Mitos machadianos

danielpiza

29 Setembro 2008 | 08h18

Baptistão

Machado de Assis dizia que a opinião pública se divide entre graves e frívolos, e cem anos depois de sua morte a divisão continua a dominar a visão de sua obra e importância. Os graves vêem nele ou o escritor oficial que a Academia Brasileira de Letras propaga ou o crítico social que ele nunca se bastou em ser. Os frívolos esquecem que seu humor era integrado ao seu ceticismo e que suas paixões eram mesmo Shakespeare, Beethoven e Schopenhauer, não aquilo que o Brasil transformaria em estigmas de identidade no século 20. Como resultado, há muitos mitos, meias-verdades e especulações sobre ele:

Machado era um homem recluso e melancólico – É assim o “Machadinho” de sua primeira biógrafa, Lúcia Miguel Pereira, mas o fato é que em sua juventude Machado foi extremamente ativo e espirituoso, como relataram amigos como Arthur de Azevedo e Salvador de Mendonça. Machado passou por todas as classes sociais de seu tempo e testemunhou a transição acelerada do Rio para a modernidade. Participou de sociedades literárias e musicais e foi um bajulador de dom Pedro II. Estava mais para integrado do que apocalíptico. Só no final da vida é que se fechou cada vez mais na casa do Cosme Velho, doente e, depois da morte de sua amada Carolina em 1904, muito deprimido.

Machado foi um crítico da sociedade burguesa – Críticos e sociólogos marxistas quiseram fazer de Machado um analista engajado da “elite” de seu tempo, em cujo ócio e vaidade teria mostrado como as idéias vindas da Europa serviam apenas de verniz para os privilégios. Machado, segundo Roberto Schwarz, seria um crítico do “formalismo” e do “universalismo” da civilização burguesa, de suas idéias liberais e iluministas. Na realidade, Machado, que era fã da Inglaterra (onde o capitalismo deslanchou), viu muito mais longe: viu que a sociedade brasileira era pré-capitalista e os privilegiados tinham mentalidade feudal, nada burguesa, em sua defesa dos interesses próprios e não de valores universais. Além disso, não poupou a emergente classe média, as Capitus e os Escobares: não tinha parti-pris de classe.


Machado não teve filhos porque não quis transmitir a miséria humana – Aqui o erro muito comum é o de confundir o que seus personagens falam e o que ele pensava. Machado em pelo menos duas ocasiões lamentou não ter filhos. Provavelmente não os podia ter por causa de suas doenças, como a epilepsia, para a qual tomava um remédio chamado tribomureto que tinha sérios efeitos colaterais. É o mesmo motivo por que nunca pôde viajar para o exterior, embora sonhasse conhecer lugares como a Itália. A frase final de Brás Cubas é um gesto de orgulho de um homem que queria salvar a humanidade e não salvou, logo seu filho não estaria a salvo. Quanto à hipótese de que Mario de Alencar, filho de José de Alencar, seria filho de Machado, não passa de especulação.

Machado tinha como alvo central a ciência e o positivismo – O alvo central de Machado eram as religiões, sobretudo a católica, mas também outras como o espiritismo. Machado era tão voltairiano, tão anticlerical, que recusou o padre em seu leito de morte – uma informação que na biografia de Raimundo Magalhães Jr. parece um detalhe qualquer. Sua obra é toda marcada por sátira à credulidade cristã dos brasileiros, a começar pelos da classe alta. Quando criticou o positivismo, foi ciente de que se tratava de uma ideologia que pretendia uma conciliação plena entre religião e ciência, tal como os xaropes que prometiam curar as dores do corpo e as da alma. Machado viu que a ciência, como em O Alienista, estava se comportando da mesma maneira dogmática que a religião. No entanto, compreendeu a Teoria da Evolução de Darwin, criticando justamente sua apropriação para uma sociologia dos “mais fortes”.

Sabemos muito sobre a vida modesta de Machado – Sobre sua infância e adolescência sabemos muito pouco. Biógrafos tomaram como fatos o que não passava de especulações, como a de que ele foi coroinha ou a de que ele aprendeu francês com a mulher de um padeiro na esquina. Não existe nada documentado sobre isso, nem em papéis nem em testemunhos. Nada. O que sabemos é que Machado teve uma criação rara em sua época, de pais alfabetizados e acesso aos clássicos da literatura, tanto que aos 15 anos já o vemos poeta. Machado nunca foi rico, mas viveu bem, especialmente a partir dos 30 anos, quando se casou com Carolina, e galgou firme nas duas carreiras que teve, a de funcionário público e a de homem de letras.

