Primos

Estadão

18 Outubro 2010 | 13h13

“A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna o testemunho de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais de sua época”. Assim Antonio Candido começa o belo prefácio, escrito em 1967, para Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
Entre aqueles que se julgavam tão “diferentes uns dos outros”, na década de 30, estavam não só os oriundos dos diversos matizes da esquerda, mas os integralistas. Levou trinta anos para que A.C. pudesse ver que os últimos não eram movidos apenas por uma “resistência reacionária”, mas por um “interesse fecundo pelas coisas brasileiras”, semelhante ao dos leitores de Sérgio Buarque, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior.

Acredito que estamos vivendo, ultimamente, um fenômeno curioso, inverso ao comentado por Antonio Candido. Muitos dos que entraram na vida adulta e na política juntos ou próximos, na década de 60, lutando contra a ditadura, defendendo ideias semelhantes e vislumbrando um futuro muito parecido para o país, ao olhar em volta, hoje, crêem-se tão diferentes entre si como socialistas e integralistas, na década de 30. Falo do PT e do PSDB. Serra e Dilma.

Por mais que tentem nos convencer que sim, PT e PSDB não representam visões de mundo opostas, como, por exemplo, os Democratas e os Republicanos, nos EUA. Os republicanos mais radicais são pelo corte de impostos, o desmantelo do Estado de bem-estar social, pregam a abstinência sexual como política estatal contra DSTs e, a bem da verdade, nunca engoliram esse negócio de os negros terem saído dos assentos reservados, nos ônibus e restaurantes. Obama, por outro lado, implementou a reforma no Health Care, orquestrou a ajuda estatal para salvar a economia da crise, fumou maconha (e tragou), na juventude. PSOE e PP, na Espanha, são filhos e netos dos franquistas e republicanos que estiveram, literalmente, em lados opostos das trincheiras. Assim é no Chile, em Portugal e em muitos outros países em que esquerda e direita são herdeiras das lutas sangrentas do século XX – os ódios, portanto, se alimentam das cicatrizes deixadas pela extrema violência do século passado.

Agora, PT e PSDB?! Podem não ser irmãos, mas são primos. As mães estudaram na mesma classe, na Maria Antonia. O pai de um fez uma pós na Sorbonne, o do outro foi metalúrgico em São Bernardo, mas ambos deram as mãos nas passeatas pelas Diretas e, se não me engano, tomaram uns tragos juntos, na casa de um amigo em comum, em setenta e nove. Se tocar Violeta Parra ou Alegria, Alegria, num diretório tucano ou petista, você vai ver muito marmanjo com os olhos mareados.


Esses dois partidos tão semelhantes, que agora se digladiam, tentando provar quem é mais horroroso, serão lembrados como a geração que começou a resolver os problemas abissais do Brasil. FHC estabilizou a economia. Começou o choque de capitalismo que Mario Covas dizia ser necessário. Criou alguns tímidos programas sociais. Lula, com um presidente do BC vindo do PSDB, lidou com a economia nos mesmos termos e conseguiu, centralizando e aprofundando radicalmente os programas sociais, tirar dezenas de milhões de pessoas da pobreza. Se o PSDB tivesse ganho em 2002, teria havido essa revolução? Provavelmente, não. Mas se o PSDB não tivesse governado entre 1994 e 2002, a revolução certamente não teria sido possível. O exitoso programa brasileiro de combate à AIDS, que dá remédio de graça aos soropositivos, começou na prefeitura do PT, em Santos, e foi catapultado para o país todo pelo PSDB. Foi sob o ministro Paulo Renato Souza que, pela primeira vez na história desse país, todas as crianças foram para a escola. A escola ainda é ruim, mas sob Fernando Haddad, as avaliações foram aprofundadas, agora sabe-se onde estão os problemas e – embora mais lentamente do que gostaríamos – medidas estão sendo tomadas para melhorar o ensino.

Arautos do apocalipse, que me enviam e-mails dizendo que a democracia e as instituições estão indo pro brejo, deveriam ler o caderno especial sobre os desafios do próximo presidente, publicado em 27/09, neste jornal. Mais especificamente, a entrevista com o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ao ler o caderno, fica claro que não vivemos uma era de trevas, como o clima em torno da campanha presidencial muitas vezes nos leva a crer, mas um momento ensolarado do nosso país. Se não conseguimos ver o céu azul, é porque esses dois partidos, primos, dão as costas um para o outro e, para promover avanços, associam-se ao que há de pior na política brasileira, fazendo com que os empolgantes “nunca antes” andem lado a lado com os deprimentes “tudo igual, como sempre”.

Cabe a nós, brasileiros, a sabedoria e a serenidade para perceber que as trovoadas que estamos ouvindo são fruto de pancadas isoladas comuns nestes períodos de instabilidade eleitoral. Em primeiro de janeiro de 2011, aconteça o que acontecer, estará o verão, não o dilúvio.