Rodízio

Estadão

16 Novembro 2010 | 19h14

Nem a Biblioteca de Alexandria nem o acelerador de Hádrons, as pontes estaiadas ou as viagens à lua, o transplante de coração ou a Nona Sinfonia de Beethoven: o ápice da civilização é uma churrascaria rodízio.

Das savanas africanas até a plaquetinha verde/vermelho, foi uma longa caminhada. Durante o trajeto, nós pastamos bastante e comemos o pão que o diabo amassou. Alguns companheiros foram atropelados por mamutes ou viraram comida de leão, bateram os queixos e as botas em invernos sem fim ou voltaram ao pó do qual vieram em desertos escaldantes. Tivemos que cruzar o Bojador, passar além da dor, atravessar o estreito de Bering e remar da polinésia ao Chile, em barcaças de palha; foi preciso inventar a matemática e a irrigação, entender o movimento dos astros e o comportamento da matéria, mas ora, vejam só – “o senhor aceita uma picanha argentina?” – vencemos! Dominamos a natureza – “sim, mal passada, por favor” – e a churrascaria rodízio nada mais é, meus amigos, que a festa de comemoração de nosso triunfo – “Mais uma fatia, por favor. Obrigado”.

Alguém já disse que os jardins eram a vingança do homem contra a selva. O canteiro seria a floresta subjugada. A planta no vaso, um souvenir do passado adverso, como um pedaço do muro de Berlim, um cartucho da Segunda Guerra. Ora, se o jardim é um índice de nossa vitória, o que falar dos bufês de salada das churrascarias? As folhas de alface, rúcula e agrião, o tomate, a cenoura e os rabanetes, todos ali, fresquinhos e com gotículas de água, a provocar nossas papilas gustativas e tripudiar do passado não muito distante em que éramos a presa assustada na garganta da floresta: chuuuuupa, natureza ingrata! Em breve a ti voltaremos, seremos os minerais absorvidos por suas raízes, mas nesse ínterim, aqui estamos, topo da pirâmide alimentar, bípedes mamíferos, córtex cerebral evoluído e polegar opositor, colorindo com seus despojos o branco de nossos pratos.

Nós nos esquecemos, porque a amnésia parece ser uma das características marcantes da nossa espécie, mas a maior parte do tempo que passamos sobre a Terra, o passamos batalhando miseravelmente por comida. Começamos como mendigos, colhendo apenas as esmolas dos galhos das árvores, esperando que um raio caísse dos céus na cabeça de um quadrúpede para que comêssemos carne assada. Deveríamos, toda vez que entramos numa churrascaria rodízio, fazer um minuto de silêncio em homenagem aos supracitados camaradas que ficaram pelo caminho diante de perrengues glaciais, animais, virais, etecétera e tais. Acho que tínhamos até que construir estátuas para o Coletor Desconhecido e o Caçador Anônimo que nos precederam – Remos e Rômulos de nosso império gastronômico.


Fomos moldados na escassez. A adversidade é a mãe da evolução – o gene mutante é o pai – mas agora, vejam só, “o senhor aceita uma linguicinha?”, “picanha nobre?”, “maminha na manteiga?”, “pintado na brasa?”, quebramos a banca, meu parceiro de espécie, e o bufê de massas, sem as carnes, sai por vinte e nove e noventa e nove. Amém!

Se um marciano pousasse por aqui e nos pedisse um resumo do que andamos fazendo nos últimos milhões de anos, não o levaria ao Louvre, mas a uma dessas churrascarias da Rebouças. Veja só, amigo alienígena: a ciência moveu montanhas para arrancar da terra os minerais de que são feitos nossos talheres, conhecimentos de três mil anos são aplicados na cerâmica dos pratos, o vidro, que os Fenícios inventaram e venderam por todo o Mediterrâneo, contem o sal, a pimenta, o azeite e o vinagre. Está vendo esse salmão, meu caro ET? Faz vinte anos, era artigo de luxo, prato principal em casamento chique: agora está aí, plebeu, sobre a cama de gelo picado, entre o salpicão e as ervilhas. Esse ao lado dele é o tomate seco. Também já teve seus dias de glória, desfilou por salões e bocas selecionadas. Agora aguarda, paciente, por um ou outro comensal saudoso, como uma rapariga decadente.

Há quem veja os rodízios com profundo horror. Vegetarianos, ecologistas, puristas em geral. Acusam-no se ser a ponta da cadeia corrosiva da pecuária, fonte de veneno para nossas veias, suruba estética onde tocam-se sushis e calabresas. Talvez tenham razão. Talvez as churrascarias sejam mesmo fruto do demônio – o que só reforça minha convicção: são elas, não Shakespeare ou a turbina de um Boeing, o ápice de nossa civilização. “Cupim? Fraldinha? Paleta de cordeiro uruguaio?”. Por favor, meu caro. E aquela banana a milanesa, sai ou não sai?