Machado sabia que a República viria com a Abolição – Machado tinha muitas idéias liberais, inclusive a defesa do voto feminino, mas era um monarquista convicto, tal como seu amigo Joaquim Nabuco. E sonhava com o Terceiro Reinado: a princesa Isabel assinaria a Abolição e sucederia o pai, preservando o regime. Quando veio a República, no ano seguinte, ele ficou dois anos sem escrever crônicas, assim como Nabuco interrompeu seus diários. Embora abolicionista e desiludido com dom Pedro II, Machado não via com bons olhos a nova geração, materialista e carreirista. Suas crônicas sobre o sistema financeiro no fim do século mostram um nostálgico, sem instrumental suficiente para entender a economia moderna. Ele era conservador em muitos aspectos, liberal em outros; essas duas naturezas eram simultâneas.

Não existem duas fases na obra de ficção do autor – É óbvio que existem; basta um cotejo rápido entre Iaiá Garcia (1878) e Brás Cubas (1881). Sim, como ele mesmo disse, há “brotos” nos primeiros quatro romances de seu “estilo maduro”. Mas há, portanto, um estilo maduro, e ele começa com Brás Cubas, livro de estilo tão pouco convencional, tão aberto ao humor e ao pessimismo no mesmo lance, que ninguém poderia imaginar lendo sua obra anterior. Se os temas que o obcecam – como o adultério – o acompanham desde cedo, sua genialidade só se expressa mesmo a partir da década de 1880, depois que o Segundo Reinado vive crise e Machado precisa fazer retiro em Friburgo para cuidar da saúde.

Capitu é vítima da narração de Casmurro – Essa é uma leitura tão pobre de Dom Casmurro quanto a que pressupõe que o livro seja apenas sobre a traição de um homem por sua mulher com seu melhor amigo. Se a intenção de Casmurro fosse apenas manipular o leitor para enxovalhar a reputação de Capitu, bastaria a ele acumular muito mais pistas de que houve a traição. Afinal, o que há é muito pouco: alguns encontros mal explicados entre ela e Escobar e, acima de tudo, o olhar que ela dirige a seu cadáver. Casmurro escreve com “escrúpulos de exatidão”, mas é o primeiro a confessar que seu livro é omisso, cheio de lacunas, a maior delas sendo ele mesmo. Não há nada de errado em supor que Capitu o traiu, a não ser que você, leitor, seja moralista; como disse Lygia Fagundes Telles, bem que Bentinho mereceu. Mas o assunto maior do livro é o efeito que essa hipótese causa na vaidade romântica de Bentinho, que, como quase todos os protagonistas machadianos, tem delírios de grandeza e termina a vida sem nada. Outra besteira é equipará-lo a Otelo – ele mesmo diz que não tem “a fúria do mouro” – ou a Hamlet, afinal um homem de ação. Bento é passivo e covarde e acha que o mundo gira em torno de seu umbigo.

Machado é um pós-moderno, não um criador de personagens – Nesse equívoco até críticos como Antonio Candido caíram. Como dizer que Brás, Quincas, Rubião, Bentinho e Capitu não são grandes personagens, não compõem a galeria mais rica de figuras da ficção brasileira? Afirmam que é por culpa de Machado que a literatura urbana brasileira não tem essa força, ao passo que a literatura não-urbana tem nomes como Jorge Amado, mas esquecem que Capitu é uma personagem muito mais viva do que Gabriela para o leitor atual. Machado não é Borges, não é um autor que é mais leitor do que contador de histórias. Ele une a ficção realista, descritiva, com a metalinguagem e a meditação. Seus leitores se transportam para sua época e lugar, ao mesmo tempo que se perguntam sobre o que é real ou imaginário.

Machado não foi um gênio, porque precisou trabalhar muito – Essa frase trai a vontade de anunciar “novidades” nos estudos sobre Machado (muitos jornais e revistas tentaram ir nessa linha em torno do centenário, sem sucesso nenhum), mas não passa de besteira: qual gênio não precisou trabalhar muito? Machado foi um gênio porque deixou uma obra rica, complexa, atual, cuja marca é o fato de ser sempre relida e interpretada sem que se esgote com isso. Não é o “milagre” latino-americano que críticos como Harold Bloom viram, porque surgiu num contexto histórico – que incluía uma das mais brilhantes gerações de intelectuais brasileiros, senão a mais – e com ele se relacionou profundamente. Gênios não nascem por combustão espontânea. Machado soube ser nacional e internacional ao mesmo tempo. Seus leitores, nem sempre.