danielpiza

21 Dezembro 2011 | 07h29

É curioso, mas não surpreendente, que tenha sido necessário o Barcelona confirmar sua óbvia superioridade técnica e tática sobre o Santos para que muitas pessoas lamentem o nível medíocre do futebol brasileiro. No resto do tempo, é a mesma ladainha: temos o melhor campeonato do mundo, com vários clubes candidatos ao título; a ginga nacional é imbatível desde que não haja complexo de vira-lata; Neymar nada teria a aprender jogando num grande clube europeu, pois a mestiçagem nos fez o povo eleito na arte do futebol; etc., etc. Como acham que nos bastam “auto-estima” e dinheiro, pois a habilidade é um dom que Deus ou o DNA já nos deu, são incapazes de reconhecer uma entressafra de talentos – da qual um Neymar sozinho não nos redime – e a melhor fase de outras escolas do ludopédio.

Daí essa desculpa de que o problema do Santos foi justamente não jogar à brasileira. Sim, é verdade, a escola de Pelé sempre foi a da realização de todos os fundamentos (passes, dribles, chutes) associada ao improviso, à criatividade, à ousadia; foi combinar aproximações e simulações para atingir o objetivo da vitória. E é isso que, simplesmente, como disse Pep Guardiola, faz o Barça. O time mantém a bola rolando de pé em pé, sem chutões nem chuveirinhos, fica no campo do adversário a maior parte do tempo e busca frequentemente o gol, busca entrar na área para nocauteá-lo com classe. Mas, opa, quem disse que é assim que os brasileiros interpretam seu próprio futebol? O que se ouve é que organização nunca foi nosso forte, que nossa “essência” é o efeito sem esforço, a poesia sem prosa, que a vantagem no placar é menos relevante que um drible da foca – e que faltou ao Santos “se divertir” para fazer frente ao Barcelona…

Ao mesmo tempo – e este hiato é o problema central – não vemos nada disso aqui. É um futebol cheio de faltas, trombadas, correrias desordenadas, bolas rifadas, de escassos gols e brilhos – como o futebol do campeão nacional deste ano, o Corinthians. Os treinadores ficam à beira do gramado gritando “Tira daí!”, “Mata a jogada!”, “Pega, pega!”, “Cruza na área!”. E depois têm a cara de pau de dizer que o Barcelona joga “sem atacantes” – como se Messi não ficasse sempre a menos de 20 metros da área e não fizesse um gol por partida, como se Villa ou Pedro não entrassem em diagonal às costas da zaga o tempo todo, como se os meias Xavi, Iniesta e Fábregas não apoiassem muito e não marcassem decisivos gols. Veja Daniel Alves: ele é um lateral e joga na linha dos zagueiros… adversários! Nada de “volantes de contenção”, nada de atacantes paradões e toscos.

Fico à vontade para criticar o futebol brasileiro dos últimos cinco ou seis anos porque, enquanto todos chamavam a geração de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos e Cafu de “estrangeiros” e “mercenários”, eu os defendia como herdeiros honrosos de um estilo que combina refinamento e eficiência. Agora é preciso pensar diferente para jogar diferente. Ou melhor, para voltar aos bons tempos do “jogo bonito”.

(“Boleiros”)