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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008, 17:32 | Online

Confira trechos de poemas de Vinicius de Moraes

Da Redação

SÃO PAULO - Poemas Esparsos apresenta faces menos óbvias do poeta Vinicius de Moraes, como a surrealista e a experimental. O livro, que será lançado no Rio (na quinta-feira, 4, às 19h30, no Instituto Moreira Sales, tel. 21-3284-7400) e em São Paulo (na sexta, às 19h30, no Sesc Paulista, tel. 3179-3700), reúne trabalhos inéditos em livro (19), recolhidos em edições póstumas (36) e restritos ao Antologia Poética (14), livro de 1954. Entre os inéditos estão Sob o Trópico do Câncer e Ode ao Octontenário de Manuel Bandeira - mais uma vez fica clara a influência bandeiriana. O livro traz ainda textos de Fernando Sabino, Drummond, Ferreira Gullar e Caetano Veloso sobre o poeta. Confira trechos abaixo:

 

Ode ao Octontenário de Manuel Bandeira

Paizinho:

(Ovalle chamava-te Paizinho...)

Quandos os ponteiros do relógio se acertarem

(...)

Eu já estarei no mar, talvez nas costas da Bahia

E pensarei profundamente em ti, Poeta

Máximo.

 

 

Sob o Trópico do Câncer

"O câncer é a tristeza das células."

Jayme Ovalle

I

Sai, Câncer!

Desaparece, parte, sai do mundo

Volta à galáxia onde fermentam

Os íncubos da vida, de que és

A forma inversa. Vai, foge do mundo

Monstruosa tarântula, hediondo

caranguejo incolor, fétida anêmona

Sai, Câncer!

Furbo anão de unhas sujas e roídas

Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo

Que empesteias as brancas madrugadas

Com teu suave cheiro de necrose

 

 

Alexandra, a Caçadora

Que Alexandre, o Grande é grande

Todos sabemos de cor

Mas nunca como Alexandra

Porque Alexandra é a maior!

Olhem bem o nome: rima

Com força locomotriz

 

Pode subir serra acima

Pode voar a Paris.

(...)

Vai, caçadorinha, caça

A vida com as tuas setas

E caça o tempo que passa

No olhar triste dos poetas.

 

 

O Menestrel de nosso tempo*

Por Fernando Sabino

"Trinta anos de convivência! Um dia desses marcamos um encontro. Escolhemos um bar pouco freqüentado, onde pudéssemos conversar calmamente. E de súbito, solenizados diante de nosso uísque, em silêncio até ali, nos olhamos e começamos a rir: engraçado esse nosso encontro para conversar. Conversar o quê? Já não conversamos tudo? Pois então vamos embora, não é isso mesmo? E começamos a rir como dois idiotas, sem perceber que estávamos exercendo o simples ritual da amizade além das palavras."

*Texto publicado no Jorna do Brasil, dia 7 de maio de 1973.

 

 

Vinicius: o caminho do poeta*

Por Ferreira Gullar

"Muita gente vê na adesão de Vinicius à música popular um abandono de sua carreira de poeta. Mas essa é uma visão equivocada. Na verdade, trata-se de um desdobramento natural de sua experiência, que vem do metafísico ao cotidiano, do erudito ao popular. É um processo de redescoberta de si mesmo e de exploração permanente de suas potencialidades expressivas que o conduz à música. E é também um processo de desmistificação da poesia, como temática e como forma."

*Texto publicado no Jornal da Tarde, no dia 12 de julho de 1980.

 

 

Eu sou Vinicius de Moraes*

Por Caetano Veloso

"A palavra pureza tem uma freqüência alta na poesia e nas letras de música de Vinicius, como tinha até na sua conversa. E, no entanto, depois da aprovação do cinema falado, que não foi tão difícil, e sobretudo com a adesão à música popular, à nossa cultura nascida da senzala, ele passou a fazer uma grande exibição de não temer a impureza, qualquer uma. O Vinicius se encharcou de toda a impureza. Há até canções em que ele realmente beira a mera vulgaridade. E ele não se incomodava com isso, porque era puro, porque sabia que podia fazê-lo permanecendo puro. Esse entregar-se puramente às impurezas é a pureza última, é a pureza máxima."

*Depoimento inédito (edição de Eucanaã Ferraz e Francisco Bosco, com base na entrevista integral concedida por Caetano Veloso ao cineasta Miguel Faria Jr., em 2005, para o filme Vinicius, do mesmo diretor)

 

 


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