Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2003, 21:31 | Online
DesperdÃcio de água eleva gastos com a saúde
O levantamento foi realizado por um grupo de pesquisadores da UFRJ, que reuniu uma série de indicadores para mostrar como a ineficiência das empresas de saneamento provoca desperdÃcio, prejuÃzos financeiros e vários danos à saúde da população
O Brasil perde 46% da água coletada, um total de 5,8 bilhões de metros cúbicos por ano. A quantidade seria suficiente para abastecer França, SuÃça, Bélgica e norte da Itália juntos por igual perÃodo.
O levantamento foi realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que reuniu uma série de indicadores para mostrar como a ineficiência das empresas de saneamento provoca desperdÃcio, prejuÃzos financeiros e vários danos à saúde da população.
O desperdÃcio de água repercute de várias formas, segundo o estudo. Além do aumento dos cortes e desabastecimento em várias regiões, incluindo a periferia de São Paulo, eleva os gastos do governo com saúde. O estudo da Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) estima que 60% das internações nos hospitais públicos são de vÃtimas de doenças "de veiculação hÃdrica".
"PoderÃamos reduzir muito as doenças e a taxa de mortalidade infantil, além do dinheiro gasto com o tratamento desses problemas", diz Paulo Canedo, professor de recursos hÃdricos do curso de engenharia civil da Coppe e coordenador da pesquisa.
A perda de água no Brasil - por roubo, vazamentos e outros fatores - está bem acima da média de paÃses desenvolvidos e de vários em desenvolvimento. A Europa tem Ãndices de perda em torno de 10%. Alguns paÃses da Ãsia, como Cingapura, perdem 6%. Da bacia do Rio ParaÃba do Sul, o Rio é o que mais desperdiça: 55% do total produzido. São Paulo vem em seguida, com 41%.
Além disso, muitos brasileiros não têm acesso a água. São 40 milhões de pessoas que vivem em domicÃlios sem rede ou que contam com canos, mas a água não chega. "Não é aceitável que um PaÃs como o Brasil não tenha cobertura de 99% de água. Não há tolerância para esse tipo de Ãndice. Todos têm o direito de receber água em suas casas", avalia Canedo.
Para Canedo, as maiores responsáveis pela falta de cobertura total são as empresas de saneamento, que não têm interesse em ampliar a rede e não são forçadas a isso. O mesmo problema ocorre com a rede de esgoto - presente em 43% dos domicÃlios.
A questão é que não existem mecanismos para forçar as empresas a cumprir seus deveres e ampliar a rede. "E, além disso, o consumidor não pressiona como deveria. As pessoas precisam ficar mais indignadas por causa da falta de água ou a inexistência de sistemas de coleta de esgoto."
Não existem no Brasil órgãos ou agências
responsáveis por pressionar e incentivar a instalação de mais redes de esgoto. Apesar de ter projetos que prevêem novos sistemas de saneamento, a função da ANA é preservar as bacias. O Ministério do Planejamento tem alguns programas de incentivo a projetos de saneamento, mas ainda faltam mecanismos mais efetivos para aumentar as redes de água e esgoto.
"à um buraco negro. Não há órgão governamental responsável por punir quem esquece suas responsabilidades. E o consumidor brasileiro reclama pouco. Com isso, empresas e governos municipais e estaduais não são forçados a mudar", explica Canedo.
O estudo da Coppe é resultado da coleta de dados desde 1996 e reunidos no fim de 2002. Foi feito sob encomenda para a Agência Nacional de Ãguas (ANA), criada em 2000 com o objetivo de gerenciar os recursos hÃdricos do PaÃs. A ANA encomendou o estudo para avaliar a situação da bacia hidrográfica do Rio ParaÃba do Sul. Nela, o governo federal está fazendo o primeiro projeto-piloto de tentativa de conservação da bacia e uso racional da água, além de redução do esgoto despejado nos rios.
Localizada no Sudeste, entre São Paulo, Minas Gerais e Rio, a bacia está em uma das regiões mais desenvolvidas do PaÃs. Dependem dela 180 municÃpios e uma população de 5,25 milhões de habitantes. Faz parte do projeto-piloto o inÃcio da cobrança pela captação e uso da água. Todas as empresas usuárias da bacia começam este ano a pagar pela coleta.
A expectativa é de que a taxa fique em torno de R$ 0,02 por metro cúbico. A ANA calcula que sejam arrecadados R$ 15 milhões no primeiro ano de cobrança, recursos que poderão ser aplicados na despoluição do ParaÃba do Sul. "Esta é uma tentativa de forçar as empresas a racionalizar o uso desse recurso que, em todo o mundo, está cada vez mais escasso", explica Canedo.
O consumo de água per capita no Brasil dobrou nos últimos 20 anos e promete dobrar outras vez nas próximas duas décadas, levando a um cenário de escassez em várias regiões do PaÃs, segundo o deputado federal e ex-secretário de Recursos HÃdricos, Saneamento e Obras do Estado de São Paulo, Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP).
Ele é o autor de um projeto de lei que tornaria obrigatória para todos os estabelecimentos de serviço público no PaÃs - incluindo os do setor privado, como shoppings, hotéis e escolas - a instalação de mecanismos de controle do consumo de água, como torneiras automáticas e descargas sanitárias mais econômicas. O texto propõe uma diretriz nacional para o uso racional da água nesses estabelecimentos, onde o desperdÃcio costuma ser maior.
