Música

quarta-feira, 8 de agosto de 2007, 18:12 | Online

Roberta Sá decola feliz no segundo álbum

Desde a revelação com 'A Vizinha do Lado' (Dorival Caymmi), cresce o interesse em torno de sua voz notável

Lauro Lisboa Garcia, do Estadão

Marcos DPaula/AE

Roberta Sá

Marcos DPaula/AE

SÃO PAULO - Roberta Sá faz coro a uma certa parcela mais sensata dos adultos brasileiros, que sente na pele como está difícil ser feliz (sem culpa) hoje em dia. "Ninguém dá mais bom dia", observa a cantora. Nem por isso ela deixa de ter bom humor. Esta é a essência de seu segundo e ótimo álbum, Que Belo Estranho Dia pra Ter Alegria (Universal), que terá shows de lançamento no Tom Jazz, sexta e sábado da semana que vem.  O CD é uma resposta elegante e sensata a isso tudo que a aflige no cotidiano e mais um pouco, com música da melhor safra - com melodias, letras e arranjos que soam como bálsamo, e, principalmente, a voz cristalina que a tudo emoldura.

 

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Desde a revelação com A Vizinha do Lado (Dorival Caymmi), que fez sucesso como trilha de personagem de novela e puxou o primeiro álbum, Braseiro (2004), tem crescido o interesse em torno da musicalidade e da notável voz de Roberta. Nesse meio tempo ela gravou um outro álbum (que não foi comercializado) recriando clássicos da música brasileira, por encomenda de uma empresa, ao lado de Rodrigo Campello, produtor do trabalho atual.

 

De lá, ela pinçou Samba de um Minuto (Rodrigo Maranhão), que aparece como faixa bônus do novo CD, seguida de Girando na Renda (Pedro Luís, Sérgio Paes e Flávio Guimarães), que teve boa repercussão no Festival da Cultura de 2005. Como são músicas que viraram hits nos shows, ela diz que o correto seria colocá-las não como bônus, mas com a indicação: atendendo a pedidos. Até porque são tão boas como as 11 primeiras.

 

Passo além

 

Samba de Um Minuto poderia ter entrado no primeiro CD, mas apesar dos pedidos Roberta preferiu deixar de lado, porque era uma canção do repertório da cantora carioca Rita de Cássia, que morreu no ano passado. Achei melhor não gravar porque a música era do último disco da Rita, então deixei de lado por respeito à grande cantora que ela era. E é, porque a voz dela continua aí, diz Roberta.

 

Que Belo Estranho Dia... dá continuidade ao que Roberta revelou no CD de estréia, mas dá um passo além. O principal é que, naturalmente, ela ressurge com mais vivência musical e mais convivência com os músicos que estão no disco. E com outros com quem ela convive na Lapa, no centro do Rio, e o mundo do samba que ali fervilha. Esse universo é todo muito novo pra mim, pelo menos o universo profissional da música. O passo mais importante que dei agora foi ter conhecido esse universo melhor, diz a cantora.

 

Roberta canta alguns dos melhores compositores contemporâneos de seu círculo de relações ou recém-escobertos - Pedro Luís, Moreno Veloso, Junio Barreto, Lula Queiroga, Edu Krieger, Rodrigo Maranhão, Roque Ferreira -; atualiza um clássico do repertório de Dóris Monteiro (Alô Fevereiro, de Sidney Miller), homenageia Linda Batista com o samba brejeiro Interessa? (Carvalhinho) e joga luz numa jóia escondida de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, Cansei de Esperar Você. São várias faces do samba de um disco que abre com um jongo, O Pedido (Junio Barreto e Jam da Silva) com leves toques de reggae.

 

Humor e leveza

 

A idéia principal deste CD era o bom humor e a leveza. Sem deixar de tratar de assuntos como o que tem em Fogo e Gasolina, Samba de Amor e Ódio. São visões bem-humoradas da loucura em que a gente vive, diz a cantora. É um disco leve, mas não é alienado. A espinha dorsal do álbum é Belo Estranho Dia de Amanhã, cujo título foi extraído de um verso dessa canção de Lula Queiroga. Com maestria, o compositor pernambucano faz uso de referências modernas, sem forçar a barra para parecer antenado com a juventude, como já se viu, por exemplo, em letras de Gilberto Gil (Pela Internet e a recente Banda Larga) e outros que abusam da expressão ponto com. Lula é de uma inteligência admirável, elogia a cantora.

 

Claro, não foi por acaso que Roberta tirou o título do CD dali. Basta conferir a letra no quadro ao lado pra se ter uma idéia. Acho muito difícil ser feliz hoje em dia. Tenho discutido muito isso. Está todo mundo com uma culpa enorme de ser feliz. Porque, realmente não dá, se você abre um jornal ou liga a televisão, só o que se vê é desgraça. E muito por culpa do ser humano, não são só catástrofes naturais, mas até essas têm o dedo do ser humano, por causa do jeito que se trata o planeta, observa. Não querendo ser panfletária, porque não sou mesmo, mas é só uma observação de uma pessoa que vive nesse mundo.

 

A letra de Lula fala muito disso, das conseqüências das crises e dessas manias contemporâneas que comprometem as relações humanas. A gente tem muito acesso à informação o tempo inteiro e isso é muito desgastante. Acho que as pessoas têm de parar um pouco de reclamar da situação do mundo e fazer alguma coisa pra mudar no dia-a-dia. Ser mais cordial, por exemplo, no trânsito, na rua, no prédio, com seu vizinho. Isso já adianta. A outra maneira de ver a vida é essa, não se alienando.

