danielpiza

11 Outubro 2009 | 08h08

Nos 200 anos de Charles Darwin e 150 de sua obra maior, A Origem das Espécies, uma espécie tem prevalecido no ambiente editorial: os livros que defendem a Teoria da Evolução não apenas como teoria, mas como um conjunto de hipóteses que vêm sobrevivendo aos mais duros testes experimentais. Como dizem os cientistas, há um “corpo de evidências” cada vez maior em favor do argumento central de Darwin, o de que as espécies sofrem mutações e assim se formam a partir de ancestrais comuns. O sequenciamento do código genético, em projetos como o Genoma, é o mais recente responsável por esse acúmulo de provas. Ninguém melhor para explicar isso do que um geneticista, o inglês Steve Jones, autor de A Ilha de Darwin (Record, 376 págs., R$ 57, tradução de Janaína Castilho).

Jones, entrevistado por telefone pelo Estado na semana passada, mostra como é falsa a noção de que Darwin fez sua viagem juvenil pelo Beagle e depois se fechou em casa, no subúrbio de Londres, e adiou até onde possível a publicação de suas ideias sobre variação e seleção natural. Na realidade, Darwin, apesar dos problemas de enjoo, continuou a viajar e estudar os mais diversos tipos de espécies – de cracas a pombos, de vermes a cachorros, de orquídeas a macacos. “Em seus 40 anos na Down House, passou 2 mil noites fora de casa – o equivalente a um dia por semana”, escreve Jones. Ele queria, afinal, coletar o máximo possível de evidências antes de publicar sua teoria.

O sr. mostra como Darwin descobriu o poder de poucos recursos produzirem grandes resultados. Até que ponto ele estava ciente de que suas descobertas tinham implicações por assim dizer filosóficas?

Eu acho que seu modelo de uma natureza que se transforma gradualmente, não por saltos, foi central para a filosofia. Só não sei se ele usaria esse termo. Um dos livros mais importantes para ele foi Princípios da Geologia, de Charles Lyell, porque até então se imaginava que a disciplina tratasse apenas de vulcões e cataclismos em geral; com Lyell, a ação mais ordinária e lenta da natureza, como o clima ou o relevo, implicava enormes traços geológicos. Pequenos meios criam resultados gigantes.

Por que a ideia de um Darwin recluso, mais acomodado ou menos ativo depois da viagem com o Beagle, prevaleceu por tanto tempo?

Porque a viagem foi tão icônica que nada que acontecesse depois poderia substituí-la. Antes de mais nada, o livro que a narra é o melhor livro de viagem jamais escrito. O autor é um jovem entusiasmado, que mostra uma natureza maravilhosa. E depois de A Origem das Espécies, em 1859, que é a síntese de sua biologia e provocou tanta controvérsia, os demais livros de Darwin terminaram ficando à sombra.

Seu livro explica como a genética confirma as ideias de Darwin. No entanto, ainda ouvimos muitas vezes que “a Evolução não é nada além de uma teoria”, como se não tivesse comprovação experimental. Por quê? Será medo das pessoas de aceitarem suas ideias?

É um mistério. Há dois níveis de desentendimento. O primeiro é o que diz que é apenas uma teoria. Toda ciência começa como teoria. Foi assim com a química e a física. Portanto, não seria diferente com a biologia. Além disso, os estudos mostraram que a Terra e as espécies eram ainda mais velhas do que Darwin imaginava. O segundo problema de interpretação é o que diz que a Evolução significa que o homem é um animal como outro qualquer. Não. É uma espécie única, no sentido mais humanista possível. E somente por meio das ideias de Darwin é que podemos saber disso.

Qual é sua opinião sobre essa descoberta recente do nosso ancestral Ardi, mais antigo que Lucy? Quais as consequências?

É uma descoberta muito interessante, especialmente porque está muito bem datada: ele existiu há 4,5 milhões de anos. Como se estima que a separação entre as linhagens dos seres humanos e dos macacos como o chimpanzé ocorreu há 6 ou 7 milhões de anos, é notável como a descoberta está relativamente mais próxima dessa separação. O fóssil mostra um primata que era bem mais parecido com os humanos do que com os chimpanzés. Ao contrário do que muitos dizem, houve, portanto, um monte de evolução na linhagem dos chimpanzés. Isso sugere também que aqueles que usam os chimpanzés como modelos para estudar o passado do homem como primata estão equivocados.

