Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2003, 10:07 | Online
Construções ecológicas ficam mais acessÃveis
Soluções arquitetônicas racionais e materiais menos agressivos ao meio ambiente já estão disponÃveis no mercado brasileiro.
Construir com menos desperdÃcio, usando processos e materiais ambientalmente corretos já não é sinônimo de excentricidade. Novas técnicas, novos produtos e novos conceitos de arquitetura e engenharia estão disponÃveis no mercado brasileiro, para quem procura casas, edifÃcios ou escritórios mais adequados ao clima e à luz tropicais. E as opções ecológicas não são, necessariamente, as mais caras, sobretudo quando se consideram os custos de manutenção e uso, no cálculo da obra.
Nesta semana, no dia 14, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e AgrÃcola (Imaflora), inaugura sua nova sede, em Piracicaba, interior de São Paulo, com o propósito de demonstrar isso. Toda construÃda em madeira certificada  dos pilares de sustentação aos móveis e objetos de decoração  a casa foi projetada para garantir o máximo conforto térmico, sem precisar de ar condicionado ou ventilador, por exemplo. Uma abertura no teto assegura a saÃda do ar quente e a ventilação natural. E paredes duplas mantém o calor do lado de fora.
O desenho arquitetônico, de Lúcia Zanin Shimbo, ainda privilegia a luz solar, dispensando lâmpadas acesas durante o dia, sem recorrer a estruturas exóticas ou difÃceis de executar. ÂMas o principal é o processo de produção dos componentes construtivosÂ, explica Lúcia. ÂFizemos um planejamento preciso de todas as peças, com tamanhos e encaixes de cada uma, com grande redução na produção de resÃduos de madeira na obra e conseqüente aumento do aproveitamento de pedaços de madeira menores, na serraria, lá na floresta, ou na marcenariaÂ.
Projeto adaptado
O processo foi a tese de mestrado da arquiteta e de outros estudantes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que integram os grupos Habis, de pesquisa em habitação e sustentabilidade (sobretudo em construções populares), e GesQe, de estudos sobre a qualidade nas edificações. As fases de construção e decoração também receberam apoio de outras faculdades, como a USP São Carlos, PUC Poços de Caldas, FAAP e FAU/USP.
Diversas etapas da construção exigiram revisão do projeto arquitetônico, para adaptar as estruturas ao material disponÃvel, uma vez que boa parte da madeira veio das empresas certificadas pela Imaflora, como doação ou amostra. Foram usadas 8 espécies diferentes de árvores  eucalipto, pinus, jatobá, massaranduba, itaúba, agarapeira, sucupira e angelim  de 21 fornecedores diferentes, entre os quais estão os Ãndios Xicrin do Cateté (Pará) e a comunidade extrativista de Costa Marques (Rondônia).
ÂEm alguns casos tivemos de buscar soluções estruturais, no desenho arquitetônico, para suprir a falta de vigas de um determinado comprimento, o que terminou sendo uma oportunidade de demonstrar o que pode ser feito com economia de material, parecendo até um capricho de designÂ, acrescenta Lúcia.
Banheiro seco
Dentro do escritório, os banheiros são comuns, aos olhos do usuário. A diferença só é percebida quando se verifica que o revestimento está assentado sobre madeira e não alvenaria. Ali se usou um impermeabilizante de base vegetal, renovável e atóxico, para isolar a madeira da umidade e poder usar paredes de gesso para assentar os azulejos.
à na edÃcula, porém, que está a maior inovação, proposta pelo agrônomo Alexander Van Parys Piergili, da UFSCar. Numa adaptação inusitada à proibição de uso de fossa séptica, naquela faixa de terreno, foi feito um banheiro seco, Âsemelhante aos utilizados na Austrália, onde a água é considerada muito nobre para ser usada em descargasÂ, comenta Piergili, que conheceu banheiros semelhantes nos institutos de Permacultura de Goiás e Ubatuba (Ipec e Ipema).
O banheiro seco tem dois nÃveis. No térreo ficam a pia e o chuveiro e toda a água servida segue para um reservatório enterrado no chão, cercado por matéria orgânica, para onde a água segue por capilaridade, depois de um perÃodo de decantação. Assim, ao invés de ir para o esgoto ou fossa, esta água irriga as plantas do jardim. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por seis meses, depois é fechada, enquanto se usa a outra. O perÃodo é suficiente para transformar as fezes em adubo para plantas ornamentais.
