 31 de janeiro de 1961.
Depois de muitas negociações, escoltado por três destróieres norte-americanos e uma corveta da armada brasileira, o Santa Maria atracou no porto do Recife no dia 2 de fevereiro, para desembarque dos passageiros. No dia 3, sem água ou combustÃvel, Galvão e seus homens entregaram o navio à s autoridades brasileiras. E o presidente Jânio Quadros concedia asilo polÃtico ao capitão Galvão e seus companheiros. Galvão ficou no Brasil e foi trabalhar no arquivo do jornal O Estado de S. Paulo, onde ficaria até a sua morte. Antônio Lúcio morreu em 29 de dezembro de 2000, vÃtima de um câncer de próstata, contra o qual lutava bravamente desde 1987.
Tudo pela democracia
Em 23 de janeiro, Galvão comandou o seqüestro do navio, com 871 pessoas a bordo, entre tripulação e passageiros. O lÃder da oposição polÃtica portuguesa, o general Humberto Delgado, estava refugiado no Brasil. Ele, rapidamente, pediu aos governantes da França e da Inglaterra para não interferirem na ação, já que era um assunto estritamente português. Por outro lado, o governo português pediu socorro também para a Inglaterra e para os EUA. Mas de qualquer forma, o objetivo de Galvão foi alcançado: chamar a atenção mundial para os problemas polÃticos que assolavam Portugal, que os anti-salazaristas não eram poucos e que queriam a democracia. O próprio Galvão foi expulso do exército por não concordar com a ditadura imposta por Salazar, tornando-se assim o braço direito de Delgado, que tinha sido exilado.
Em 24 de janeiro, Galvão enviou seu primeiro recado, via rádio, para a NBC: "...Ocupei com forças meu comando, como primeira parte libertada do território nacional, o navio ´Santa Maria´, depois de breve combate pelas 1h45 da manhã. Tripulação aceitou fato consumado como ato polÃtico previsto no direito internacional marÃtimo e a maior parte dos passageiros considerarou entusiasticamente nosso ato... Passageiros e tripulantes pedem seja comunicado suas famÃlias estão bem e eu acrescento bem e livres. Não podemos revelar do nosso destino senão que abertas assim hostilidades contra governo tirânico Salazar procuramos atingi-lo. Objetivos polÃticos puramente democráticos portanto puramente antitotalitários contra todas as formas tirânicas governos povos. Pedimos não só apoio todos governos e povos verdadeiramente livres do mundo livre como também reconhecimento polÃtico esta parte libertada nosso território nacional presidida general Delgado, que povo português, por voto de maioria elegeu chefe de direito..."
No dia 26, Portugal mandou a PolÃcia Internacional de Defesa do Estado (Pide) para Santos (SP), onde embarcaram no navio Vera Cruz. Os investigadores estavam à paisana e misturaram-se aos 350 passageiros. Só que o navio ficou retido 26 horas no Rio de Janeiro. A Marinha Norte-americana mandou aviões para Belém (PA) para localizar o Santa Maria. No mesmo dia, a base naval americana em Trinidad informava que o avião Neptune tinha avistado o Santa Maria a cerca de 900 milhas de Trinidad, rumando para Ãfrica. Antes, ele teria sido avistado por um navio dinamarquês, "Vieke Gulka". Chegava na mesma ilha a única fragata britânica a participar desta perseguição, a Rothesay.
Além mar
Enquanto isso, em Portugal, a imprensa divulgava a versão de Salazar: "O que acaba de fazer o ex-português Henrique Galvão ultrapassa todas as marcas de uma traição a Portugal, porque é uma monstruosa traição a humanidade" (jornal Novidades); "Desde há séculos que estes mares das Antilhas têm sido valhacouto de ladrões do mar. ...E todo este sangue se alastra nas mãos de Henrique Galvão, agora capitão de piratas, flibusteiro sem lei, corsário traiçoeiro e criminoso, ladrão do mar" (jornal A Voz); "Um bando de criminosos chefiados pelo famigerado Henrique Galvão apoderou-se do paquete "Santa Maria" (Diário da Manhã), entre outros.