Café com o maestro

danielpiza

28 Setembro 2010 | 11h22

“Você já ouviu isto? É lindo. Tive a oportunidade de tocar para ele em público.” João Carlos Martins se senta ao piano Fritz Dobbert na sala de seu apartamento nos Jardins, em uma nublada manhã de quarta-feira em São Paulo, e toca a composição que o grande jazzista Dave Brubeck fez em homenagem a Chopin, chamada Thank You. São apenas cinco minutos e inesquecíveis; Martins contrai o rosto, pelo esforço de esticar os dedos retorcidos pela lesão, mas também pela emoção da música e da lembrança do dia em que Brubeck foi ver um concerto seu em Anchorage, Alaska, durante uma escala de viagem em 1970. A foto do amigo está ali, em meio a diversas outras espalhadas pela casa, e registra outro momento juntos, quando se apresentaram num concerto em Nova York.

Martins se levanta e começa a atravessar a sala, quando se depara com outro objeto que o emociona e se orgulha de exibir: uma placa em sua homenagem oferecida pelo clube para o qual torce apaixonadamente, a Portuguesa. É um reconhecimento ao torcedor famoso em cor prata, da qual se destaca o escudo vermelho e verde. “Uma vez eu estava no Canindé, a torcida me viu e começou a cantar: ‘Um, dois, três, o maestro é português’”, conta com uma risada. Pouco antes, havia mostrado no laptop, com ajuda da mulher Carmem, um dos sambas-enredo que podem ser escolhidos para o Carnaval do ano que vem pela escola Vai Vai, que pretende celebrar a história de Martins com o tema A Música Venceu.

Aos 70 anos, o pianista que fez parte de qualquer lista dos maiores intérpretes internacionais de Bach, que se reinventou como maestro e tem se apresentado nas salas mais importantes do mundo com sua Filarmônica Bachiana, segue se emocionando com fatos e lembranças, do Alaska ao Canindé, mesmo tendo se apresentado com grandes lendas da música. Mostra vaidade com o fato de que Bruno Barreto vai filmar sua vida em breve e com a ampliação da fama trazida pelo depoimento no último capítulo da novela Viver a Vida. Mas mostra também um desprendimento e uma determinação enormes ao tocar em ritmo acelerado o projeto de levar música clássica aos meninos carentes de toda parte.

Durante o café da manhã, falou com entusiasmo sobre a Filarmônica, mesmo que ela lhe esteja exigindo uma agenda impressionante: dois dias atrás, por exemplo, tinha dado um concerto no Capão Redondo às 9h, outro no Jardim Ângela às 16h – dois dos bairros paulistanos mais conhecidos por sua carência e violência – e o último em Campinas à noite, num colégio particular. No dia seguinte, fez o mesmo na Vila Brasilândia e Cidade Tiradentes. É um trabalho belíssimo, que faz Martins desejar que seu nome não apareça mais “no limbo”, como diz, porque fez “a besteira de mexer com política” no passado, quando envolvido num escândalo com o ex-governador Paulo Maluf.

Em todos esses lugares da periferia de São Paulo, Martins só reforçou a convicção de que a música clássica não precisa ser nada difícil ou distante para a maioria das pessoas; basta que chegue com um pouco de explicação (Martins fala antes de iniciar cada obra e mostra às pessoas o que é reger) e estratégia (versões orquestrais de composições para cinema, de autores como Henry Mancini e Ennio Morricone, ajudam a cativar o público), além do apoio institucional (no caso, do Sesi). “Acho que todo músico deveria reservar 20% do seu tempo para pisar no barro”, diz. “Com isso ajudaríamos a mudar a imagem da música clássica.”

Ele faz questão de lembrar que não se trata apenas de filantropia e formação de público; encontrar e apoiar jovens talentos é fundamental. “Há muitos projetos de música junto a comunidades carentes, mas nenhum tem revelado ninguém. Criamos um programa para que empresas adotem crianças talentosas e temos muitos bolsistas em nossa orquestra.” Segundo ele, das pessoas que assistem à Filarmônica, 70% poderão ser público da música clássica no futuro, 20% músicos amadores, 8% profissionais – e 2% serão o que chama de “diamantes”, grandes promessas como a soprano Eliane Chagas, ex-trombonista de uma pequena orquestra pernambucana que Martins levou a cantar para uma plateia efusiva na Sala São Paulo.

