quinta-feira, 9 de outubro de 2008, 18:54 | Online

Paulo Coelho pede que ministro da Cultura devolva convite

Escritor se irrita com Juca Ferreira, que cancelou ida à homenagem que será feita a ele na Feira de Frankfurt

Edmundo Leite - estadao.com.br

SÃO PAULO - O cancelamento da participação do ministro da Cultura, Juca Ferreira, em jantar de homenagem a Paulo Coelho na Feira do Livro de Frankfurt, na próxima semana, irritou o escritor brasileiro.

 

Em uma carta enviada à imprensa que alterna tons de ironia e de indignação intitulada "A deselegância do Ministro da Cultura", Paulo Coelho, que comemora na feira alemã a marca de 100 milhões de livros vendidos no mundo, diz que "já não me interessa mais sua presença e de seus convidados. Quero apenas que me devolva o convite; será entregue ao primeiro mendigo ou desempregado que passar na porta. Pelo menos, ele se divertirá um pouco."

 

Segundo o escritor, Juca Ferreira telefonou para ele explicando que precisaria cancelar a viagem, que já estaria confirmada, mas depois falou em "remanejar a sua agenda" após ver a reação de espanto de Coelho. O motivo alegado pelo ministro, segundo relata o escritor na carta, seria um encontro com outros ministros da Cultura realizado na mesma época. Na carta, Paulo Coelho - após escrever que pesquisou em ministérios da Cultura e não encontrou "absolutamente nada" a respeito do encontro - cobra do ministro que diga onde será realizado.

 

A assessora de imprensa do ministro, Nanan Catalão, negou em entrevista por telefone ao estadao.com.br que a presença do ministro estivesse confirmada. Segundo ela, o que havia era uma "previsão de agenda" e que o ministro será representado na feira alemã por seu interino, Alfredo Manezy. O compromisso do ministro no dia 16, diz Nanan, é a 1.ª reunião de ministros da Cultura da América Latina para uma política comum para afrodescendentes, em Cartagena, na Colômbia (leia a nota oficial do ministério).

 

Na mensagem enviada por e-mail à redação do estadao.com.br, Paulo Coelho anexou uma mensagem do cônsul-geral do Brasil em Frankfurt, Cézar Augusto de Souza Lima Amaral, confirmando a presença do ministro em vários eventos da feira, entre eles a "festa do escritor Paulo Coelho, no dia 15".   A mensagem mostra também a programação de um jantar, na noite seguinte, na residência do Brasil em homenagem ao Ministro da Cultura e a imagem de um convite endereçado a Paulo Coelho e esposa para esse evento.

 

Reprodução

 

Em duas passagens da carta, Coelho cita o antecessor de Juca Ferreira na pasta, Gilberto Gil, dizendo que o artista estará presente na festa na condição de seu amigo. Coelho acusa o atual ministro de "completa e absoluta falta de respeito comigo, com meus editores nacionais e internacionais, com a Feira de Frankfurt - já que sua presença tinha sido anunciada - e com os meus leitores."

 

Após citar uma história de Jesus no Novo Testamento, o escritor termina a carta com o pedido: "Juca Ferreira, meu convite de volta, por favor."

 

Leia a íntegra da carta de Paulo Coelho:

 

A deselegância do Ministro da Cultura

 

por Paulo Coelho

 

No mês de março de 2008, quando minhas editoras no mundo inteiro resolveram dar uma festa comemorando cem milhões de exemplares vendidos, enviei um convite ao então Ministro da Cultura, Gilberto Gil. Uma festa dessas, além de ser um marco simbólico para o escritor, representa também uma oportunidade única para um Ministro entrar em contato com mais de cem profissionais da área, e aproximadamente 300 jornalistas do mundo inteiro. Posteriormente entrei em contato com o Presidente Lula que, muito gentilmente, e com bastante antecedência, explicou que estaria na mesma ocasião recebendo um prêmio na Espanha.

 

Gilberto Gil deixou o Ministério, sendo substituído por Juca Ferreira, que também confirmou sua presença. Duas semanas atrás recebemos um comunicado da Embaixada do Brasil na Alemanha, com a programação oficial do ministro. Ontem eu jantava com um jornalista brasileiro, quando o ministro me telefonou. Para minha surpresa, disse que precisava cancelar sua presença em virtude de um encontro com outros ministros da cultura que seria realizado na mesma época. Ao ver minha reação de espanto, disse que "tentaria remanejar sua agenda".

 

Não estou aqui para duvidar da palavra de um ministro do governo. Entendo que esses encontros são normalmente organizados com muita antecedência; hoje mesmo procurei informações a respeito com pessoas ligadas a Ministérios da Cultura em outros países, e não encontrei absolutamente nada. Como confio no meu país, e um ministro é responsável pelo que diz, ele deverá dizer onde este encontro terá lugar, porque já sabemos quando - dia 15 de outubro.

 

O que entendo, isso sim, é a completa e absoluta falta de respeito comigo, com meus editores nacionais e internacionais, com a Feira de Frankfurt - já que sua presença tinha sido anunciada - e com os meus leitores.

 

Isso em nada muda minhas atividades durante o maior evento literário do planeta. Continuarei abrindo a Feira de Frankfurt, como escritor convidado, junto com o Presidente da Feira e o Presidente do Estado de Hessen. Continuarei com a minha festa - que contará também com a presença de Gilberto Gil, mas já condição de amigo. Continuarei recebendo, durante a festa, o diploma oficial do Livro Guinness de Recordes, como o escritor vivo mais traduzido do mundo. Continuarei recebendo no prêmio de Cinema pela Paz, durante o evento, por causa de um projeto realizado junto com meus leitores.

 

Para a comunidade literária internacional, a ausência do ministro da cultura do Brasil passará completamente despercebida. O que lamento é não poder, mais uma vez, tentar ajudar a literatura brasileira colocando o ministério da Cultura em contato com dezenas de editores que podiam, pelo menos, se interessar por algum dos excelentes autores que temos em nosso país. Lamento que jornalistas do mundo inteiro não tenham acesso ao que o ministro teria a dizer.

 

No Novo Testamento, Jesus conta a parábola de alguém que convida seus conhecidos para um banquete, e todos estão ocupados; quando o servo volta, o dono da casa pede então que convide os mendigos, os desempregados. Portanto, não quero que o ministro mude sua agenda - já não me interessa mais sua presença e de seus convidados. Quero apenas que me devolva o convite; será entregue ao primeiro mendigo ou desempregado que passar na porta. Pelo menos, ele se divertirá um pouco. E eu me esforçarei o máximo para mostrar a todos - como aliás sempre faço em eventos - que a literatura brasileira vai muito além do meu trabalho. Sem a ajuda ou colaboração de um ministro deselegante, que cinco dias antes da festa, depois de seus assessores e da embaixada brasileira confirmarem sua presença emvários emails, descobre que tem outro compromisso na sua agenda.

 

Juca Ferreira, meu convite de volta, por favor.

 

Reprodução de mensagem:

 

Nota da redação: Texto alterado às 22h28 para acréscimo de informações.


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