O sr. diz no livro que a maior parte do DNA está inativo durante a maior parte do tempo. É isso mesmo? E por que as pessoas ainda têm uma visão da carga genética como um estoque imutável, que age em bloco?

Na verdade, eu estava errado quando disse que a maior parte do DNA não tem função. Pesquisas recentes sobre o comportamento do DNA no controle do genoma mostraram que é mentira que haja tanto “DNA lixo”, apenas algum. O DNA é uma molécula bastante simples e bonita, mas tendemos a ver o processo como algo que nasce dele em direção à formação de uma célula, depois um tecido, etc. Esse processo é mais complicado, difícil de entender. Acho que ninguém ainda compreende como o DNA é ativado, em qual segmento, etc.

O sr. sugere no livro que o temperamento, a personalidade de cada um, é hereditário. Se um pai é teimoso, digamos, o filho tende a ser também?

É preciso entender o que se quer dizer com “hereditário”. Tudo no ser humano é tanto hereditário como ambiental. Em algumas características podemos medir isso, como a altura de um indivíduo. Se seus pais são altos, você tende a ser alto. Mas isso não explica por que a cada geração a humanidade toda fica mais alta em média. Não tem nada a ver com os genes, mas com a alimentação, os avanços na saúde, etc. Ou seja, fatores ambientais. E há mais de cem genes envolvidos com a determinação da altura de um indivíduo, e só alguns deles estão ativos por hereditariedade. Quanto à personalidade, sim, é possível dizer que se os pais são depressivos, por exemplo, o filho pode provavelmente ser depressivo. E não só pelos genes, mas também pelo fato de que tende a ser criado num ambiente triste. Para explicar traços extremos, como as doenças, é mais fácil. Mas para traços morais é muito difícil. Obviamente há um chamado dos genes para comportamentos relacionados à música ou à religião, digamos, mas não sabemos como isso funciona ou deixa de funcionar.

Mas há estudiosos que fazem afirmações como a de que os homens tendem mais à traição do que as mulheres porque precisam espalhar suas células reprodutoras. Esse salto não é perigoso?

Podemos afirmar algumas coisas. Por exemplo, que há uma diferença de origem biológica no comportamento de homens e mulheres. Há países com maior ou menor taxa de homicídio, por exemplo, mas no conjunto da humanidade os homens matam em média dez vezes mais que as mulheres. Não resta dúvida de que a testosterona tende a torná-los mais violentos. Da mesma forma, um homem mais velho, como eu, tende a sentir menor desejo sexual do que um jovem. Pode-se dizer então que o homem tende a ser mais promíscuo que a mulher? Até certo ponto, sim. Mas isso não pode justificar, por exemplo, o estupro, que é moralmente inaceitável. Precisamos ter a cautela de não usar a biologia para justificar comportamentos prejudiciais.

Se temos tantos genes em comum com outras espécies, como os chimpanzés e os ratos, podemos dizer que a pequena variação que gera uma enorme diferença é a empatia, por exemplo?

Depende do que se quer dizer com empatia. Como escrevo no livro, há empatia entre os ratos, por exemplo, e os cachorros são extremamente capazes de reconhecer seus donos. É um conceito difícil de medir. Mas, sim, o ser humano parece mais dotado de empatia.

Se pensarmos no número dos chamados “neurônios espelhos” (neurônios responsáveis pela imitação e simulação dos gestos e sentimentos alheios), que é muito maior nos homens do que nos outros animais, não haveria uma forma de medir?

Sim, certamente. Tudo indica que somos os mais hábeis na identificação do humor dos nossos pares. A proporção entre nosso cérebro e nosso corpo, afinal, é cinco vezes maior do que é nos macacos. E nosso cérebro tem muito mais conexões. Mas não sou um neurocientista, e acho que eles tendem a superinterpretar algumas descobertas.

Muitas pessoas se queixam da Evolução por mostrar alta dose de aleatoriedade e improviso na natureza. Seu livro mostra que de alguns poucos modos influenciamos nosso DNA com nosso comportamento, como na alimentação. Até onde vai essa influência?

Temo que não muito longe… A terapia genética, por exemplo, não foi bem-sucedida até agora. A maior parte dessa influência passa por nossos hábitos alimentares e por prazos longos, não se manifestam de pai para filho. Londres, por exemplo, era uma cidade que tinha muitas mortes causadas pela água no século 19 por causa do ácido sulfúrico. Com isso, genes que resistem a isso foram ativados, entrando na herança biológica. Mas tais mudanças não são produto da vontade individual, muito menos imediatas.

