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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007, 21:36 | Online
Brasília, uma fantasia carnavalesca de Niemeyer
Uma linguagem revolucionária, em nome da revalorização do corpo humano, seu erotismo, sua imaginação
Eduardo Subirats

Naqueles mesmos anos, e pouco depois de realizar o conjunto arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, Oscar Niemeyer formulava basicamente o mesmo projeto de transformação civilizatória através de uma arquitetura que se apresentava expressamente como superação do funcionalismo e do racionalismo europeus, de seu dogmatismo cartesiano e seu monótono ascetismo, ou seja, o que em última instância denominou a mediocridade terminal do Movimento Moderno. E criou uma linguagem arquitetônica revolucionária, em nome de uma revalorização do corpo humano, seu erotismo e sua imaginação: "uma arquitetura feita todo de sonho e fantasia, de curvas e grandes espaços livres de elementos supérfluos ..." Uma nova idade acabava de começar.
A expressão mais eloqüente deste espírito novo é, sem sombra de dúvida, Brasília. Seu "Plano Piloto" não só compreendia sua avenida monumental marcada pelo interminável desfile uniformizado e monótono de ministérios prismáticos, construídos à la Corbusier. Nem terminava nos ícones arcaicos do poder e da morte, em sua pirâmide e sua cúpula, sua antena-obelisco ou seu mausoléu, inspirados nos modelos classicistas das capitais imperiais da Europa e dos Estados Unidos. Brasília é mais que isso. É uma expressão do funcionalismo nascido dos ateliês expressionistas alemães e da Bauhaus, e do cartesianismo lecorbuseriano, adaptados à amplitude geográfica e aos imperativos administrativos da expansão colonial do industrialismo moderno.
Todavia, é também algo mais. É a combinação deste funcionalismo colonial com os ritmos sensuais e místicos da bossa nova, das expressões religiosas e artísticas africanas da Bahia e do Rio, da pureza formal que distinguem os espaços arquitetônicos e o design das culturas amazônicas pré-coloniais, e da plasticidade do samba. Lúcio Costa insistia, nos últimos anos de sua vida, que Brasília era uma "cidade romântica". É uma fantasia carnavalesca, uma quimera de vidro e concreto, uma cidade de sonhos. Onde um dia a política se encontrou com a poesia, debaixo do clamor popular de uma festa nacional democrática.
Eduardo Subirats é professor da New York University,é autor, entre outros, de 'A Penúltima Visão do Paraíso' (Studio Nobel)
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