 

Voltando para a música... O CD tem convidados de peso, como Hamilton de Holanda, que toca em duas faixas e numa delas (Novo Amor, de Edu Krieger) seu bandolim é o único instrumento que acompanha a voz da cantora. Essa faixa entrou no disco exclusivamente por causa dele, para homenagear o talento dele, para mostrar o virtuose que ele é, diz a cantora. 

 

Estréia compositora

 

Ela também estréia com compositora, embora não se considere como tal. Roberta é autora da melodia de Janeiros, que tem letra de Pedro Luís. Eram muitas canções para escolher, e se esta teve o privilégio de entrar no CD é porque, sem modéstia, ela considerou digna de figurar ao lado de um Roque Ferreira, de quem gravou a inédita Laranjeira, um sacudido samba de roda. O grande compositor baiano, que até agora tem apenas um disco gravado, mas mais de 200 inéditas, é um dos prediletos de Roberta. Quando entrei em contato com ele pedindo uma música, ele me mandou umas 30. Depois mandou mais um monte. Estou com várias músicas dele. Isso acontece com poucos compositores, porque não são todos que têm essa disposição, diz.

 

Um dos planos de Roberta é fazer um CD só com músicas inéditas de Roque, mais adiante. Seria um projeto paralelo, com o Trio Madeira Brasil. A legião de fãs do Roque aqui no Rio somos nós, brinca a cantora. Com ele Roberta estabeleceu uma sintonia maior, como a que tem com Pedro Luís. Quando peço uma música para eles, gosto de deixá-los livres. Não quero que escrevam especialmente pra mim, o que me interessa é gravar uma música deles, qualquer que seja. Dependendo do compositor você pode pedir isso, por mais que as músicas deles sejam diferentes.

 

Cantora já vira referência

 

Com Que Belo Estranho Dia pra se Ter Alegria, Roberta Sá deixa de ser a grande promessa que sugeria com Braseiro (2004), para se tornar uma referência contemporânea de aptidão e autonomia musicais. É com naturalidade que ela esquadrinha diversas classes de ritmos brasileiros - samba, frevo, bossa, jongo, marcha-rancho - sem apego ao convencional, o que não significa que faz mau uso do legado cultural desses gêneros.

 

Alô Fevereiro (Sidney Miller) é um bom exemplo. Começa como um samba puxando para o maxixe, depois dá uma virada para o funk, mesclando as programações eletrônicas de Marcos Suzano e os scratches de Jovi Joviano (dois percussionistas), com as cordas de Rodrigo Campello e o sax e a flauta de Eduardo  leves, estruturados e executados à maneira típica dos antigos regionais de samba-choro. Na marcha-rancho Novo Amor (Edu Krieger), dolente como uma Quarta-Feira de Cinzas, Roberta só conta com o bandolim sinuoso de Hamilton de Holanda, que por si só já faz um carnaval. Fogo e Gasolina (Pedro Luís e Carlos  Rennó) também traz referência carnavalesca na forma de frevo big beat.

 

Apesar de, modestamente, dizer que ainda está aprendendo a ser mais profissional, Roberta já tinha revelado maturidade na escolha do repertório de Braseiro - o que é um grande passo para um plano de vôo mais  seguro. Pisando firme no caminho aberto pelo primeiro álbum, ela mantém a coerência na seleção de canções e confere maior credibilidade ao ganhar a confiança de músicos como os ótimos Zé da Velha e Silvério Pontes (que tocam, respectivamente, trombone e trompete em Interessa?), Hamilton de Holanda, Lenine, Carlos Malta e seu Pife Muderno, além de Pedro Luís.

 

Outro aspecto a salientar é a força das letras, como a bossa de Lula Queiroga, que, impregnada de poesia romântica, agulha com categoria certas manias contemporâneas. E as duas da dupla Pedro/Rennó, que além de Fogo e Gasolina, inflamam Samba de Amor e Ódio, com versos como "nem há amor que, sem que uma hora o ódio venha/ Bendito ódio, o ódio que mantém/ A intensidade do amor, seu ardor..."

 

A vocação de sambista de Roberta, em grande evidência no CD, une gerações e inverte (pré)conceitos, buscando referências tanto na escola exemplar de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, como na roda baiana de Roque Ferreira, Moreno Veloso e Quito Ribeiro. Além da Bahia, as relações com o Nordeste (de onde ela veio para o Rio com 9 anos) estão em diversos autores migrantes como ela, como O Pedido, de Junio Barreto e Jam da Silva, que abre o CD; o Samba de um Minuto, de Rodrigo Maranhão, que assinala a procedência no sobrenome; o frevo enviesado (Fogo e Gasolina) do carioca Pedro Luís, com letra do paulista Carlos Rennó e dueto vocal com Lenine, natural de Pernambuco. E outras mais.

 

Por falta de outras unidades de medida, há quem ainda compare Roberta a Marisa Monte. O válido nisso é que elas guardam semelhança na capacidade de juntar-se aos fortes e ao buscar, por exemplo, o que ninguém lembra, o menos óbvio do passado. Estão aí os sambas de Miller, Carvalhinho, Dona Ivone e Délcio. O belo samba-reggae Mais Alguém (de Moreno e Quito) não destoaria de um disco de Marisa. Como diz Roberta, mordaz, na letra de Interessa?, essa sorte não é para todas, mas para poucas.

 


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