CARTAS DE UM CAÇADOR DE PROVAS

Darwin não foi apenas um gênio da biologia, que com sua teoria mudou as mais diversas áreas do pensamento; foi também um escritor exímio. Seus textos podem não ter a incisividade de um Thomas Huxley, seu “buldogue”, que levou a cabo a tarefa de defender suas ideias diante do conservadorismo e do obscurantismo com um poder verbal admirável. Mas o que Darwin se propôs a fazer – a paciente, minuciosa e perfeccionista coleta de evidências sobre a mutação das espécies, depois de conhecer profundamente “o outro lado” – fez com muito estilo. Esse estilo elegante e claríssimo, sem pompa nem arrogância, é o que se vê em seus relatos de viagem, diários, ensaios e também nas cartas dos volumes Origens 1822-1859 e A Evolução 1860-1870 (Editora Unesp, trad. Vera Ribeiro e Alzira Vieira Allegro, 312 e 346 págs., R$ 59 cada um), organizadas por Frederick Burkhardt e lançadas agora em bela edição comemorativa de capa dura.

Ler suas cartas é acompanhar a maneira como foi desenvolvendo suas ideias sob o compromisso maior de chegar a uma verdade factual desconhecida. Essa maneira se assemelha muito à sua visão da história natural: ela é gradual, opera por meio de pequenas mudanças, mas em determinados momentos dá saltos, inaugura novos e duradouros ramos. Alguns eventos abrem sua mente para se desviar em relação à opinião dominante. Ler Os Princípios de Geologia, de Charles Lyell, o fez perceber que a explicação criacionista não batia com os fatos: a Terra era muito mais antiga do que diziam os Evangelhos, e as distintas camadas subterrâneas revelavam ser impossível a criação simultânea de tudo. Sem essa leitura, Darwin não estaria aberto a ver o que viu em sua viagem no Beagle. Não por acaso, Lyell é um de seus correspondentes no volume Origens.

Outro evento literário que se somou às experiências pessoais foi a leitura do Ensaio Sobre o Princípio da População, de Thomas Malthus, em 1838. A sequência epistolar deixa claro que, dois anos depois de retornar da viagem, e não durante ela, foi que Darwin se deu conta de que o material coletado permitia que esboçasse uma teoria original sobre a diversidade de espécies. Em mais alguns anos de coleta, como diz em 1844 em carta a outro naturalista, J.D. Hooker, já estava confiante de sua visão. Lamarck e outros já haviam se dado conta de que as espécies sofrem transformações ao longo das gerações, mas Lamarck acreditava que elas se deviam à persistência dos hábitos de cada espécie. Darwin, estudando fósseis e embriões que coletava com ajuda de amigos em várias partes do globo, deu ênfase à existência de ancestrais comuns, a partir dos quais as espécies se desenvolviam à medida que suas características se mostravam adaptadas ou não ao ambiente. Não era a girafa que, alongando o pescoço, gradualmente extraía vantagens da natureza ao redor; era por ela ter um pescoço longo que a natureza ao redor permitia sua sobrevivência. A vantagem não produz a mutação; é subproduto dela.

A mudança de ponto de vista, que mostra um engenho natural movido em grande parte por aleatoriedade, transformou o conhecimento humano. As cartas do segundo volume mostram bem a aflição de Darwin quando Lyell sugeriu que escrevesse um resumo de suas ideias, até porque outros como Alfred Wallace estavam chegando às mesmas conclusões. O projeto de Darwin era fazer um “grande livro das espécies”, muito mais amplo que A Origem das Espécies, o qual publica em 1859 para não perder a primazia do achado. (Wallace, no entanto, foi o primeiro a reconhecer que Darwin tinha ido mais longe.) Especulações de que ele temia demais o impacto sobre os religiosos da época, como sua própria esposa Emma, não se sustentam nas cartas. Estas mostram um Darwin abençoadamente “pretensioso”, segundo ele mesmo; sua atitude era mais “os fatos são estes, nada posso fazer” do que “vocês vão ter que me engolir”. Mas, embora se queixe algumas vezes da “severidade” com que Huxley desafia o preconceito cristão, em 1860 tira o chapéu para sua coragem no debate com o bispo Wilberforce e escreve: “Essa querela é o melhor dos assuntos.”

