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danielpiza

01 Agosto 2010 | 07h37

Baptistão

Ouvi uma vez de um experiente jornalista cultural, quando falávamos sobre críticos de arte que admiro, a pergunta: “Para que ler a crítica? Não basta olhar para o quadro?” Na sabedoria dos 21 anos, respondi: “E quem disse que conseguimos ver tudo que um grande quadro tem?” Ver é um ato muito mais complexo, um exercício muito mais refinado, do que nossas noções de natureza humana dão a entender. Três livros recentes defendem agudamente o mesmo argumento:

Arte como Experiência, de John Dewey (Martins, tradução Vera Ribeiro) – Por incrível que pareça, esse clássico de 1934 estava ausente das livrarias brasileiras, e a ótima tradução que se publica agora pode servir para afastar muitos outros anacronismos da cultura local. O americano Dewey é conhecido como filósofo do pragmatismo, mas este termo hoje está tão gasto que foi parar até no futebol, com o sentido errôneo de burocrático, competitivo, mecânico. Nesse livro esboça uma filosofia da estética que defende quase sempre o contrário: defende a arte como uma experiência singular, que transcende oposições e exalta a imaginação como a reação natural do homem aos desafios da natureza. Dewey é totalmente adverso à noção da arte como objeto útil, muito menos como passatempo; seu olhar pragmático se concentra no modo como ela pode nos tornar mais conscientes da riqueza do que vivenciamos – não mais felizes, porém mais perspicazes.

Isso significa, em lugares como o Brasil, fazer oposição clara aos valores dominantes sobre o que é gosto, crítica e racionalidade. Dewey diz que a subjetividade é inerente à arte e que, pelo mesmo motivo, por meio da técnica e da mediação de uma linguagem, ela se torna também uma objetividade, algo sobre o qual podemos partilhar sensações e reflexões. Expressar uma experiência é qualificá-la; logo, é também exercer com ela a inteligência, um esforço elaborado de comunicação. A arte, diz Dewey, depende da “completa interpenetração” entre o sensorial e o intelectual. Cada um tem seu gosto, mas por isso mesmo ele se discute. O artista não cria apenas por inspiração ou intuição; é um experimentador, alguém que testa “meios e materiais que pertencem ao mundo comum” para se expressar, ou seja, um ser pensante, não um médium ou primitivo. A separação entre corpo e mente é fundada no medo de viver.

Dewey também ataca os que confundem crítica e sociologia – corrente comum no Brasil, onde Machado de Assis foi convertido em “crítico da elite” – por não verem que a arte ocupa um lugar especial, ambíguo, irredutível a categorias e dicotomias, o que em si mesmo a justifica. E a crítica, sempre vista – inclusive por ela mesma – como estraga-prazer na cultura brasileira? “A função da crítica é reeducar a percepção das obras de arte; ela é um auxiliar no processo – um difícil processo – de aprender a ver e a ouvir. (…) É eliminar o preconceito, retirar os antolhos que impedem os olhos de ver, rasgar os véus decorrentes do hábito e do costume, aprimorar a capacidade de perceber.” Ou seja, quem acha que o crítico deve ser apenas um divulgador ou contemplador das obras de arte, em vez de emitir opiniões e avaliações, é quem acha que vê tudo.

Embora tenha quase 600 páginas, o livro de Dewey, um tanto repetitivo talvez porque tenha se originado de uma série de conferências em Harvard em 1931, não aprofunda aquilo que mais preza: “Qualquer psicologia que isole o ser humano do meio ambiente também o isola, a não ser por contatos externos, de seus semelhantes.” O artista se comunica não porque esse seja seu maior objetivo, mas porque suas experiências também foram moldadas pelas experiências “dos vivos e mortos”, porque derivam da “natureza que ele compartilha com os outros”. Os outros nos habitam, e isso antes de mais nada porque somos seres biológicos. Em outra passagem, Dewey lembra que a percepção não é estática como os objetos, que sugerem a ela “uma série cumulativa de interações”, já que o olho produz um efeito contínuo que por sua vez “evoca outro ato de visão”. Mas isso é tudo que fala sobre a fisiologia da percepção. Além disso, deixa por definir palavras como “unidade” e “íntegra” no campo da estética (para um pragmático, dá bem poucos exemplos), como se toda experiência artística projetasse uma completude, uma totalidade. Não, na maioria das vezes ela é uma reação à ilusão de que podemos conciliar todas as diferenças; é universal ao recusar o universal. A obra de Dewey, porém, é um marco e quem sabe o debate brasileiro agora chegue a 1934.

