Quarta-feira, 26 de Junho de 2002, 08:27 | Online

Worldcom manipula contabilidade e infla balanço

Uma das gigantes das telecomunicações e símbolo dos anos dourados da falecida "nova economia" dos anos 90, a WorldCom carrega uma dívida de US$ 27,9 bilhões.

A WorldCom, empresa norte-americana controladora da Embratel, manipulou sua contabilidade financeira e acrescentou um total de nada menos do que US$ 3,6 bilhões de receitas inexistentes a seu fluxo de caixa nos últimos cinco trimestres, segundo denúncia feita ontem pela rede de televisão a cabo CBNC. De acordo com o relato, que segundo a emissora baseia-se em informações prestadas por membros não identificados do conselho de diretores da própria empresa, o principal executivo financeiro da WorldCom, Scott Sullivan, inflou a receita bruta da companhia numa tentativa de esconder sua dramática situação financeira.

Uma das gigantes das telecomunicações e símbolo dos anos dourados da falecida "nova economia" dos anos 90, a WorldCom carrega uma dívida de US$ 27,9 bilhões. De acordo com a CBNC, Sullivan foi despedido no início da semana. Há dois meses, a empresa anunciou planos de vender US$ 2 bilhões em investimentos no exterior, incluindo a Embratel e a Avantel, do México, para diminuir sua dívida. As ações da empresa, que já despencavam no ano passado e estavam em US$ 15 em janeiro último, viraram pó depois da denúncia.

Tendo mergulhado abaixo de US$ 1 durante o dia e fechado a 83 centavos de dólar no Nasdaq, elas caíram para 36 centavos nas transações realizadas após o encerramento do pregão. "Isso é absolutamente errado", disse ontem Patrick Comack, analista da Guxman & Co., à agência Reuters, referindo-se ao fato denunciado pela TV. "É chocante, estonteante e, se for verdade, será difícil para eles evitar a falência".

Um porta-voz da Securities and Exchange Commission, a CVM americana, evitou fazer comentários sobre a denúncia. A WorldCom também manteve silêncio. Se a denúncia for confirmada, ela será mais uma de uma série e pode impedir qualquer tentativa de salvamento da empresa.

Renúncias

O fundador e ex-presidente da empresa, Bernard Ebbers, foi forçado a renunciar meses atrás depois que a SEC iniciou uma investigação sobre um empréstimo pessoal que ele obteve da própria WorldCom, no final do ano 2000, com a benção do "board" de diretores, para cobrir margens de investimentos especulativos que fez em ações da companhias quando o mercado estava em alta.

Um escândalo da magnitude do que foi denunciado pela CNBC agravará ainda mais a crise de confiança dos investidores no mercado acionário dos EUA alimentado pelas alarmante deterioração da governança corporativa de empresas americanas revelada pela espetacular quebra da Enron, no ano passado, e o subseqüente colapso da Arthur Andersen, a empresa que cuidava da auditoria da outrora fulgurante empresa energética texana. A Arthur Andersen teve a WorldCom entre suas clientes.

A lista de executivos de empresas dos setores de telecomunicações, energia e biotecnologia que foram forçados a renunciar, estão sob investigação ou foram indiciados por vários tipos de violação ou suspeita de violação de leis federais incluem Dennis Kozlowski, da Tyco Internacional; Samuel Waksal, da ImCone Systems; Kenneth Lay e Jeffrey Skilling, da Enron; Jospeh Bernardino, da Andersen Worldwide (holding da Arthur Andersen); John Rigas, da Adelphia Communications; William McCormick, da CMS Energy, e Charles Watson, da Dynergy. Sob pressão para deixar seus postos, por suspeitas semelhantes, estão Gary Winnick, da Global Crossing, Jospeh Macchio, da Qwest Communications, e Steve Letbetter, da Reliant Resources.

Demissões

A WorldCom informou na noite de ontem, em nota, que vai republicar seu resultado financeiro em 2001 e que demitirá 17 mil funcionários a partir de sexta-feira, como parte de um programa para reduzir em US$ 2 bilhões seus custos. A companhia confirmou também, após o fechamento dos mercados, que encerrou seu contrato com o diretor-financeiro, Scott Sullivan, e que aceitou a renúncia de David Myers, vice-presidente e controler.

A companhia disse que uma auditoria interna mostrou transferências incorretas de US$ 3,055 bilhões em 2001 e de US$ 797 milhões no primeiro trimestre de 2002. Segundo a empresa, a republicação do balanço da WorldCom deve reduzir o lucro para US$ 6,339 bilhões em 2001 e a US$ 1,368 bilhão no primeiro trimestre de 2002.

O desvio contábil pode levar as ações da WorldCom a serem retiradas do Nasdaq se o preço da ação permanecer abaixo de US$ 1,00. Ontem, fecharam em US$ 0,83 e, nesta amanhã, operavam a US$ 0,20, com queda de 75% no pré-mercado.
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