Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2001, 21:58 | Online

FHC sobre o Canadá: "Se quiserem guerra, guerra é guerra"

O presidente Fernando Henrique Cardoso
admitiu nesta quinta-feira que o Brasil poderá entrar numa guerra comercial
com o Canadá. "Na paz, se negocia; no armistício, se espera; na
guerra, se briga. Depende do outro lado. Se quiserem o
armístício, como agora, vamos esperar para negociar. Se quiserem
paz, encantados. Se quiserem guerra, guerra é guerra", afirmou
o presidente.

Ele informou que a expectativa do governo brasileiro é de que
o problema seja resolvido em duas a três semanas. As afirmações
foram feitas ao Jornal Nacional, da tevê Globo.

Na entrevista, ele disse ainda que a disputa "é um mau
presságio" para a Aliança de Livre Comércio das Américas
(Alca). "A Alca é o oposto do que está sendo feito. É abertura
de mercado e não a utilização de barreiras quaisquer que sejam.
Um país que cresce, como o Brasil, se torna um país incômodo."

O presidente disse também que, na atual conjuntura, "não há
clima" para a participação do Brasil na reunião da Alca,
marcada para o final de abril, em Quebec (Canadá).

Essa foi a tônica desta quinta-feira, em que as autoridades
brasileiras fizeram ameaças a empresários canadenses do setor de
telecomunicações, pronunciaram frases de efeito e se
manifestaram na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em uma nota conjunta, seis ministros reafirmaram que a atitude
do Canadá "não encontra justificativa nos fatos e poderia ser
interpretada como vinculada a interesses comerciais daquele país,
o que seria inaceitável".

No principal lance do dia, representantes de empresas de
telecomunicações canadenses (Nortel, TIW e Bell Canada) foram
chamados para uma reunião com o ministro das Comunicações,
Pimenta da Veiga, e o secretário-executivo da Câmara de Comércio
Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca.

Os dois integrantes do governo informaram que, dependendo dos
desdobramentos da crise, essas empresas poderão ser
prejudicadas. "Temos inúmeras ações que podemos tomar, mas não
vamos anunciá-las agora", disse o ministro.

"Deixei claro a esses representantes que eles devem nos
informar se o Canadá é país de empresa única ou se tem outras
empresas, inclusive essas que estiveram aqui representadas. Se o
Canadá for apenas o país da Bombardier, significa que estas
empresas do setor de telecomunicações são empresas órfãs. Este
foi o conteúdo ou a razão do nosso encontro", disse Pimenta.

Pimenta e Giannetti ouviram o que queriam. O presidente da TIW
Gunnar Vikberg, manifestou-se contrário à decisão do governo
canadense. Embora ressaltasse que se tratava de uma posição da
TIW e de algumas empresas canadenses, o que não representava a
totalidade de investidores daquele País, Gunnar enfatizou que o
conglomerado (TIW) "não concorda com a posição do governo
canadense".

O secretário da Camex anunciou ainda que outras medidas
poderão ser adotadas. "Se chegar um contêiner canadense num
porto brasileiro, vamos fiscalizar até a cor do parafuso",
ameaçou. Ele esclareceu que nenhuma instrução será emitida nesse
sentido.

"Mas a sociedade brasileira está indignada, o presidente está
indignado, o funcionalismo está indignado", disse. Em outras
palavras, nada impede que funcionários brasileiros tenham má
vontade com tudo que seja relacionado com o Canadá, dentro dos
limites da lei. "Trataremos interesses canadenses da mesma
forma que os restaurantes de São Paulo estão fazendo", disse o
secretário.

Giannetti disse ainda que o setor privado e o governo
brasileiro poderão acionar o governo canadense, pedindo
reparação por perdas e danos. Ele informou estar recebendo
dezenas de telefonemas de frigoríficos que relatam dificuldades
nos negócios. "Desse jeito, vou ficar mais louco do que a
vaca", brincou.

O prejuízo, segundo explicou, não decorre da
suspensão das vendas ao Canadá, mas pelo efeito desta medida
sobre outros mercados.
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