GOLEADA DE LIVROS, CLARO, TRAZ DAWKINS

Continua a invasão do mercado editorial, principalmente de língua inglesa, por livros sobre Charles Darwin; mas no Brasil, por enquanto, poucos chegaram. Além do livro de Steve Jones, a Record lança em novembro o novo da dupla de biógrafos Adrian Desmond e James Moore, A Causa Sagrada de Darwin. A Companhia das Letras anuncia para o mesmo mês outro livro do controverso Richard Dawkins, O Maior Espetáculo da Terra. E a Larousse publicou O Jardim de Darwin, de Michael Boulter. De autores brasileiros, um dos dignos de nota é A Goleada de Darwin, de Sandro de Souza, também da Record. No exterior, além dos já comentados como Evolution – The First Four Billion Years, editado por Michael Ruse e Joseph Travis, e Angels and Ages – A Short Book About Darwin, Lincoln, and Modern Life, do jornalista cultural Adam Gopnik, há incontáveis títulos. Entre eles se destacam pela qualidade Darwin’s Universe, de Richard Milner (University of California Press), e Darwin’s Armada, de Iain McCalman (W. W. Norton & Company).

O objetivo de Dawkins, de quem foi publicado apenas neste ano no Brasil A Grande História da Evolução (The Ancestor’s Tales, 2004), é agora explicar por que a seleção natural é um fato histórico, que “não pode ser negado como o Holocausto não pode ser negado”, segundo escreve no começo de The Greatest Show on Earth (Free Press). O maior espetáculo da Terra é a natureza, sua engenhosidade, sua complexidade nascida de uma base muito simples. Dawkins mostra como as variações estudadas pela genética confirmam sua visão, desde que Theodore Dobzhanski sintetizou Darwin e Mendel em 1937 e a estrutura do DNA foi determinada pela dupla Watson e Crick em 1953. O mesmo, mas com menos detalhamento e profundidade, é feito com eficiência pelo brasileiro Sandro de Souza, pesquisador em biotecnologia formado na USP e em Harvard.

Por sua vez, a dupla Desmond e Moore, autora de Darwin – A Vida de Um Evolucionista Atormentado, destaca no novo livro “a postura antiescravidão” do naturalista. Apesar de passagens com um teor racial característico da época (como seu horror diante do “barbarismo” dos índios da Terra do Fogo, na Patagônia), Darwin nunca foi um racista, um defensor da superioridade moral de uma raça em face das outras; ao contrário, sempre foi um crítico do preconceito, como se manifestou na passagem pelo Rio de Janeiro em 1832, durante a monarquia escravocrata. Desmond e Moore se esforçam por dissociar Darwin e as leituras que dele fizeram intelectuais como Herbert Spencer, este sim um advogado da raça branca.

Darwin’s Armada, do professor australiano Iain McCalman (editora Norton), tem o ponto de partida mais original entre todos esses lançamentos: descrever quatro grandes viagens de naturalistas que se engajaram no que chama de “batalha pela Teoria da Evolução”. A primeira delas, claro, é a de Darwin ao redor da América do Sul, a bordo do Beagle,1831- 36. As outras são as de Joseph Hooker pelo Polo Sul, 1839-43, Thomas Huxley pela Austrália, 1846-50, e Alfred Wallace pela Amazônia e pelo sudeste asiático, 1848-66. McCalman narra bem essa viagens e mostra como esses três amigos de Darwin, em seguida, defenderam em público sua teoria; Wallace, em especial, chegou a conclusões muito parecidas de forma independente.

O livro do antropólogo Richard Milner, ampliação de dois trabalhos anteriores (inclusive um prefaciado por Stephen Jay Gould, prefácio agora repetido), é uma verdadeira enciclopédia ilustrada da evolução, de A a Z. Darwin’s Universe (University of California Press) é o que mais merece tradução no Brasil. Além desses destaques, o ano Darwin tem visto também a multiplicação de livros que usam sua teoria para analisar outras áreas, como as artes (The Art Instinct, de Denis Dutton), a linguagem verbal (Adam’s Tongue, de Derek Bickerton), a ficção e o conhecimento (On the Origin of Stories, de Brian Boyd). Tudo isso torna uma afirmação segura: uma diferença notável entre o ser humano e as outras espécies é que elas não produziram nenhum Charles Darwin.