The Vision Revolution, de Mark Changizi (BenBella Books) – O objetivo de Changizi é exatamente examinar a fisiologia da visão humana para entender a complexidade de seus mecanismos. Ele é um americano que estuda ciência da cognição e, ao contrário de Dewey, desfruta de oito décadas de experimentos e teorias que levaram a Teoria da Evolução de Darwin para todos os campos do conhecimento, contando com a ajuda de tecnologias de imagem e descobertas da neurologia. Seu livro é pretensioso, tanto que já anuncia no subtítulo que muda tudo que se sabia sobre a visão, e descreve o que chama de quatro “superpoderes” do olho, exagerando no tom juvenil. Mas tem contribuições reais para o entendimento da percepção visual, que segundo ele consome nada menos que 50% das atividades cerebrais no cotidiano.

Para quem ainda não se deu conta de como a visão humana é sofisticada em comparação com a dos outros animais, ou com qualquer lente produzida pelo engenho humano, esse livro é indispensável. Os quatro poderes que Changizi estuda são: ver em cores, ter os olhos virados para a frente, captar as coisas em movimento e ler. Segundo ele, a capacidade de distinguir cores, graças aos cones e bastonetes, nos deu a vantagem adaptativa de perceber estados emocionais alheios, o que significa que aprimorou uma ferramenta que nos distingue na natureza: a empatia, a capacidade de imitar e compreender os gestos e reações dos outros humanos. Dewey certamente admiraria a hipótese.

Já os olhos postados na frente da cabeça, embora restrinjam nosso campo de visão, nos dão uma visão em X dos objetos e permitem que projetemos suas formas em profundidade; ou seja, podemos estimar como esses objetos são nos ângulos em que não os estamos vendo. É por isso que nossa vista não precisa desfocar um plano para discernir outro, como faz a fotografia ou o cinema. O formato esférico dos olhos também implica vantagens, porque faculta antecipar o movimento da coisa ou do animal adiante. Contra a psicologia tradicional, Changizi diz que as ilusões visuais – como a de perceber como curvos dois traços verticais em meio a uma sequência de curvas transversais – não são apenas perdas da condição humana, mas também recursos reforçados pelo meio ambiente. Afinal, vemos com calma que se trata de traços retos, mas a conjuntura nos leva a lhes atribuir movimento. E ler – processar visualmente milhares de tracinhos num curto período de tempo – é um dom tão particular que transformou o mundo.

Tiepolo Pink, de Roberto Calasso (Knopf) – Lançado na Itália em 2006, esse livro é mais um ensaio magistral de Calasso, o autor do influente O Casamento de Cadmo e Harmonia. À primeira vista, pode parecer que defender a grandeza de Tiepolo na história da arte é um exercício vazio, mas Calasso cita diversos grandes autores que fizeram objeções à sua pintura grandiloquente e triunfalista, como Roberto Longhi e John Ruskin, dois dos dez maiores críticos de arte de todos os tempos. É claro que também busca parceiros do seu lado, como Giorgio Manganelli e Marcel Proust, do qual vem a expressão do título, quando se refere a um robe “rosa Tiepolo” (um rosa escuro, como cereja) de Odette, a amante de Swann, se bem que Proust – como Dewey – prefira outros venezianos, como Tintoretto, Ticiano e Carpaccio.

Calasso mostra que Tiepolo pertence a outra época e foi influenciado por outro mestre daquela geração, Veronese, um poeta dos espaços geométricos que se abrem ao infinito. Tiepolo levou esse estilo além, insuflando-o de um ar majestoso, não grandiloquente, e monumental, não triunfal. Ou seja, há nele um teatro de luzes que banham personagens sacros e profanos, ocidentais e orientais, angelicais e bestiais, e tudo isso se faz com “sprezzatura”, com uma técnica natural, fluida, despretensiosa. (Muito da melhor arte brasileira, de Machado a João Gilberto, tem essa ambição.) Tiepolo era rápido e entregava suas encomendas com um profissionalismo único, mas fazia as coisas de seu jeito e enfrentava desafios técnicos como esse, de pintar o sublime sem solenidade. Calasso até exagera em sua defesa, como ao usar conceitos de Baudelaire para definir Tiepolo como um pintor moderno, mais moderno que Delacroix ou Goya, mas também diz que ele é o último dos “Old Masters”, antes do Iluminismo. Seja como for, depois desse livro jamais olharemos para Tiepolo da mesma maneira. Ver é rever.

(“Sinopse”)

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