Cinema
quarta-feira, 28 de novembro de 2007, 18:01 | Online
Festival de Brasília mostra qualidade do cinema nacional
Seleção de longas-metragens será lembrada como marca registrada desta 40ª edição do festival
Luiz Zanin Oricchio

Pode-se contestar, talvez, a acumulação de prêmios no vencedor. Mas como negar que a melhor trilha era mesmo a de Guilherme Vaz e a melhor fotografia, a de Walter Carvalho? Som e direção de arte também? Sim, talvez, mas não obrigatoriamente. E, por certo, não era necessário conceder o prêmio de atriz a Alessandra Negrini. Ignorar o talento jovem de Rosanne Mulholland, presente em dois concorrentes, Meu Mundo em Perigo e Falsa Loura, foi o maior equívoco do júri.
Por sorte, a ousadia feroz de Meu Mundo em Perigo foi reconhecida em duas categorias (ator coadjuvante e ator) e ganhou também o prêmio da crítica - o que equilibrou um pouco as coisas. Já o grande injustiçado desta edição foi sem dúvida Falsa Loura, de Carlão Reichenbach, e não apenas porque a protagonista, Rosanne Mulholland, viu-se esquecida. Elegante depois da premiação, um Reichenbach entristecido dizia que o filme de Bressane não merecia vaias, mas discordava da decisão quanto à melhor atriz. E será que ninguém no júri percebeu a força poética do trabalho de Carlão, talvez um tanto marcado por arestas - mas, afinal, não é esse o próprio estilo do diretor?
Outro fator de equilíbrio da premiação, também externo ao júri oficial, foi o prêmio de público para Chega de Saudade. Somado aos dois troféus em categorias fortes - roteiro e direção - dá premiação consistente a esse filme popular mas nunca popularesco. É, aliás, exemplo de como uma obra pode manter a qualidade artística sem perder contato com o público mais amplo.
Cleópatra e Chega de Saudade são duas vertentes do moderno cinema brasileiro. Um é assumidamente para poucos. O outro se deseja expressão do seu criador, mas não se recusa ao jogo do mercado. Foi boa decisão Brasília ter contemplado essas duas facetas da mesma moeda. E também parece natural que, acolhendo as duas, o júri tenha se inclinado pelo que via de mais radicalmente autoral, afinal, esta é a marca registrada de Brasília.
Também nesse sentido foi a premiação de Anabazys, o rigoroso e belo documentário de Paloma Rocha e Joel Pizzini sobre Glauber Rocha e seu último filme, o polêmico Terra em Transe. Um Prêmio Especial do Júri e o troféu de montagem fizeram jus a esse trabalho que, entre outras virtudes, tem também a de, sem ser didático, aproximar a obra de Glauber de um público um pouco mais amplo.
Mesmo o único concorrente que nada ganhou - Amigos de Risco, de Daniel Bandeira - não comprometeu o nível da seleção. É um ótimo primeiro longa, irregular, como em geral são as estréias, mas mostra criatividade e força. Mesmo em seus erros.
Conclusão: a fórmula de Brasília mais uma vez deu certo. Poucos concorrentes, inéditos e selecionados a dedo. No mundo da acumulação, Brasília faz sua opção minimalista e concentrada. Em conversa com o Estado, o diretor do festival, Fernando Adolfo, disse que pretende manter sem alterações o desenho do evento, apesar das pressões em contrário. Quais pressões? A de produtores e diretores, que gostam de fazer o turismo dos festivais e não se conformam com a exigência de ineditismo, e de quem entende que Brasília deve se abrir às obras digitais. "Digital só daqui a uns dez anos, e olhe lá...", diz Adolfo.
Deve ser dito também que a excelência encontrada na seleção de longas não se repetiu na de curtas em 35 mm. Com exceção do vencedor Trópico das Cabras e de Eu Sou Assim - Wilson Batista, de Luiz Guimarães de Castro, do rigor um tanto tedioso de Décimo Segundo, de Leonardo Lacca, e do humor negro meio desigual de O Presidente dos Estados Unidos, de Camilo Cavalcanti, pouco mais se viu no Cine Brasília. É pouco para um formato que já forneceu alguns dos melhores resultados do cinema brasileiro contemporâneo. Há que se apurar a curadoria nesse setor.
O repórter viajou a convite da organização do festival
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