ÂClaro que há uma barreira cultural aÃ, o brasileiro ainda está muito acostumado à abundância de água e estranha a idéia de um banheiro seco, acha que vai ficar cheirando malÂ, argumenta Lúcia. Mas ela acredita que o uso e a demonstração podem quebrar a resistência.
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Nesta semana, no dia 14, o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e AgrÃcola (Imaflora), inaugura sua nova sede, em Piracicaba, interior de São Paulo, com o propósito de demonstrar isso. Toda construÃda em madeira certificada  dos pilares de sustentação aos móveis e objetos de decoração  a casa foi projetada para garantir o máximo conforto térmico, sem precisar de ar condicionado ou ventilador, por exemplo. Uma abertura no teto assegura a saÃda do ar quente e a ventilação natural. E paredes duplas mantém o calor do lado de fora.
O desenho arquitetônico, de Lúcia Zanin Shimbo, ainda privilegia a luz solar, dispensando lâmpadas acesas durante o dia, sem recorrer a estruturas exóticas ou difÃceis de executar. ÂMas o principal é o processo de produção dos componentes construtivosÂ, explica Lúcia. ÂFizemos um planejamento preciso de todas as peças, com tamanhos e encaixes de cada uma, com grande redução na produção de resÃduos de madeira na obra e conseqüente aumento do aproveitamento de pedaços de madeira menores, na serraria, lá na floresta, ou na marcenariaÂ.
Projeto adaptado
O processo foi a tese de mestrado da arquiteta e de outros estudantes da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que integram os grupos Habis, de pesquisa em habitação e sustentabilidade (sobretudo em construções populares), e GesQe, de estudos sobre a qualidade nas edificações. As fases de construção e decoração também receberam apoio de outras faculdades, como a USP São Carlos, PUC Poços de Caldas, FAAP e FAU/USP.
Diversas etapas da construção exigiram revisão do projeto arquitetônico, para adaptar as estruturas ao material disponÃvel, uma vez que boa parte da madeira veio das empresas certificadas pela Imaflora, como doação ou amostra. Foram usadas 8 espécies diferentes de árvores  eucalipto, pinus, jatobá, massaranduba, itaúba, agarapeira, sucupira e angelim  de 21 fornecedores diferentes, entre os quais estão os Ãndios Xicrin do Cateté (Pará) e a comunidade extrativista de Costa Marques (Rondônia).
ÂEm alguns casos tivemos de buscar soluções estruturais, no desenho arquitetônico, para suprir a falta de vigas de um determinado comprimento, o que terminou sendo uma oportunidade de demonstrar o que pode ser feito com economia de material, parecendo até um capricho de designÂ, acrescenta Lúcia.
Banheiro seco
Dentro do escritório, os banheiros são comuns, aos olhos do usuário. A diferença só é percebida quando se verifica que o revestimento está assentado sobre madeira e não alvenaria. Ali se usou um impermeabilizante de base vegetal, renovável e atóxico, para isolar a madeira da umidade e poder usar paredes de gesso para assentar os azulejos.
à na edÃcula, porém, que está a maior inovação, proposta pelo agrônomo Alexander Van Parys Piergili, da UFSCar. Numa adaptação inusitada à proibição de uso de fossa séptica, naquela faixa de terreno, foi feito um banheiro seco, Âsemelhante aos utilizados na Austrália, onde a água é considerada muito nobre para ser usada em descargasÂ, comenta Piergili, que conheceu banheiros semelhantes nos institutos de Permacultura de Goiás e Ubatuba (Ipec e Ipema).
O banheiro seco tem dois nÃveis. No térreo ficam a pia e o chuveiro e toda a água servida segue para um reservatório enterrado no chão, cercado por matéria orgânica, para onde a água segue por capilaridade, depois de um perÃodo de decantação. Assim, ao invés de ir para o esgoto ou fossa, esta água irriga as plantas do jardim. No andar superior do banheiro seco ficam dois vasos sanitários, que terminam em câmaras de biodigestão. Cada uma é utilizada por seis meses, depois é fechada, enquanto se usa a outra. O perÃodo é suficiente para transformar as fezes em adubo para plantas ornamentais.
ÂClaro que há uma barreira cultural aÃ, o brasileiro ainda está muito acostumado à abundância de água e estranha a idéia de um banheiro seco, acha que vai ficar cheirando malÂ, argumenta Lúcia. Mas ela acredita que o uso e a demonstração podem quebrar a resistência.