Como a competência sobre o uso dos recursos hÃdricos é municipal e não federal, os municÃpios que não incorporarem as normas "terão dificuldades para receber repasses do governo", propõe o deputado. O projeto deve entrar em tramitação na Câmara no mês que vem.
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O levantamento foi realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que reuniu uma série de indicadores para mostrar como a ineficiência das empresas de saneamento provoca desperdÃcio, prejuÃzos financeiros e vários danos à saúde da população.
O desperdÃcio de água repercute de várias formas, segundo o estudo. Além do aumento dos cortes e desabastecimento em várias regiões, incluindo a periferia de São Paulo, eleva os gastos do governo com saúde. O estudo da Coordenação de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) estima que 60% das internações nos hospitais públicos são de vÃtimas de doenças "de veiculação hÃdrica".
"PoderÃamos reduzir muito as doenças e a taxa de mortalidade infantil, além do dinheiro gasto com o tratamento desses problemas", diz Paulo Canedo, professor de recursos hÃdricos do curso de engenharia civil da Coppe e coordenador da pesquisa.
A perda de água no Brasil - por roubo, vazamentos e outros fatores - está bem acima da média de paÃses desenvolvidos e de vários em desenvolvimento. A Europa tem Ãndices de perda em torno de 10%. Alguns paÃses da Ãsia, como Cingapura, perdem 6%. Da bacia do Rio ParaÃba do Sul, o Rio é o que mais desperdiça: 55% do total produzido. São Paulo vem em seguida, com 41%.
Além disso, muitos brasileiros não têm acesso a água. São 40 milhões de pessoas que vivem em domicÃlios sem rede ou que contam com canos, mas a água não chega. "Não é aceitável que um PaÃs como o Brasil não tenha cobertura de 99% de água. Não há tolerância para esse tipo de Ãndice. Todos têm o direito de receber água em suas casas", avalia Canedo.
Para Canedo, as maiores responsáveis pela falta de cobertura total são as empresas de saneamento, que não têm interesse em ampliar a rede e não são forçadas a isso. O mesmo problema ocorre com a rede de esgoto - presente em 43% dos domicÃlios.
A questão é que não existem mecanismos para forçar as empresas a cumprir seus deveres e ampliar a rede. "E, além disso, o consumidor não pressiona como deveria. As pessoas precisam ficar mais indignadas por causa da falta de água ou a inexistência de sistemas de coleta de esgoto."
Não existem no Brasil órgãos ou agências
responsáveis por pressionar e incentivar a instalação de mais redes de esgoto. Apesar de ter projetos que prevêem novos sistemas de saneamento, a função da ANA é preservar as bacias. O Ministério do Planejamento tem alguns programas de incentivo a projetos de saneamento, mas ainda faltam mecanismos mais efetivos para aumentar as redes de água e esgoto.
"à um buraco negro. Não há órgão governamental responsável por punir quem esquece suas responsabilidades. E o consumidor brasileiro reclama pouco. Com isso, empresas e governos municipais e estaduais não são forçados a mudar", explica Canedo.
O estudo da Coppe é resultado da coleta de dados desde 1996 e reunidos no fim de 2002. Foi feito sob encomenda para a Agência Nacional de Ãguas (ANA), criada em 2000 com o objetivo de gerenciar os recursos hÃdricos do PaÃs. A ANA encomendou o estudo para avaliar a situação da bacia hidrográfica do Rio ParaÃba do Sul. Nela, o governo federal está fazendo o primeiro projeto-piloto de tentativa de conservação da bacia e uso racional da água, além de redução do esgoto despejado nos rios.
Localizada no Sudeste, entre São Paulo, Minas Gerais e Rio, a bacia está em uma das regiões mais desenvolvidas do PaÃs. Dependem dela 180 municÃpios e uma população de 5,25 milhões de habitantes. Faz parte do projeto-piloto o inÃcio da cobrança pela captação e uso da água. Todas as empresas usuárias da bacia começam este ano a pagar pela coleta.
A expectativa é de que a taxa fique em torno de R$ 0,02 por metro cúbico. A ANA calcula que sejam arrecadados R$ 15 milhões no primeiro ano de cobrança, recursos que poderão ser aplicados na despoluição do ParaÃba do Sul. "Esta é uma tentativa de forçar as empresas a racionalizar o uso desse recurso que, em todo o mundo, está cada vez mais escasso", explica Canedo.
O consumo de água per capita no Brasil dobrou nos últimos 20 anos e promete dobrar outras vez nas próximas duas décadas, levando a um cenário de escassez em várias regiões do PaÃs, segundo o deputado federal e ex-secretário de Recursos HÃdricos, Saneamento e Obras do Estado de São Paulo, Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP).
Ele é o autor de um projeto de lei que tornaria obrigatória para todos os estabelecimentos de serviço público no PaÃs - incluindo os do setor privado, como shoppings, hotéis e escolas - a instalação de mecanismos de controle do consumo de água, como torneiras automáticas e descargas sanitárias mais econômicas. O texto propõe uma diretriz nacional para o uso racional da água nesses estabelecimentos, onde o desperdÃcio costuma ser maior.
Como a competência sobre o uso dos recursos hÃdricos é municipal e não federal, os municÃpios que não incorporarem as normas "terão dificuldades para receber repasses do governo", propõe o deputado. O projeto deve entrar em tramitação na Câmara no mês que vem.