A Filarmônica é formada por 25 profissionais, muitos deles pertencentes a outras orquestras como a Osesp, e mais 45 estudantes. O repertório muda todo mês e traz obras canônicas como a Quarta Sinfonia de Tchaikovski, a Primeira de Brahms, a Novo Mundo de Dvorak e a Nona de Beethoven. Com ela, Martins tem se apresentado em locais nobres como o Lincoln Center, embora reclame que a grande imprensa brasileira raramente noticia esses eventos. Ele rege sempre de memória, mesmo que hoje existam aparelhos para mudar de página com um simples comando, e só cede a tecnologias como o iPod quando precisa aproveitar a viagem de avião para estudar. “Eu me concentro melhor se rejo sem a partitura.”

Martins acaba de voltar de um concurso em Leipzig, do qual foi júri, conhecido como Copa do Mundo de Bach, para pianistas com menos de 32 anos. A falta de “diamantes” brasileiros lhe chamou a atenção: dos 150 escolhidos para a final, nenhum era sul-americano; em contrapartida, havia mais de 60 asiáticos, sobretudo chineses, mostrando o valor da dedicação ao estudo. Martins diz que isso não tem a ver apenas com a diferença de população. “Você sabia que existem 50 milhões de chineses estudando piano? No Brasil, não devem existir mais que 20 mil, dos quais apenas uma minoria estudando a sério.”

O Brasil, em outras palavras, não tem formado novos Joões Carlos Martins, novos garotos prodígios da música. Aos oito anos, ele já ganhava concursos tocando Bach; aos 20, fazia concertos como um patrocinado por Eleanor Roosevelt. Por seu furor expressivo diante do teclado, quando era capaz de tocar 21 notas por segundo – e as imagens o mostram fazendo caretas, se descabelando e dando súbitos pulos na banqueta –, foi comparado com o pianista canadense Glenn Gould, embora sua lista de admirações no instrumento comece pelo suíço Alfred Cortot (“o melhor som”) e siga com Horowitz e Rubinstein. Também se queixa do excessivo virtuosismo de muitos instrumentistas atuais, como o chinês Lang Lang.

Curiosamente, apesar da ausência dos brasileiros no concurso de Leipzig, são compatriotas os músicos que destaca na atualidade. Menciona em especial o maestro Roberto Minczuk, “gênio”, “o maestro brasileiro mais requisitado no cenário internacional” (embora considere Isaac Karabitchevsk “o mais equipado”), e Nelson Freire, “o pianista em melhor forma no mundo”, dono de “um som maravilhoso, um bom gosto absurdo” (embora recrimine nele e em sua parceira Martha Argerich um fraseado “fácil, em ondas, puh-ram, puh-ram”). Também acompanha o jovem venezuelano Gustavo Dudamel (“outro gênio, mas ainda vai amadurecer”) e conta piadas sobre a proverbial vaidade dos maestros (como a de Ricardo Muti usando a chuva para arrumar os cabelos).

No pequeno grupo de câmara que se poderia formar com os representantes do Brasil na música erudita mundial, o nome de João Carlos Martins também não pode faltar. Mais famoso que nunca, ele não se incomoda com as reações emotivas que provocou e provoca por sua luta contra a LER, a lesão por esforço repetitivo, agravada também por um acidente jogando futebol e um golpe sofrido num assalto – a qual o obriga a sessões diárias de fisioterapia. Sua vida tão intensa, de dramas e façanhas, foi motivo de diversos trabalhos, como um premiado documentário franco-alemão de 2004, A Paixão Segundo Martins, que o mostrava urrando de dor ao levar choques para tentar recuperar o movimento das mãos. “Sei que as pessoas se emocionam, mas também sei que sabem o que fiz antes.”

Quando vemos cenas como aquela em que toca uma peça de Rachmaninoff com apenas uma mão, ou quando o testemunhamos buscando as notas do tributo de Brubeck a Chopin, ficamos admirados com sua força de vontade e sensibilidade. Mas seu ciclo integral de Bach está aí, em gravações eternas, para lembrar que diante de nós não está apenas um músico célebre que foi obrigado a abandonar o piano ou um bom maestro que parte em missão pelos clássicos, mas um extraordinário pianista que, ainda por cima, rege uma vida extraordinária.

(Fonte)