A vida depois do computador

danielpiza

12 Janeiro 2008 | 10h13

Na famosa discussão entre C.P. Snow e F.R. Leavis sobre as diferenças entre as ciências naturais e as ciências humanas, “as duas culturas”, de 1959, Snow lançou uma frase definitiva: “Não sei como era a vida antes do clorofórmio”. Com isso ele queria dizer que a ciência acumula conhecimento, ao passo que nas artes o que foi realizado há muitos séculos não é necessariamente inferior ao que foi realizado neste (Homero, por exemplo, é maior que todos os escritores vivos). De modo parecido, hoje podemos dizer que não sabemos como era a vida antes do computador.

Alguém poderia objetar: “Mas a humanidade viveu milhares de anos sem ele e conseguiu se virar”. E um escritor brasileiro poderia dizer, como alguns dizem até com orgulho, que ainda escreve à máquina ou à mão. Mas isso é romantismo. A observação da realidade mostra que o computador é muito mais que uma máquina de escrever mais prática (tão melhor para apagar, deslocar trechos, etc.). E não estou me referindo apenas à internet, com seu infinito mundo multimídia de acesso à informação, à diversão e à comunicação – se bem que esta já seria razão suficiente para demonstrar como o computador mudou nossas vidas.

Vou além: o computador não mudou apenas nossas vidas, ampliando a oferta de pesquisa e correspondência; mudou nossas carreiras. Quase todas as disciplinas hoje não podem se imaginar sem os recursos da computação. A física não tem como prescindir dela para investigar a natureza subatômica, lançar satélites, calcular anos-luz ou a escala nano. A engenharia usa computadores o tempo todo, como na hora de projetar em laser o ângulo dos cabos de uma ponte estaiada como a que está sendo construída em São Paulo. O jornalismo, então, já não vive sem teclado, e-mail, editor de fotos, programas de diagramação e outros softwares, para não falar na Web. O cinema digital já é uma realidade em todo o planeta.

Há duas áreas em particular que mostram como os computadores transformaram além da rotina, a economia das nações. Sem eles, a biologia e a medicina não teriam dado os saltos dos últimos anos; não haveria projeto Genoma, não se teria como escanear a atividade cerebral, não se poderia fazer manipulação de alimentos. Hoje não é mais possível visualizar um biólogo em atividade com apenas um microscópio diante de si; todos trabalham com desktops ou laptops. A outra área revolucionada pela computação é a arquitetura. Frank Gehry, Taniguchi e Renzo Piano jamais poderiam projetar as formas exuberantes que projetam; as folhas de titânio do museu de Bilbao só puderam se articular como uma alcachofra porque a equipe de Gehry trabalha com o CAD, o software de três dimensões.

Lembramos, obviamente, como era a vida sem computador pessoal. Mas não sabemos como ela seria se ele não tivesse sido inventado.

(Fonte.)