Clássicos e viajantes

danielpiza

24 Dezembro 2011 | 10h44

Enquanto as outras áreas culturais fecham para entressafra, os livros bons não param de sair. Na saudabilíssima tendência de novas edições e traduções de clássicos, vejo, por exemplo, os dois volumes de Maupassant, Bola de Sebo e os contos O Horla – A Cabeleira – A Mão – O Colar (editora Artes e Ofícios), que foi de uma influência às vezes subestimada sobre o gênero moderno, em sua abertura ao que não se explica e não se controla. Pode-se dizer que Maupassant levou o conto aonde Flaubert não tinha ido tão claramente, mas sem Flaubert – que lhe dava dicas de estilo caminhando nas ruas de Paris – ele nem teria aonde ir.

Me delicio ainda mais com a Nova Antologia do Conto Russo (Editora 34, organização Bruno Barretto Gomide), que vai de Karanzim (1792) a Sorókin (1998), passando por Puchkin, Gógol, Liermontov, Dostoievski, Turgueniev, Tchekhov (o muito bem tecido Ariadne, de 1895), Tolstoi, Gorki, Pasternak, Bunin (um xodó dos russos, que não entendem como o autor desse Insolação é menos cotado no exterior), Bábel e Nabokov. Dos contemporâneos, acho Tatiana Tolstaia, a sobrinha neta de Tolstoi, representada por A Noite, a dona de um lirismo único. Os russos, claro, são muitas vezes lembrados por seus romances intensos e panorâmicos, mas não foram menos notáveis nas formas breves, ainda que menos produtivos.

Ainda sobre clássicos, acaba de sair o Dicionário de Luís de Camões (Leya, coordenação Vitor Aguiar e Silva), alentado volume de mais de mil páginas que alguns escritores brasileiros bem mereciam, como Machado e Rosa. A escrita é um tanto técnica e formal às vezes, mas verbetes como Maneirismo em Camões são verdadeiras iluminações. Afinal, Os Lusíadas é do mesmo período de Montaigne, Shakespeare, Cervantes e outros (de 1570 a 1620, digamos), com sua combinação de artifício e melancolia, de complexidade e incerteza, na transição do Renascimento para o Barroco. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança”, mas o canto de Camões permanece.

A extraordinária iniciativa do livro Grandes Expedições à Amazônia Brasileira, de João Meirelles Filho (Metalivros), ganha agora outro volume, dedicado ao século 20. Lamento que tenha sido decidido não dar aqui o capítulo da importantíssima missão de Euclides da Cunha no Acre em 1905, com resultados geográficos, diplomáticos e literários que se comparam a poucos, mas isso não tira a força do livro. Expedições sanitárias como a de Oswaldo Cruz, fantasiosas como a de Percy Fawcett, etnográficas como a de Lévi-Strauss, socializadoras como a do irmãos Villas Bôas, artísticas como a de Margaret Mee, poéticas como a de Thiago de Mello – estão ali, junto a nomes como Burle Marx, Krajcberg e Jacques Cousteau. E ainda há tanto, tanto a estudar e compreender.