Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007, 20:01 | Online

Amnésia também ataca a imaginação, mostra estudo

Os mesmos danos à região do cérebro chamada hipocampo que atrapalham a memória também afetam a capacidade de visualizar situações novas

Danos a uma região do cérebro, chamada hipocampo, que provocam perda de memória, não afetam apenas a capacidade dos pacientes de evocar episódios do passado, mas também os impedem de gerar imagens coerentes de eventos futuros ou fictícios, de acordo com um novo estudo. Danos ao hipocampo podem ser provocados por falta de oxigênio no cérebro e por diversas doenças, como o mal de Alzheimer.

A pesquisa, executada por uma equipe de instituições do Reino Unido, foi realizada pedindo-se a cinco pacientes e dez voluntários saudáveis ("controles") que criassem cenas mentais baseadas em sugestões dos cientistas.

Enquanto um controle reagiu à sugestão "Imagine-se deitado numa praia de areias brancas, num belo dia tropical", descrevendo detalhes que incluíam até mesmo a temperatura da areia, casas na ponta da praia e o costão de pedras ao longe, um dos pacientes com amnésia declarou: "Não consigo ver nada, apenas o céu".

Atendendo a outra sugestão, pedindo que se imaginasse numa visita ao museu, um dos pacientes com amnésia primeiro descreveu portas altas de madeira e, pouco depois, disse: "Não estou vendo nada neste momento".

Esta perda da capacidade de imaginar não parece ligada à perda de conteúdo da memória: mesmo quando recebiam estímulos imediatos - como sons, fotos e odores ligados à situação que deveriam imaginar - os pacientes amnésicos não conseguiram melhorar seu desempenho. Além disso, a principal responsável pelo estudo, Eleanor Maguire, afirma que o teste foi projetado para "minimizar o impacto das diferenças individuais em capacidade criativa" dos participantes sobre o resultado.

O artigo que descreve o trabalho destaca que o principal problema enfrentado pelos pacientes amnésicos parece ser o de dar coerência às imagens, unindo-as numa cena única, que pudesse ser apresentada de forma integral ao "olho da mente": ao avaliar suas experiências na tentativa de imaginar cenas novas, diversos pacientes citaram a fragmentação das imagens como "uma dificuldade relevante" e que também é "pertinente aos problemas de memória em geral".

"Acreditamos que as descobertas sugerem um mecanismo comum que poderia estar na base de como evocamos memórias reais e como visualizamos experiências futuras e imaginárias", diz Maguire. Segundo ela, esse mecanismo, baseado no hipocampo, "pode dar o pano de fundo ou contexto espacial" em que os detalhes das experiências se organizam de modo coerente.

A pesquisa está publicada na edição desta semana do periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
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